
Quem acompanhou Outlander desde o começo sabe que Brianna MacKenzie não foi sempre a personagem mais fácil de amar. Rebelde, impulsiva, cheia de arestas, ela chegou à série carregando o peso de uma identidade fragmentada e uma raiva difícil de conter. Mas o tempo, as escolhas e as cicatrizes que a vida impõe a qualquer um fizeram o que a juventude não conseguiu: transformaram Brianna na âncora da família Fraser.
Agora, com Outlander chegando ao fim depois de oito temporadas na Starz, Sophie Skelton olha para a personagem que interpreta desde a quarta temporada com um carinho que mistura alívio e orgulho. E avisa: quem for assistir aos últimos episódios que se prepare emocionalmente.
“Eu provavelmente teria um amigo por perto e uma caixa de lenços à mão“, disse a atriz. “E talvez uma dose de algo forte.“
Em entrevista ao TV Guide, Skelton não escondeu o afeto por essa fase final de Brianna. “Jogar com a Brianna nesse momento da vida dela tem sido minha era favorita da personagem”, afirmou.
“Sempre tive muita simpatia por ela. Ela cresceu tentando entender a adolescência, o que já é difícil por si só, enquanto ainda lidava com a questão da paternidade, a morte do pai Frank e a sensação de que aquilo era culpa dela. Ela passou por muita coisa, mas de alguma forma se tornou o pilar de todo mundo.”
Para Skelton, a virada é clara: “Eu sempre senti que ela vinha com o caos. Agora ela é quase uma voz tranquila, racional, no meio de toda a loucura.”
Esse equilíbrio fica evidente no oitavo episódio da oitava temporada, intitulado “Na Floresta“. É Brianna quem recebe William Ransom (Charles Vandervaart), seu meio-irmão que aparece no Ridge sem conseguir admitir que, na verdade, quer ver o pai, Jamie (Sam Heughan).
William carrega o peso de ter descoberto que o homem que o criou, Lord John Grey (David Berry), era gay, e resiste a aceitar Jamie como figura paterna. Para piorar, seu novo interesse romântico, Amaranthus Cowden (Carla Woodcock), acabou de lhe partir o coração.
Brianna ouve, acolhe e orienta. E Skelton adorou a dinâmica. “Foi muito interessante poder ser a Brianna orientando o William, ajudando-o a não cometer os mesmos erros que ela cometeu”, disse. “Foi quase como aquela ideia de abraçar e perdoar o seu eu mais jovem. Fazer isso objetivamente com um irmão foi uma forma fascinante de encarar essa questão.”
A engenheira que inventou o futuro no passado

Mas o feito mais impressionante de Brianna no episódio não é sentimental, é técnico. Com a sombra da morte de Jamie na Batalha de King’s Mountain pairando sobre a família, por conta do livro histórico escrito pelo pai Frank (Tobias Menzies), Brianna decide agir.
Ela já havia conseguido armas para os homens do Ridge ao lado de Roger (Richard Rankin), mas decide ir além: usa o treinamento de engenharia que adquiriu no século XX para replicar, ou melhor, inventar pela primeira vez no ano de 1780, o rifle Hall, uma espingarda capaz de ser recarregada e disparada com muito mais velocidade do que os mosquetes da época.
A cena que mostra Brianna construindo a arma ao longo do tempo, com a barriga de gravidez crescendo como marcador dos dias, é seguida por uma pequena competição com o próprio pai. Ela vence, sem drama, com a naturalidade de quem simplesmente sabe o que está fazendo.
Para chegar autêntica à cena, Skelton trabalhou com o armeiro da produção, Scott Rogers, para entender cada detalhe da arma. O objetivo era garantir que a familiaridade fosse real na hora das filmagens. “Eu queria ter certeza de que, naquele trecho com o Sam, eu realmente chutei a bunda dele de verdade”, brincou a atriz.
O momento tem menos de exibicionismo e mais de propósito. “Foi executado de forma quieta, calma”, disse Skelton. “Ela simplesmente foi lá e fez. Uma versão menos barulhenta do que a Brianna de antes teria feito. Um dos maiores desafios dela ao longo de todas as temporadas foi não poder ser autenticamente ela mesma: a engenheira formada pelo MIT, inteligente, racional. Foi bom ver a Brianna flexionar esses músculos.”
A grande revelação do livro de Frank
O episódio também traz uma das revelações mais tocantes da temporada. O livro que Frank deixou, e que Jamie e Claire (Caitriona Balfe) passaram a temporada inteira temendo ser uma forma de punição póstuma ao amor dos dois, não era direcionado a eles.
A dedicatória era para “Deadeye” (Atiradora), apelido de Brianna, dado em reconhecimento à sua pontaria certeira. Frank escreveu o livro para que a filha soubesse exatamente como e quando a vida de Jamie precisaria ser salva. O problema é que Brianna nunca o leu.
“Talvez eu seja mais curiosa do que a Brianna”, disse Skelton com bom humor, “mas acho tão interessante que ela não tenha lido o livro. Eu entendo o porquê, porque é difícil, e provavelmente é o último pedaço de Frank que ela quer guardar com cuidado, assim como fez com as cartas de Jamie e Claire. Mas, vamos lá, Brianna. Seja mais bisbilhoteira, abre o livro!“
Para a atriz, a revelação não chega como uma reviravolta surpreendente. Ela nunca duvidou das intenções de Frank. Mas isso não significa que Outlander abdicou das surpresas nos episódios restantes.
A morte de Fergus Fraser (César Domboy) num incêndio criminoso em sua gráfica, no episódio anterior, ainda ecoa no ar. E Skelton faz questão de deixar um aviso claro para quem está em casa achando que o clima mais tranquilo e reconfortante deste oitavo episódio define o tom do final.
“É Outlander, certo?” disse a atriz. “Você sempre deve estar se preparando para algo. A gente te levanta, te deixa muito feliz, reúne toda a família, coloca um sorriso no seu rosto e então parte o seu coração ao meio. Dado que são os dois últimos episódios de toda a série, eu teria um amigo por perto e uma caixa de lenços. E talvez uma dose de whisky.“
Outlander está disponível no Disney+.