
Há sete anos, essa ideia poderia parecer uma piada. Foi quando a Disney apostou o próprio futuro no streaming. A empresa investiu bilhões de dólares no Disney+, retirou seus maiores filmes e séries de plataformas concorrentes e se transformou de uma das principais licenciadoras de conteúdo de Hollywood em rival direta da Netflix.
Agora, uma das instituições mais tradicionais de Wall Street está fazendo uma pergunta que quase ninguém imaginaria há alguns anos: e se a Disney simplesmente desistisse de tudo isso?
Um relatório divulgado no fim de semana sugere que a empresa poderia abandonar de vez o negócio de streaming e retomar o modelo de licenciamento que rendeu bilhões antes mesmo de o Disney+ existir.
Não se trata de rumor nem de informação vazada. A Disney, é claro, não anunciou nenhum plano nesse sentido. Mas o simples fato de uma empresa respeitada defender essa tese já mostra o quanto a conversa sobre streaming mudou nos últimos tempos.
Uma proposta e tanto
De acordo com um relatório da Wells Fargo, um dos maiores e mais tradicionais bancos dos Estados Unidos, o futuro da Disney a longo prazo pode ser mais sólido sem o Disney+.
Em vez de seguir brigando com Netflix, YouTube, Amazon Prime Video e outras gigantes do streaming, a Wells Fargo defende que a Disney deveria voltar a fazer o que sempre soube fazer melhor: produzir entretenimento de alto nível e licenciá-lo para outras distribuidoras.
O analista Steven Cahall, que assina o relatório, acredita que remover os custos altíssimos de manter uma plataforma de streaming global poderia melhorar bastante as perspectivas financeiras da companhia.
O que mais chama atenção é a estimativa de valorização. Steven Cahall calcula que essa mudança poderia elevar o valor das ações da Disney em cerca de 40%, simplificando o negócio da empresa e permitindo que os executivos concentrem esforços na propriedade intelectual e na divisão de parques e experiências.
Em suas próprias palavras, o analista escreveu que a estratégia “poderia adicionar cerca de 40% ao preço da ação ao reduzir o risco do lucro por ação e concentrar o foco da gestão em IP e experiências”.
Para uma empresa que passou anos convencendo investidores de que o streaming era o caminho do futuro, trata-se de uma reviravolta e tanto.
Quando tudo mudou para o Disney+

Quando o Disney+ foi lançado em 2019, a estratégia de negócios da empresa mudou por completo. Em vez de licenciar Marvel, Pixar, Star Wars, Disney Animation e a programação do Disney Channel para outras companhias, a Disney passou a manter praticamente tudo dentro do próprio ecossistema.
Essa decisão ajudou o serviço a atrair assinantes num ritmo impressionante. Em poucos meses, o Disney+ já era uma das plataformas de streaming que mais cresceram na história.
Só que esse crescimento veio com um preço alto.
Manter uma operação de streaming em escala mundial exigiu bilhões de dólares em tecnologia, infraestrutura, produções originais, expansão internacional, marketing e suporte ao cliente.
Ao mesmo tempo, a Disney abriu mão de uma receita enorme de licenciamento ao recusar vender seus maiores títulos para os concorrentes.
Durante anos, os executivos argumentaram que esse sacrifício de curto prazo traria retorno no futuro. Alguns analistas agora acreditam que esse retorno talvez nunca chegue por completo.
O licenciamento nunca desapareceu de verdade
Um dos aspectos mais curiosos do relatório de Cahall é que ele olha para trás, não para frente. Em vez de perguntar como a Disney pode vencer a Netflix, ele questiona se a empresa deveria sequer estar competindo nesse jogo.
Antes do Disney+, o licenciamento gerava receita estável com custos operacionais bem mais baixos. Os estúdios produziam filmes e séries e depois vendiam os direitos de distribuição pelo mundo todo. A plataforma cuidava da exibição. O estúdio ficava com as taxas de licenciamento.
Segundo as estimativas de Cahall, a Disney poderia gerar mais de 15 bilhões de dólares por ano em receita de licenciamento até o ano fiscal de 2028 se retomasse esse modelo. Como comparação, ele cita que a Sony recebe mais de 1 bilhão de dólares anuais da Netflix apenas pelo acordo de exibição de seus filmes em primeira janela, e a Disney movimenta cerca de três vezes mais bilheteria global que o estúdio rival.
O analista também projeta que essa mudança poderia melhorar a qualidade dos lucros e reduzir os riscos financeiros de operar uma plataforma própria.
É uma estratégia que teria soado ultrapassada há poucos anos. Hoje, alguns investidores começam a enxergá-la de outra forma.
A Disney consegue competir para sempre?

O streaming se tornou uma das disputas mais caras da indústria do entretenimento.
A Netflix continua gastando pesado em produções originais. A Amazon trata o Prime Video como parte de um ecossistema de varejo muito maior. O YouTube domina o engajamento de usuários em escala mundial. A Apple tem recursos financeiros praticamente ilimitados.
Diante de rivais assim, a Disney enfrenta um desafio bem particular. Diferentemente da Netflix, a empresa não foi construída para lançar centenas de títulos novos todos os anos.
Suas maiores marcas prosperam com lançamentos nos cinemas, franquias de peso, integração com os parques temáticos e histórias contadas com cuidado. Essa abordagem premium sempre criou muito valor, mas também significa que a Disney lança bem menos conteúdo do que boa parte dos concorrentes de streaming.
Cahall questiona se essa estratégia de lançamentos é suficiente para manter o crescimento de assinantes num mercado cada vez mais disputado.
A Disney realmente faria isso?
Provavelmente não tão cedo. A Disney já investiu bilhões de dólares no Disney+. A plataforma hoje está no centro do ecossistema de entretenimento da empresa, conectando Marvel, Star Wars, Pixar, Disney Animation, National Geographic, ESPN e Hulu.
Abandonar tudo isso representaria uma das maiores reviravolta estratégicas da história corporativa recente. Também exigiria desmontar anos de infraestrutura e renegociar incontáveis acordos de distribuição pelo mundo.
Isso não torna a discussão menos relevante. Há poucos anos, praticamente todas as empresas de mídia correram para o streaming porque essa parecia ser a direção inevitável da indústria.
Hoje, investidores fazem perguntas bem mais duras sobre rentabilidade, crescimento de assinantes, margem operacional e sustentabilidade no longo prazo.
A própria Disney já ajustou sua estratégia de streaming várias vezes, com planos com anúncios, aumento de preços, pacotes combinados e maior peso na rentabilidade em vez do crescimento puro de assinantes. Esses movimentos sugerem que a própria empresa reconhece que o negócio amadureceu e ficou mais desafiador do que os executivos imaginaram no início.
Ainda não se sabe se a proposta vai ganhar força de verdade. A Disney não deu nenhum sinal de que pretende abandonar o Disney+ e segue investindo no próprio streaming.
Mesmo assim, o relatório merece atenção, porque mostra analistas respeitados questionando abertamente se a maior decisão estratégica da Disney na última década foi mesmo a correta.
Sete anos depois de lançar o Disney+, Wall Street debate seriamente se o futuro da Disney pode se parecer, na verdade, bastante com o seu passado.
Para uma empresa que ajudou a redefinir a indústria do streaming, essa é uma conversa e tanto de se acompanhar.