
Produções policiais que abordam violência contra mulheres costumam enfrentar uma decisão difícil. Até onde uma série precisa mostrar o que aconteceu para que o público entenda a gravidade daquilo que suas personagens viveram?
Em Fúria, novo suspense criminal disponível no Disney+, a resposta foi encontrada fora das reconstituições explícitas. A série acompanha mulheres marcadas por abuso, exploração e violência sexual, mas evita transformar essas experiências em cenas feitas apenas para chocar.
Emmy Rossum, protagonista e produtora executiva, explicou que essa escolha foi definida desde a construção do projeto. Em vez de retornar ao momento da agressão por meio de flashbacks, os episódios mostram como o passado altera relações, decisões, medos e ideias sobre justiça.
A abordagem também ajuda a entender por que Alice Black, a agente do FBI vivida por Rossum, e Catherine, a assassina em série interpretada por Lola Petticrew, parecem ocupar lados opostos e, ao mesmo tempo, carregam feridas que afetam cada passo da perseguição entre elas.
“Nada é gratuito” em Fúria
Em entrevista à Us Weekly, Rossum afirmou que a equipe tomou cuidado para não usar a violência contra as personagens como espetáculo.
“Esta é uma série feita principalmente por mulheres. Dá para sentir isso na forma como as mulheres e as vítimas são tratadas.”
A atriz resumiu o princípio adotado pela produção em uma frase direta: “Nada é gratuito.”
Segundo Rossum, não existem flashbacks que mostrem as agressões sofridas pelas personagens. O público recebe essas informações por outro caminho, ao observar como cada mulher reage no presente e como aquilo que viveu interfere em sua rotina.
“Não há flashbacks mostrando a violência contra elas, mas sentimos isso em todos os aspectos. Podemos ver as formas específicas como isso aparece na vida delas.”
Para a atriz, acompanhar as consequências pode dizer mais sobre uma pessoa do que reproduzir na tela o instante da violência. A escolha não torna o conteúdo menos duro. Ela desloca a atenção do ato cometido pelo agressor para a sobrevivente e para aquilo que permanece depois.
Esse cuidado é especialmente importante em uma série que trabalha com abuso sexual, tráfico de pessoas e falhas dentro de instituições responsáveis por proteger vítimas. Fúria não esconde a gravidade desses assuntos, mas também não depende de imagens explícitas para deixar claro o que está em jogo.
Alice e Catherine fogem da ideia da “vítima perfeita”

Elizabeth Meriwether, criadora, roteirista e produtora executiva, também quis evitar uma representação muito comum na televisão: a mulher que sofre violência e passa a ser escrita como alguém sem contradições, sempre correta e fácil de apoiar.
“Muitas vezes, vemos na televisão mulheres que são vítimas apresentadas como vítimas perfeitas, quase com auréolas.”
Meriwether explicou que a série tenta mostrar como o abuso pode aparecer de maneiras inesperadas e levar alguém a decisões difíceis. Isso não significa justificar crimes ou apagar responsabilidades. A intenção é reconhecer que sobreviver não transforma automaticamente uma pessoa em símbolo de pureza moral.
Alice Black exemplifica essa proposta. Antes de entrar no FBI, ela trabalhava como detetive de homicídios no Departamento de Polícia de Nova York. Sua carreira mudou depois que denunciou abusos cometidos por Marshall, antigo parceiro profissional e pessoal, interpretado por Jake Lacy.
Ao chegar ao FBI, Alice precisa recomeçar em uma função de nível inicial, como agente em período probatório. A experiência com Marshall contribui para seu isolamento e para a insistência em investigar casos envolvendo mulheres e meninas que não receberam proteção adequada. A descrição oficial do Disney+ confirma que Alice inicia a história depois de deixar o trabalho como detetive de homicídios.
Catherine segue por outra direção. Ela mata homens que exploram meninas e passa a ser perseguida por Alice. A série, porém, não trata seus assassinatos como uma resposta simples ou correta. O confronto entre as duas expõe a distância entre justiça prevista em lei e vingança executada por conta própria.
É nessa diferença que Fúria encontra seu principal conflito. Alice trabalha dentro de um sistema que já falhou com ela. Catherine decide agir fora desse sistema, com métodos que produzem novas vítimas e novos crimes.
A relação entre as personagens também se conecta à origem do projeto. Como já explicamos ao detalhar a inspiração da série, Fúria parte livremente de O Mistério da Viúva Negra, suspense de 1987 estrelado por Debra Winger e Theresa Russell. A produção atual, no entanto, altera personagens, motivações e contexto para desenvolver uma história própria.
Lola Petticrew pesquisou o papel com limites bem definidos

Interpretar Catherine exigiu pesquisa sobre experiências próximas às enfrentadas pelas personagens fictícias. Petticrew contou que o desafio era adquirir informação suficiente para trabalhar com responsabilidade sem tratar a dor de sobreviventes reais como material a ser consumido.
“É preciso encontrar o limite entre fazer a pesquisa necessária e não explorar pessoas que passaram pelo que nossas personagens passaram. Foi um trabalho muito delicado.”
Meriwether indicou livros e vídeos que poderiam oferecer contexto, enquanto os próprios roteiros deram a base necessária para a construção de Catherine. Esse processo ajudou Petticrew a compreender a personagem sem reduzir sua história a uma explicação fácil e sem usar o passado como desculpa automática para seus atos.
Petticrew também decidiu não permanecer psicologicamente presa ao papel depois das filmagens. Para isso, contou com o apoio do elenco e da equipe, que mantiveram um ambiente de trabalho acolhedor apesar do peso dos temas tratados.
“Você precisa entrar e fazer o melhor trabalho possível, e não consegue fazer isso se deixar o papel consumir você.”
Quando saem os próximos episódios de Fúria?
Fúria estreou em 27 de julho no Disney+ com três episódios. A primeira temporada tem oito capítulos, e os cinco restantes serão lançados semanalmente, sempre às segundas-feiras.
O episódio seguinte chega em 3 de agosto. Depois, a programação continua nos dias 10, 17, 24 e 31 de agosto, data marcada para o final da temporada.
Além de Rossum, Petticrew e Lacy, o elenco inclui Scoot McNairy e Quincy Tyler Bernstine. Elizabeth Meriwether assina a criação, o roteiro e a produção executiva, enquanto Rossum participa da produção por meio de sua empresa, a Composition 8.
Quem ainda não começou a série pode conferir o trailer e os principais detalhes de Fúria antes de assistir aos três primeiros capítulos já disponíveis no Disney+.