
A ESPN vive um dos momentos mais decisivos de sua história dentro da Disney. A TV por assinatura encolhe nos Estados Unidos, gigantes da tecnologia disputam direitos esportivos e o público se acostumou a assistir tudo sob demanda, até mesmo eventos ao vivo.
Nesse cenário, vender ou separar a ESPN da Disney parecia, para muita gente em Wall Street, uma saída tentadora. Afinal, o mercado financeiro costuma reagir bem quando uma empresa se livra de um negócio visto como problemático ou em queda.
Mas Bob Iger nunca enxergou a ESPN apenas como um canal preso ao velho modelo da TV a cabo. Para ele, a marca continua sendo uma peça valiosa demais para cair nas mãos de um concorrente direto.
E a forma como o ex-CEO resumiu essa preocupação diz muito sobre a disputa atual entre Disney, Netflix, Amazon, Google e outras gigantes pelo controle do entretenimento ao vivo.
Segundo o Financial Times, Iger explicou por que resistiu à ideia de separar a ESPN da Disney, algo que Nelson Peltz, investidor e um dos maiores acionistas da Disney, queria em 2024:
“Imagine se ela acabasse na Netflix? Essa seria uma boa forma de ganhar dinheiro rápido e ignorar completamente o valor e a importância dela para a companhia no futuro?”
A frase mostra que, para Iger, vender a ESPN poderia até render um bom valor imediato, mas também abriria espaço para a Disney fortalecer um rival em uma área que segue sendo rara no streaming: esporte ao vivo em grande escala.
Por que a ESPN continua tão importante para a Disney

A ESPN pertence à Disney há cerca de 30 anos e sempre foi uma das marcas mais fortes do grupo nos Estados Unidos. Para o público brasileiro, vale lembrar que o canal tem uma presença diferente por lá.
Nos EUA, a ESPN não é apenas um canal esportivo dentro de pacotes de TV paga. Ela concentra direitos valiosos, programas diários, eventos ao vivo, debates, jornalismo esportivo e uma relação muito direta com ligas como NBA, NFL, MLB e NHL.
Por isso, a discussão sobre uma possível venda nunca foi simples. De um lado, há o enfraquecimento da TV tradicional, pressionada pelo cancelamento de assinaturas. De outro, há uma verdade difícil de ignorar: esporte ao vivo ainda faz milhões de pessoas pagarem por serviços de TV e streaming.
É justamente esse ponto que ajuda a explicar a resistência de Iger. A ESPN pode estar em transição, mas continua tendo algo que quase todo serviço de streaming deseja: público fiel, eventos ao vivo e uma marca que já faz parte da rotina dos fãs.
Adam Silver, comissário da NBA, reforçou essa leitura ao Financial Times:
“Há uma razão para a ESPN ser chamada de líder mundial dos esportes. É uma propriedade de mídia que, na minha visão, tem fãs de verdade.”
O medo de ver a ESPN nas mãos da Netflix
A menção à Netflix não foi por acaso. A empresa, que por muitos anos se concentrou em filmes, séries e documentários, passou a investir cada vez mais em eventos ao vivo e transmissões esportivas.
Para a Disney, ver a ESPN comprada por uma concorrente desse porte seria mais do que perder um ativo. Seria entregar a uma rival uma marca esportiva já consolidada, com décadas de relação com ligas, anunciantes e assinantes.
Iger tratou a hipótese como um exemplo do risco de pensar apenas no ganho imediato. Na visão dele, a ESPN ainda pode ser útil para a Disney em qualquer formato de distribuição, seja pela TV, por aplicativos próprios ou dentro de pacotes com outras plataformas do grupo.
Essa estratégia já aparece nos Estados Unidos com o ESPN Unlimited, serviço que levou os principais canais da ESPN diretamente ao consumidor. O produto não existe no Brasil nos mesmos moldes e faz parte do mercado americano, onde o pacote também pode ser combinado com Disney+ e Hulu.
O Hulu, para quem acompanha de fora, é outro serviço da Disney nos EUA, voltado principalmente a séries, programas de TV e conteúdo adulto. No Brasil, boa parte desse tipo de catálogo foi incorporada ao Disney+.
A nova fase da ESPN dentro do streaming
A Disney também tem feito movimentos para tornar a ESPN mais forte fora da TV a cabo. Além do ESPN Unlimited, a empresa vem aproximando a marca de transmissões locais e de pacotes esportivos digitais.
Outro passo importante foi o acordo envolvendo a NFL Media. A ESPN comprou ativos ligados à NFL, incluindo o NFL Network, enquanto a liga ficou com uma participação de 10% na ESPN. A NFL é a liga esportiva mais poderosa dos Estados Unidos e tem um peso enorme na audiência da TV americana.
Esse tipo de acordo ajuda a explicar por que a Disney ainda vê valor na ESPN. Mesmo com os desafios da TV paga, os esportes ao vivo continuam atraindo anunciantes, assinantes e parceiros estratégicos.
A venda da ESPN poderia agradar investidores no curto prazo, mas também tiraria da Disney uma das poucas marcas capazes de competir em uma área onde o streaming ainda tenta encontrar seu melhor formato.
Por enquanto, a ESPN segue dentro da Disney, agora sob a liderança de Josh D’Amaro. A decisão pode mudar no futuro, mas a posição deixada por Bob Iger é clara: abrir mão da ESPN seria muito mais arriscado do que parece.