Fúria: atriz explica o que levou Nora ao limite após 20 anos no FBI

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Furia-Hulu Fúria: atriz explica o que levou Nora ao limite após 20 anos no FBI

Desde os primeiros episódios de Fúria, Nora Washington parece carregar um cansaço que vai muito além da investigação conduzida por Alice Black. A veterana do FBI demonstra pouca paciência, desconfia das pessoas ao seu redor e costuma agir como alguém que já viu o sistema fracassar vezes demais.

Aos poucos, a série apresenta pistas sobre o passado da personagem de Quincy Tyler Bernstine. São mais de duas décadas dentro da agência, casos especialmente difíceis e uma carreira que não avançou da mesma forma que a de vários colegas homens.

Para a atriz, entender esse histórico foi essencial para construir Nora. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Bernstine explicou como racismo, desigualdade profissional, exposição contínua a crimes contra crianças e alcoolismo ajudam a entender a agente que o público encontra em Fúria.

Essas declarações chegam às vésperas do oitavo e último episódio da primeira temporada, marcado para esta segunda-feira, 31 de agosto, no Disney+. A série já foi renovada para a segunda temporada pelo Hulu.

Nora passou 20 anos vendo outros avançarem no FBI

Nora está no FBI há mais de 20 anos. Durante esse período, viu homens ao seu redor subirem profissionalmente enquanto ela encontrava obstáculos que não estavam necessariamente relacionados à qualidade de seu trabalho.

Bernstine considera importante que Fúria não transforme esse problema em algo que precisa ser anunciado constantemente para que o público perceba. Para a atriz, as limitações enfrentadas por Nora fazem parte da própria estrutura na qual ela passou toda a carreira, inclusive por ser uma mulher negra dentro da instituição.

Duas décadas nessa situação deixaram marcas. Nora precisou se proteger e criar uma postura capaz de suportar frustrações sucessivas sem abandonar completamente o trabalho que escolheu fazer.

Há outro elemento ainda mais pesado nessa rotina. Entre as atribuições da agente está a análise de vídeos relacionados a abuso sexual infantil.

Bernstine destacou o quanto considera angustiante imaginar pessoas realizando esse tipo de trabalho diariamente. Para Nora, existe ainda a frustração de enfrentar conteúdos tão perturbadores e saber que nem sempre as investigações terminam com os responsáveis punidos.

Esse contexto ajuda a explicar o cinismo da personagem. Nora ainda acredita que seu trabalho tem algum propósito, caso contrário provavelmente já teria deixado o FBI, mas perdeu qualquer ingenuidade sobre a capacidade das instituições de corrigirem todas as injustiças.

Um dos momentos mais reveladores acontece quando ela finalmente parece ter a oportunidade de colocar para fora anos de ressentimento. A sensação de vitória, porém, dura pouco.

Bernstine resume o que acontece em seguida de forma direta: “O sistema falha com ela.”

A situação também dialoga com um dos principais temas de Fúria. A série acompanha mulheres que tiveram motivos para desconfiar justamente das instituições que deveriam protegê-las. Emmy Rossum, que interpreta Alice e também é produtora executiva, já explicou o cuidado da produção ao abordar violência contra mulheres sem depender de cenas explícitas de agressão.

Alcoolismo de Nora não é tratado como caricatura

Outra parte importante da personagem é sua relação com o álcool. Nora bebe muito, mas Bernstine gostou especialmente da decisão de não representá-la apenas por cenas exageradas de embriaguez.

Na maior parte do tempo, ela continua trabalhando e cumprindo suas funções. A atriz descreve Nora como “altamente funcional”, embora exista quase permanentemente em uma região intermediária entre os efeitos da bebida e a ressaca.

Isso não significa que a situação esteja sob controle. Conforme a pressão sobre a investigação aumenta, os problemas de Nora também se tornam mais difíceis de esconder.

A forma como a série apresenta esse comportamento combina com o restante da personagem. O alcoolismo não aparece isoladamente, como um defeito colocado no roteiro sem contexto. Ele está associado aos anos de frustração, ao tipo de crime com o qual Nora trabalha e ao desgaste acumulado dentro do FBI.

A própria investigação conduzida por Alice começa a tocar em partes desse passado. No episódio 5 de Fúria, por exemplo, surgem dúvidas sobre a atuação de Nora em um antigo caso e sobre decisões tomadas anos antes.

Alice inicialmente encontra resistência quando tenta se aproximar da veterana. Bernstine acredita, porém, que há uma razão para Nora não conseguir simplesmente ignorar a agente mais jovem.

“Nora vê muito de si mesma em Alice”, explicou a atriz.

Alice representa uma versão anterior da própria Nora, ainda determinada a insistir quando alguma coisa parece errada e menos acostumada a aceitar os limites impostos pela instituição. Nora reconhece a competência da nova agente mesmo quando não gosta de seus métodos ou de sua insistência.

A resistência acaba se transformando em uma relação de parceria. Alice insiste até conquistar espaço, enquanto Nora começa a funcionar também como alguém capaz de mostrar à colega o que décadas dentro do sistema podem fazer com uma pessoa.

Essa relação ganha peso porque Fúria coloca suas personagens diante da mesma pergunta por caminhos diferentes: o que resta quando a Justiça não oferece a resposta esperada?

Nora ainda trabalha dentro da lei. Catherine escolheu outro caminho. Alice está justamente no meio dessa disputa, tentando confiar em uma instituição enquanto descobre quantas vezes ela já deixou mulheres desamparadas.

O último episódio da primeira temporada de Fúria estreia nesta segunda-feira, 31 de agosto, no Disney+. A série é produzida pela 20th Television e Searchlight Television e tem Emmy Rossum, Lola Petticrew, Quincy Tyler Bernstine, Scoot McNairy e Jake Lacy no elenco.

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