
Uma série de sucesso virar alvo de polêmica não é novidade no mundo do entretenimento. Mas quando a controvérsia envolve soberania nacional, identidade histórica e acusações de que uma produção pode estar servindo aos interesses revisionistas de outro país, o debate ganha uma dimensão completamente diferente.
É isso que está acontecendo na Coreia do Sul com A Coroa Perfeita, drama do Disney+ que estreou com grande expectativa e acabou mergulhado em uma crise sem precedentes.
Em apenas três dias, uma petição pedindo o cancelamento imediato da série acumulou 38 mil assinaturas, atingindo 77% do total necessário para que o caso seja levado a uma comissão parlamentar. O prazo para coleta de assinaturas vai até 21 de junho, e a mobilização popular não mostra sinais de desaceleração.
O que está em jogo
A petição foi publicada no painel oficial da Assembleia Nacional sul-coreana no dia 22 de maio. O autor do documento não poupou palavras: “Repetidas representações de imprecisões históricas claras e uma direção suspeita de alinhamento com o ‘Projeto Nordeste’ de um país específico geraram indignação pública”, conforme apurado pelo Chosun.
O chamado “Projeto Nordeste” é uma iniciativa acadêmica chinesa que, segundo críticos sul-coreanos, busca reescrever a história da região para incluir o antigo reino de Joseon como parte da esfera de influência histórica da China, algo que os coreanos rejeitam com veemência.
Entre os problemas apontados estão distorções nos títulos e na dignidade nacional, o uso indiscriminado de elementos culturais estrangeiros e erros nas vestimentas simbólicas da nação.
A cena que causou tudo
O estopim foi o episódio 11, exibido no dia 15. Na cena em questão, o Grande Príncipe Ian, vivido por Byeon Wooseok, aparece usando uma coroa chamada Guryumyeonryugwan durante sua cerimônia de entronização. Logo em seguida, os presentes gritam “Cheon-se cheon-se cheon-cheon-se”, uma saudação associada à tradição imperial chinesa.
O público reagiu de imediato. Para muitos espectadores, a sequência não foi apenas um erro de pesquisa histórica: seria uma representação que poderia ser usada para legitimar a tese chinesa de que Joseon era um estado vassalo, exatamente o tipo de argumento central no “Projeto Nordeste”.
A repercussão foi tão intensa que a equipe de produção se viu obrigada a se posicionar publicamente. O pedido de desculpas veio em seguida: “Pedimos sinceras desculpas pelas preocupações causadas por problemas com a construção do universo da série e com a precisão histórica. Levamos a sério as críticas dos espectadores e corrigiremos rapidamente o áudio e as legendas nas reexibições, no VOD e nas plataformas de streaming”. O diretor Park Jun-hwa e a roteirista Yoo Ji-won também se desculparam publicamente.
Como medida imediata, o trecho com a saudação problemática foi silenciado nas reexibições, e as legendas correspondentes foram removidas do VOD e das plataformas de streaming.
Por que a correção não foi suficiente
Para o autor da petição, a resposta da produção ficou muito aquém do necessário. O argumento é direto: “Em um momento em que o conteúdo coreano se espalha globalmente em tempo real pelas plataformas de streaming, isso é como fechar o estábulo depois que o cavalo já fugiu, e fornece pretextos claros para os vizinhos avançarem em suas teses de apropriação histórica e cultural”.
A petição ainda cita o Artigo 5 da Lei de Radiodifusão sul-coreana, que estabelece que as transmissões devem elevar a identidade nacional e cultivar um senso público adequado.
Com base nisso, o documento defende que “conteúdo que compromete a identidade nacional usando ativos públicos como ondas de rádio e plataformas de mídia não deve ser perdoado por meio de meras ações disciplinares ou correções de legendas”.
As exigências concretas são extensas: suspensão imediata da transmissão pela Comissão de Padrões de Comunicação da Coreia, exclusão completa do programa de todas as plataformas de VOD e streaming, nacionais e internacionais, além de medidas permanentes como a proibição de que a produtora receba financiamento governamental no futuro e restrições à sua licença de transmissão.
A petição precisa de 50 mil assinaturas em 30 dias para ser encaminhada à comissão parlamentar competente. Com 38 mil apoios em apenas três dias, o número parece cada vez mais ao alcance.
A primeira temporada com completa de A Coroa Perfeita está disponível no Disney+.