
Bob Iger está longe de ser apenas mais um executivo que passou pela Disney. Ao longo de duas fases no comando da empresa, ele esteve por trás de algumas das compras mais importantes da história recente de Hollywood, incluindo Pixar, Marvel, Lucasfilm e 21st Century Fox.
Mas nem todos os planos saíram do papel.
Em uma nova entrevista ao Financial Times, publicada em meio à sua despedida do cargo de CEO da Disney, Bob Iger revisitou negociações que poderiam ter mudado completamente o rumo da empresa. Entre elas estão conversas com a Apple, uma tentativa de comprar o Twitter (atualmente X), o interesse na franquia James Bond e até uma aproximação com o BuzzFeed.
A entrevista também abriu espaço para comentários mais delicados sobre Bob Chapek, seu sucessor e antecessor imediato no comando da Disney, além da polêmica envolvendo Jimmy Kimmel.
Disney e Apple chegaram a conversar sobre uma união

Um dos pontos mais chamativos da entrevista foi a confirmação de que a Disney conversou com a Apple sobre uma possível negociação entre as duas empresas.
Segundo Iger, a ideia chegou a ser discutida internamente na Disney e também foi levada à Apple, mas nunca avançou de verdade.
“Conversamos sobre isso internamente e tivemos algumas conversas com a Apple, mas nunca foi a lugar nenhum. Bem, a Apple não demonstrou tanto interesse.”
A fala chama atenção porque Iger teve uma relação muito próxima com Steve Jobs. O fundador da Apple financiou e ajudou a criar a Pixar, que foi vendida para a Disney em 2006, em um dos acordos mais importantes da gestão de Iger.
O executivo também integrou o conselho da Apple por anos, até deixar o cargo em 2019, quando Disney+ e Apple TV+ se preparavam para disputar espaço no streaming.
No livro Onde os Sonhos Acontecem, lançado em 2019, Iger já havia sugerido que uma união entre Disney e Apple poderia ter sido discutida com mais seriedade se Jobs ainda estivesse vivo.
“Acredito que, se Steve ainda estivesse vivo, teríamos combinado nossas empresas, ou pelo menos discutido essa possibilidade com muita seriedade.”
Twitter quase virou parte da Disney

Outro trecho da entrevista resgata uma história que, em retrospecto, parece ainda mais curiosa. Iger confirmou que a Disney esteve muito perto de comprar o Twitter, hoje chamado X.
O negócio estava em estágio avançado e, segundo ele, seria fechado por um valor bastante atraente. A decisão de recuar veio no próprio dia em que o acordo seria selado.
Iger disse ter percebido que a compra poderia tirar a Disney de seu foco principal.
“Era uma distração.”
A desistência acabou sendo uma das decisões mais marcantes entre os acordos que nunca aconteceram. Anos depois, o Twitter seria comprado por Elon Musk e passaria por uma reformulação profunda, incluindo mudança de nome, cortes internos e alterações na moderação de conteúdo.
Para a Disney, a rede social teria representado um salto para um território difícil de controlar. A empresa sempre teve sua imagem ligada a marcas familiares, parques, cinema, TV e streaming. Administrar uma plataforma aberta, com conteúdo em tempo real e alto risco de crises públicas, seria outro tipo de desafio.
James Bond também entrou na mira

Iger revelou ainda que a Disney analisou a possibilidade de ficar com a franquia James Bond. O movimento teria feito parte de uma estratégia mais ampla de buscar propriedades fortes para reforçar o catálogo da empresa.
Nesse período, a Disney fechou compras que mudaram Hollywood. A Pixar entrou em 2006, a Marvel em 2009 e a Lucasfilm em 2012. Mais tarde, a empresa também comprou grande parte dos ativos da 21st Century Fox.
James Bond, porém, escapou.
Hoje, o controle criativo e empresarial da franquia está ligado à Amazon, após a compra da MGM. Com isso, um dos personagens mais famosos do cinema acabou ficando fora do império de marcas construído por Iger na Disney.
BuzzFeed também esteve perto de um acordo
A entrevista também menciona que a Disney chegou muito perto de comprar o BuzzFeed, empresa de mídia digital que ganhou força com listas, quizzes, reportagens e vídeos feitos para circular nas redes sociais.
O acordo, porém, não foi adiante porque Jonah Peretti, cofundador do BuzzFeed, queria continuar no controle da empresa.
A possível compra mostra como a Disney, em determinado momento, também olhou para o mercado de mídia digital como uma forma de se aproximar do público jovem e ampliar sua presença fora dos formatos tradicionais de cinema, TV e parques.
Iger criticou mudanças feitas por Bob Chapek

Outro ponto forte da entrevista envolve Bob Chapek, que assumiu o cargo de CEO após a primeira saída de Iger e ficou menos de dois anos no comando antes de ser substituído pelo próprio Iger, chamado de volta pelo conselho.
Iger disse ao Financial Times que não via necessidade de mudanças drásticas naquele momento, mas afirmou que Chapek seguiu por outro caminho.
“Não havia necessidade urgente de fazer mudanças drásticas. Mesmo assim, ele fez, trouxe burocracia e criou novas camadas de gestão.”
A relação entre os dois já era vista como um dos bastidores mais sensíveis da Disney nos últimos anos. A entrevista também aborda a decisão de Iger de manter sua sala no complexo da empresa mesmo depois de Chapek assumir como CEO, algo que teria contribuído para o clima desconfortável em Burbank.
Jimmy Kimmel também entrou na conversa

Iger também falou sobre a decisão de suspender Jimmy Kimmel após uma piada envolvendo o assassino de Charlie Kirk, que gerou reação da direita nos Estados Unidos.
Segundo ele, a Disney considerou o comentário inadequado e queria que o apresentador tratasse do assunto.
“Achamos que foi de mau gosto.”
Kimmel apresenta o Jimmy Kimmel Live!, programa exibido pela ABC, emissora pertencente à Disney. Por isso, qualquer polêmica envolvendo o apresentador acaba recaindo diretamente sobre a empresa.
As declarações de Iger mostram que sua saída do cargo de CEO não encerra apenas uma fase administrativa. Ela também fecha um período em que a Disney se viu diante de escolhas gigantescas, algumas concretizadas, outras abandonadas no último minuto, e algumas que poderiam ter mudado totalmente o mapa do entretenimento.