Empregos para roteiristas despencam 27%, mas relatório não culpa a inteligência artificial

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Letreiro-Hollywood Empregos para roteiristas despencam 27%, mas relatório não culpa a inteligência artificial

A redução no ritmo de produção em Hollywood já pode ser percebida por quem acompanha filmes e séries. Temporadas ficaram menores, projetos passaram mais tempo em desenvolvimento e várias produções anunciadas durante a expansão do streaming nunca saíram do papel.

Nos bastidores, as consequências são ainda mais claras. Salas de roteiristas encolheram, contratos passaram a durar menos semanas e profissionais que antes conseguiam trabalhar em projetos consecutivos agora enfrentam intervalos maiores entre uma contratação e outra.

A situação não começou com as greves de 2023, embora a paralisação tenha aprofundado um período que já era difícil. Antes disso, os estúdios vinham reduzindo encomendas de episódios e revendo os gastos feitos durante a disputa por assinantes entre as plataformas.

Os números mais recentes da Writers Guild of America West, divisão da associação que representa roteiristas no oeste dos Estados Unidos, mostram o tamanho dessa mudança. Em apenas três anos, Hollywood perdeu quase dois mil roteiristas com rendimentos registrados pelo sindicato.

Segundo dados do relatório financeiro anual obtidos pelo Deadline, somente 5.072 membros da WGA West declararam algum rendimento profissional em 2025. Em 2022, quando o mercado atingiu seu ponto mais alto, esse número estava próximo de sete mil. Isso representa uma queda de aproximadamente 27% no total de roteiristas com trabalho remunerado durante o período.

É importante observar que o levantamento considera membros que tiveram rendimentos registrados em produções cobertas pelos contratos da WGA. Portanto, os dados não equivalem a uma taxa geral de desemprego de todos os profissionais que escrevem para o setor, mas oferecem um dos retratos mais confiáveis sobre a disponibilidade de trabalho nos grandes estúdios e plataformas dos Estados Unidos.

Queda foi muito maior na televisão

A televisão, categoria que também inclui boa parte das séries produzidas para streaming, foi a área mais atingida. O número de roteiristas com rendimentos caiu mais de 33% desde 2022.

Entre 2024 e 2025, a redução geral no emprego foi de 10,2%. Apesar disso, os roteiristas que continuaram trabalhando receberam juntos cerca de US$ 1,7 bilhão em pagamentos iniciais durante o último ano, apenas 1,3% abaixo do total de 2024.

A diferença entre a forte redução no número de profissionais contratados e a queda bem menor nos valores pagos indica que o dinheiro está sendo dividido entre menos pessoas. Uma possível explicação é que os trabalhos disponíveis estejam ficando concentrados entre roteiristas mais experientes, com bons contatos profissionais e condições de negociar cachês maiores.

Ordens menores de episódios também ajudam a entender o problema. Uma série que anteriormente contratava uma equipe para produzir 20 ou mais capítulos pode agora ter apenas oito ou dez episódios. Mesmo quando o programa é renovado, a sala de roteiristas permanece aberta por menos tempo.

A retração faz parte de uma revisão mais ampla das estratégias adotadas durante a expansão do streaming. A Disney, por exemplo, já havia indicado que reduziria a quantidade de produções feitas diretamente para suas plataformas após anos de investimentos elevados.

A WGA resumiu a situação de forma direta em seu relatório: “É evidente que a retração continua afetando a indústria”. Segundo a entidade, o cenário é resultado da redução de programas roteirizados depois de um período em que as empresas gastaram acima de níveis sustentáveis.

Mesmo com a concentração dos pagamentos, os rendimentos totais permanecem aproximadamente 25% abaixo do pico alcançado em 2022.

Cinema perdeu menos vagas e pagou mais

O mercado de filmes também diminuiu, mas a queda foi menor do que na televisão. Em 2025, 2.007 roteiristas de cinema registraram rendimentos, cerca de 14% abaixo do número de 2022.

