
A Disney anunciou uma nova rodada de demissões em toda a empresa recentemente, afetando desde equipes de home video até a ESPN. Mas um corte específico chamou atenção no mundo do entretenimento: a Marvel Studios perdeu praticamente todo o seu time de desenvolvimento visual, o grupo responsável por definir a identidade estética do Universo Cinematográfico da Marvel ao longo das últimas duas décadas.
O time era composto por cerca de 13 a 15 pessoas. Artistas que passaram anos criando figurinos, personagens e os chamados keyframes, aquelas ilustrações que antecipam cenas fundamentais de um filme antes mesmo do início das filmagens.
Um post do artista Wesley Burt viralizou entre profissionais do setor. Ele descreveu a ironia de ter recebido a notificação de demissão em uma sala de reuniões decorada com o mural do Loki que ele mesmo criou.
O encerramento desse time marca o fim de um ciclo que durou duas décadas, e vem com perguntas sérias sobre o que vem a seguir para o MCU.
O que o time de desenvolvimento visual realmente fazia
Michael Uwandi, artista que trabalhou na Marvel em projetos como Cavaleiro da Lua e Capitão América: Admirável Mundo Novo, explicou à Polygon como o trabalho funcionava na prática.
“Muitas vezes, quando esses filmes chegam até nós, somos designados para determinados personagens”, disse Uwandi. “Mas geralmente nem temos um roteiro no começo, então estamos verdadeiramente criando visuais que vão inspirar o filme.”
Esse processo incluía o design dos personagens, seus figurinos e os keyframes, descritos por Uwandi como “uma imagem estática de uma cena do filme, geralmente orientada para ação ou para a história.”
Ou seja, o time não apenas executava ordens. Ele participava ativamente da criação desde os estágios mais iniciais de cada produção.
Uwandi também destacou a conexão profunda que esses artistas tinham com o material original dos quadrinhos.
“Quando você entende algo nesse nível, sabe exatamente o que os fãs querem ver. Sabe exatamente como ousar enquanto mantém tudo próximo do fã.”
Em contraste, ele observou que profissionais vindos da indústria cinematográfica tradicional tendem a se afastar da estética dos quadrinhos, algo que o time interno justamente evitava.
Uma segunda fonte, que pediu anonimato e trabalhou em produções como Deadpool & Wolverine e Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, revelou que a relação entre o time de desenvolvimento visual e outros departamentos nem sempre foi tranquila.
“Essa equipe era algo que o Kevin [Feige] realmente queria porque, sendo fã de quadrinhos, ele tinha uma visão particular de como as coisas deveriam ser traduzidas”, disse a fonte. “Frequentemente nos diziam que outros departamentos não gostavam de ter essa equipe por perto. Não era uma rivalidade, mas havia uma certa política entre os departamentos.”
Segundo as informações obtidas, a Marvel expandiu consideravelmente o time durante o período de maior produção de conteúdo para o Disney+.
Os cortes agora refletem uma contração alinhada com a nova direção do estúdio. Ainda assim, a fonte não descarta que as tensões internas possam ter facilitado a decisão.
“Sei que muitos departamentos diferentes, especialmente o de design de figurinos, não gostavam de ter a gente por perto.”
O risco para a coesão do MCU

Para Uwandi, a dissolução do time é uma decisão equivocada do ponto de vista estratégico.
O time interno criava uma familiaridade e um ritmo de trabalho difícil de replicar com contratados externos. Artistas freelancers, que pulam de projeto em projeto com diferentes estúdios e sensibilidades estéticas, levam mais tempo para entrar no ritmo.
O resultado pode ser uma perda de consistência visual entre os filmes, algo que o MCU construiu com cuidado ao longo de décadas.
“Trabalhando internamente, você se inspira e se motiva pelos seus colegas de trabalho”, disse Uwandi. “Sem estar no estúdio, é muito menos pessoal.”
Segundo ele, o time de desenvolvimento visual era o fio condutor entre todos os projetos. Com a sua extinção, manter uma identidade visual coesa entre filmes com diretores, estilos e gêneros diferentes se tornará um desafio real.
A questão da inteligência artificial
O grande X da questão, claro, é a possibilidade de que parte dessas funções seja substituída por inteligência artificial generativa.
Uwandi foi direto: “Não tenho certeza, mas não ficaria surpreso, infelizmente.”
A segunda fonte foi ainda mais específica, afirmando que colaboradores externos que trabalharam em projetos recentes do MCU já utilizavam IA no processo criativo.
“Definitivamente sinto que isso faz parte do quadro. Muitas coisas estão sendo direcionadas para IA. Havia outras equipes que já usavam. Não sei se a Marvel declarou isso oficialmente, mas muitos as utilizavam. Não o time de desenvolvimento visual, mas os outros que chegavam de fora, como os departamentos de arte e os designers de figurinos. Eles já usavam.”
Mas uma terceira fonte, também ex-membro do time e anônima, oferece uma perspectiva diferente. Para ela, a decisão tem menos a ver com tecnologia do que com a preferência da Disney por mão de obra freelance em vez de funcionários fixos.
“Posso dizer que não é por causa de IA, porque eles planejam contratar novamente, mas em regime freelance.”
Seja qual for a razão principal, o encerramento desse time representa uma mudança significativa para a Marvel. Uwandi resumiu o sentimento de muitos:
“É uma pena que pessoas estejam perdendo seus empregos e carreiras. O time de vis dev da Marvel esteve lá por 20 anos, e dissolvê-lo assim é realmente lamentável para essas pessoas que foram leais à empresa. Elas poderiam ter ido para qualquer outro lugar, mas escolheram ficar na Marvel.”