
Poucas séries da televisão britânica carregam o peso histórico de Doctor Who. Décadas no ar, gerações de fãs e uma mitologia complexa o suficiente para render debates intermináveis. Mas nos últimos anos, as discussões em torno da série deixaram de girar em torno de roteiros ou direção artística, e passaram a focar num alvo mais fácil: a chamada “agenda woke”.
A chegada de Jodie Whittaker como a primeira Doutora mulher e, depois, a escolha de Ncuti Gatwa, um ator negro e abertamente gay, para ocupar a TARDIS foram tratadas por uma parcela dos fãs como prova de que a série havia perdido o rumo.
O argumento ganhou força nas redes sociais, virou pauta de controvérsia e chegou aos ouvidos de quem viveu a série por dentro.
Um deles é Peter Capaldi. O escocês que encarnou o Décimo Segundo Doutor em uma das passagens mais celebradas da era moderna da série resolveu quebrar o silêncio sobre o assunto, e o que ele tem a dizer não vai agradar quem espera que ele engaje na guerra cultural.
“Por que as pessoas levam isso tão a sério?”
Em entrevista ao The Times, Capaldi foi questionado sobre as críticas de “wokeness excessiva” direcionadas a Whittaker e Gatwa. A resposta foi direta: “Reflete o seu tempo, e é uma coisa boa no mundo, embora tenha se tornado grande demais, importante demais para a BBC ou para quem quer que seja.”
O ator admitiu que não acompanha mais a série com regularidade e contextualizou sua relação com o programa de uma forma que diz muito: “Quando eu era criança e assistia, era só um programa de monstros no canto da sala. Não sei por que as pessoas levam isso tão a sério.”
É uma observação simples, mas que acerta em cheio numa verdade que o debate atual costuma ignorar.
O que realmente aconteceu com Doctor Who
Vale parar para separar o joio do trigo. O período de Jodie Whittaker como a Doutora coincidiu com a saída de Steven Moffat da direção criativa e a chegada de Chris Chibnall no posto. A transição foi sentida por qualquer fã que acompanhou a série com atenção: o problema nunca foi o gênero da personagem, mas sim a qualidade do que estava sendo escrito e dirigido.
Chris Chibnall tinha um desafio enorme pela frente, e não saiu bem dessa. O declínio nos roteiros foi real, mas atribuí-lo ao fato de o Doutor ser mulher é, no mínimo, uma análise preguiçosa.
Já com o retorno de Russell T Davies ao comando, a situação foi outra. As críticas de “wokismo” voltaram com força, mas o consenso entre parte da crítica e dos fãs mais atentos foi diferente: Davies havia perdido um pouco a mão na ficção científica, independentemente dos temas abordados. Quanto a Gatwa, circularam relatos de que o ator nunca esteve completamente comprometido com o papel.
Tudo isso é mais complicado do que “a série virou woke e piorou”. Mas nuances raramente rendem cliques.
O próprio Russell T Davies se manifestou sobre a questão antes mesmo de Capaldi. Ao comentar o tipo de crítica que a série recebe nas redes, ele foi bastante claro sobre onde, na sua visão, essa hostilidade tem origem:
“Essa voz online, que é hostil, existe no X, que é um site de ódio. Não deveríamos nos surpreender em encontrar ódio lá, porque é um site de ódio. Assume-se de forma muito perigosa que essa é a voz dos fãs.”
Davies deixou claro que respeita quem não gosta do que a série se tornou. “Eles não precisam gostar do programa”, disse, mas espera que possam “discordar respeitosamente e se divertir muito fazendo isso.”
Ele também foi além ao falar sobre a saúde do fandom em geral: “O fandom é criativo, brilhante e divertido, mas está sendo corrompido. Desliguem esses telefones para qualquer pessoa com menos de 16 anos, joguem no lixo. Eu literalmente sou evangélico sobre isso.”
Destino da série indefinido
Com a saída de Gatwa após refilmagens e a possível chegada de Billie Piper como a nova Doutora, Doctor Who está em hiato. Davies trabalha atualmente em um especial de Natal que deve funcionar como uma passagem de bastão para o próximo nome à frente da série.
Há também conversas sobre o futuro do formato. Reportagens anteriores indicaram que a produção pode voltar com temporadas mais curtas e econômicas, o que alguns fãs consideram, inclusive, um retorno às origens: afinal, Doctor Who sempre soube ser criativo quando os recursos eram limitados.
A parceria com o Disney+ ampliou o alcance e o orçamento, mas nem todos concordam que isso foi necessariamente bom para a alma da série.
Por enquanto, o que resta é esperar. E talvez, seguindo o conselho de Capaldi, levar tudo um pouco menos a sério.