
Filmes que não custam centenas de milhões de dólares, mas também estão longe do cinema independente de baixo custo, enfrentam há anos uma posição complicada em Hollywood. Muitos projetos adultos, dramas e produções que exigem efeitos visuais acabam disputando espaço com franquias gigantescas e investimentos cada vez mais concentrados.
A inteligência artificial entrou nessa equação como mais um fator capaz de alterar custos e métodos de produção. O assunto permanece cercado por preocupações sobre empregos, direitos de imagem, autoria e o uso de trabalhos protegidos, mas também há profissionais da indústria interessados nas possibilidades oferecidas pelas novas ferramentas.
Brad Pitt está entre aqueles que enxergam espaço para a tecnologia, desde que ela funcione como instrumento nas mãos de pessoas e não simplesmente como substituta do trabalho humano.
Em uma longa entrevista à Esquire, o ator de 62 anos explicou por que acredita que a IA pode facilitar a produção de uma categoria de filmes que Hollywood tem dificuldade para financiar atualmente.
Para Pitt, a principal oportunidade está nos longas com orçamentos entre US$ 40 milhões e US$ 90 milhões, aproximadamente R$ 217 milhões a R$ 488 milhões em uma conversão simples, sem considerar variações cambiais, impostos ou custos locais de produção.
“Existe muita resistência à IA, mas a IA será justamente aquilo que, se usada como ferramenta, vai ajudar esses filmes de médio orçamento, produções de US$ 40 milhões a US$ 90 milhões, a serem feitos”, afirmou.
A observação surgiu enquanto Pitt falava sobre efeitos visuais. Para determinados projetos, sequências que dependem desse tipo de trabalho podem elevar o orçamento a um nível que torna o financiamento mais difícil. Na visão do ator, ferramentas de IA poderiam assumir algumas dessas tarefas e ajudar a manter os custos dentro de uma faixa viável.
A posição de Pitt se aproxima de uma discussão que já ocorre dentro dos próprios estúdios. A Disney, por exemplo, selecionou para o Disney Accelerator de 2026 uma empresa especializada em produção audiovisual com IA. A Promise trabalha com o MUSE, um sistema criado para integrar ferramentas de inteligência artificial a diferentes etapas de filmes, séries e efeitos visuais.
Brad Pitt acredita que IA pode substituir atores?
A conversa ganhou outro rumo quando Pitt foi questionado sobre um vídeo publicado nas redes sociais que usava inteligência artificial para criar uma luta entre ele e Tom Cruise, estrela da franquia Missão: Impossível.
A pergunta era inevitável: se um computador já consegue produzir algo assim, atores reais poderiam eventualmente ser substituídos?
Pitt não descartou completamente a possibilidade técnica, mas apontou uma diferença que considera fundamental. Mesmo que seja possível montar uma atuação artificial, ainda existe alguém por trás da ferramenta tomando decisões.
“Depende de quem está criando, sabe? Quem está por trás disso, quem está contando a história, quem está dizendo: ‘Quero ver esta emoção nele’, e depois consegue examinar o que a IA oferece e dizer: ‘Mais nesta direção’, ajustando dessa forma”, explicou.
Segundo ele, uma versão digital poderia até reproduzir determinados elementos de sua atuação. Ainda assim, o resultado não necessariamente refletiria as escolhas que o próprio ator faria durante as filmagens.
“Eles poderiam fazer isso, mas o produto final talvez não tivesse as minhas escolhas e aquilo que eu descobri durante o processo.”
Pitt resumiu a situação de maneira cautelosa: “Vai ser um experimento muito interessante.”
Essa distinção entre usar IA como ferramenta e entregar a ela o controle criativo também aparece nas regras adotadas por algumas instituições do cinema. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas já deixou claro que filmes que utilizam inteligência artificial continuam podendo disputar o Oscar, mas o grau de autoria humana permanece entre os elementos considerados na avaliação das obras.
Ator revela que manda destruir seus escaneamentos digitais
Brad Pitt também contou que a possibilidade de reproduzir digitalmente uma pessoa não é uma preocupação recente para ele.
Segundo o ator, produções fazem escaneamentos de seu corpo há cerca de 20 anos. Pitt afirma que inclui nos contratos uma cláusula que garante a ele a propriedade desses arquivos digitais.
E sua solução até agora foi bastante radical: destruí-los.
“Tenho sido escaneado nos últimos 20 anos e sempre coloquei no meu contrato que eles pertencem a mim e que eu os destruo. Eu deveria ter guardado! Todo esse tempo eu sempre mandei destruir porque sou um garoto paranoico do Ozarks”, brincou.
A precaução ganhou uma relevância diferente com a evolução recente dos sistemas capazes de reproduzir rostos, movimentos e vozes. No caso de Pitt, esses arquivos poderiam fornecer material extremamente detalhado de sua aparência em diferentes fases da carreira.
O ator ainda contou que ouviu recentemente uma música criada por IA e considerou o resultado “muito bom”, embora tenha percebido um caráter repetitivo. Para ele, a experiência ainda não se compara a ouvir uma pessoa real cantando.
“Não vai ser igual a ouvir a voz dela, a voz de uma mulher, a voz de uma pessoa.”
Ao falar sobre uma apresentação que havia assistido pouco antes, Pitt foi ainda mais direto sobre o que acredita permanecer fora do alcance das máquinas: “A IA não consegue fazer isso.”
A posição chama atenção principalmente por vir de um ator que trabalha há décadas em grandes produções e já passou por diferentes gerações de efeitos visuais. Pitt estrelou filmes como Seven – Os Sete Crimes Capitais, Clube da Luta, Snatch – Porcos e Diamantes, O Curioso Caso de Benjamin Button, Bastardos Inglórios e Era Uma Vez em… Hollywood.
Sua avaliação não trata a inteligência artificial como substituta automática de artistas. O ponto defendido pelo ator é mais específico: se usada para reduzir despesas técnicas que hoje tornam certos projetos difíceis de financiar, a tecnologia pode abrir espaço para filmes que ficam entre as pequenas produções e os grandes blockbusters.
É justamente nessa faixa de orçamento que Pitt acredita estar uma das aplicações mais interessantes da IA no cinema, enquanto a discussão sobre quem controla essas ferramentas, quais trabalhos podem ser utilizados e até onde uma reprodução digital de um ator pode ir continua longe de estar encerrada.