Ao mesmo tempo, os pagamentos relacionados a longas-metragens cresceram. Os roteiristas de cinema receberam aproximadamente US$ 521 milhões em 2025, avanço de 7,2% em comparação com o ano anterior e o maior valor dos últimos cinco anos.

Isso reforça a diferença entre quantidade de contratos e valores totais. Menos pessoas estão conseguindo trabalhar, mas determinados projetos continuam pagando cachês elevados, principalmente quando envolvem roteiristas estabelecidos, franquias valiosas ou produções de grande orçamento.

A televisão não apresentou a mesma resistência. O encerramento da ABC Signature e a transferência de suas operações para a 20th Television, por exemplo, fizeram parte de uma reorganização que também eliminou dezenas de cargos dentro dos estúdios de TV da Disney.

Pagamentos residuais do streaming caíram pela primeira vez

Outro dado relevante envolve os residuais, pagamentos que roteiristas recebem quando uma obra é reutilizada, reprisada, licenciada ou disponibilizada em determinados mercados e plataformas.

Em 2025, os residuais pagos aos membros da WGA West somaram US$ 535,5 milhões, queda de 4,9% em relação ao ano anterior.

O streaming continuou sendo a maior fonte desse tipo de remuneração. Filmes e séries distribuídos pelas plataformas geraram pouco mais de US$ 330 milhões, contra US$ 346 milhões em 2024.

Foi a primeira redução nominal registrada nos residuais de streaming. Até então, essa categoria vinha crescendo enquanto fontes tradicionais, como TV aberta, canais por assinatura, vídeo doméstico e televisão internacional, perdiam espaço.

Apesar da redução recente, o total de residuais ainda está 14,3% acima do valor registrado há cinco anos. A trajetória, porém, passou a ser descendente a partir de 2022.

Uma exceção aparece nas produções classificadas como HBSVOD, sigla usada para conteúdos de alto orçamento feitos para serviços de vídeo sob demanda por assinatura. Dentro de determinadas faixas de duração e orçamento, os residuais dessa categoria cresceram mais de 300% em cinco anos e chegaram a US$ 77,83 milhões em 2025.

A alta está relacionada ao aumento dos orçamentos de algumas produções e às fórmulas de pagamento negociadas pelo sindicato. O acordo trabalhista ratificado em 2026 também ampliou os residuais nacionais e internacionais para produções de streaming de alto orçamento, incluindo conteúdos distribuídos por plataformas como Disney+ e Hulu.

Dados não mostram que a inteligência artificial causou a queda

A discussão sobre inteligência artificial ganhou espaço entre roteiristas, estúdios e sindicatos, mas o relatório não aponta essa tecnologia como responsável pela redução dos empregos em 2025.

A explicação apresentada pela WGA está ligada principalmente ao corte de produções roteirizadas, à redução das temporadas e ao fim do período de gastos acelerados das plataformas. Associar diretamente os números à inteligência artificial, sem dados adicionais, seria uma interpretação que o levantamento não permite fazer.

Isso não significa que o assunto esteja fora das preocupações da categoria. A WGA continua acompanhando o uso de obras e roteiros no treinamento de sistemas generativos. O sindicato também criticou o acordo firmado entre Disney e OpenAI e pediu garantias para proteger direitos autorais e empregos.

A falta de trabalho já chegou a outras áreas da estrutura sindical. Durante as negociações do novo acordo de 2026, a WGA informou que a retração da indústria reduziu as contribuições destinadas ao plano de saúde dos membros, ao mesmo tempo que mais profissionais passaram a depender de extensões de cobertura.

Os dados de 2025 ainda são preliminares e refletem as informações disponíveis até março de 2026. Novos contratos podem ser registrados posteriormente, o que deve elevar os totais apresentados.

A própria WGA espera que os números finais de 2025 fiquem “mais próximos, embora ainda abaixo, dos resultados de 2024”. Mesmo com futuras revisões, a diferença em relação ao pico de 2022 mostra que a redução de empregos não foi apenas uma interrupção temporária provocada pelas greves. Trata-se de uma mudança prolongada na quantidade de filmes e séries que Hollywood decidiu produzir.

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