
Coven Academy chegou ao Disney+ com uma estrutura bem diferente daquela encontrada na maioria das séries do streaming. Em vez de uma temporada com oito ou dez episódios de duração tradicional, a produção foi dividida em 21 capítulos muito curtos, todos liberados de uma só vez.
No catálogo brasileiro, o menor deles, “Está no Sangue”, tem apenas 11 minutos. O mais longo chega a 23 minutos. Somados, os 21 capítulos correspondem a 344 minutos, ou 5 horas e 44 minutos, o que resulta em uma média de pouco mais de 16 minutos por episódio.
A escolha não aconteceu por acaso. A própria Disney já vinha apresentando a série como uma experiência pensada para ser assistida em sequência, mas duas pessoas diretamente envolvidas com o projeto deram explicações bem diferentes para a decisão.
De um lado está Tim Federle, criador de Coven Academy e de High School Musical: A Série: O Musical. Do outro, Craig Erwich, presidente do Disney Television Group e executivo responsável por conteúdos do Hulu, Freeform e ABC Entertainment. E a diferença entre as respostas dos dois ajuda a entender um teste que a Disney está fazendo com formatos menores dentro do streaming.
A discussão surge poucos dias depois da estreia da temporada completa no Brasil. Os 21 episódios de Coven Academy chegaram juntos ao Disney+, e Tim Federle já falou inclusive sobre o final e os caminhos que gostaria de seguir em uma possível segunda temporada.
Tim Federle diz que a ideia não era atender a uma geração sem atenção

Em entrevista ao The Hollywood Reporter, Federle explicou que a equipe responsável por Coven Academy tem raízes na televisão tradicional.
Todd Slavkin e Darren Swimmer, que trabalharam com ele na série, passaram por produções como Smallville e Shadowhunters. O próprio Federle destacou que os roteiristas e diretores estavam acostumados a construir histórias para formatos convencionais de TV.
Segundo ele, o objetivo foi aproveitar essa experiência e reorganizar aproximadamente seis horas de história em pequenos capítulos.
“Queríamos usar essa experiência tradicional de contar histórias, mas tentar algo que parecesse mais dividido em capítulos.”
A lógica funciona quase como uma versão para streaming dos antigos intervalos comerciais. Um episódio convencional poderia continuar depois da publicidade. Em Coven Academy, aquele mesmo ponto serve para encerrar um capítulo, e o próximo começa praticamente de onde o anterior parou.
Federle disse que espera que isso torne a série especialmente fácil de maratonar.
A explicação faz sentido quando se observa a temporada completa. Muitos episódios não foram construídos para funcionar como histórias independentes de 15 minutos. Eles são partes de uma história contínua, com cortes feitos em pontos que permitem interromper a sessão ou simplesmente deixar o Disney+ iniciar o próximo capítulo.
Por isso, assistir a três episódios seguidos pode corresponder, na prática, a algo próximo da duração de um capítulo convencional de uma série dramática.
Federle também rejeitou uma interpretação que surgiu em torno dessa decisão: a ideia de que episódios menores seriam necessários porque adolescentes atualmente não conseguiriam acompanhar conteúdos mais longos.
“Acho que pode existir a percepção errada de que isso foi feito para uma geração com pouca capacidade de atenção. Eu não acredito nisso.”
O criador citou séries de durações e épocas muito diferentes que continuam encontrando público entre pessoas mais jovens, incluindo Grey’s Anatomy e Friends. Para ele, espectadores passam bastante tempo com uma produção quando realmente se interessam pelos personagens.
Nesse sentido, a divisão de Coven Academy em 21 partes seria uma escolha de estrutura, e não uma tentativa de simplificar a série para quem não consegue ficar muito tempo diante de um episódio.
Federle também vê o projeto como uma tentativa incomum dentro de um mercado em que franquias já estabelecidas recebem boa parte dos grandes investimentos. Coven Academy não nasceu de um livro, filme ou série anterior. É uma propriedade criada diretamente para a televisão.
“Estamos tentando algo novo para saber se funciona, porque é difícil conseguir atenção.”
O próprio criador brincou que gostaria que a produção tivesse vida suficiente para, quem sabe, ser refeita daqui a 20 anos.
Craig Erwich apresentou outro motivo para os capítulos de 15 minutos
Meses antes, porém, Craig Erwich havia explicado o formato de uma maneira diferente.
Ao conversar também com o The Hollywood Reporter, o executivo afirmou que Coven Academy havia sido desenvolvida especificamente pensando no público jovem de 2026.
E ele foi bastante direto sobre a duração.
“Criamos esses episódios para serem consumidos em blocos de 15 minutos porque sabemos como as pessoas estão assistindo.”
Erwich acrescentou que esse conteúdo não foi pensado somente para uma televisão na sala de casa. O celular também entrou na equação desde o desenvolvimento da série.
Isso não significa necessariamente que Federle e Erwich estejam discutindo sobre o que aconteceu nos bastidores. As duas explicações podem coexistir. A forma escolhida pelos roteiristas facilita a maratona, enquanto a estratégia da Disney pode ter enxergado exatamente nesse modelo uma maneira de atingir hábitos diferentes de consumo.
Ainda assim, existe uma diferença clara na forma como cada um apresenta a decisão.
Federle faz questão de afastar a ideia de que a série foi encurtada porque adolescentes teriam menos disposição para acompanhar histórias longas. Erwich, por sua vez, relaciona explicitamente os capítulos de aproximadamente 15 minutos à maneira como o público jovem assiste a vídeos e séries atualmente, inclusive pelo celular.
A distinção fica ainda mais interessante porque o formato de Coven Academy mudou conforme a plataforma.
No Disney+ e no Hulu, a temporada foi preparada como 21 capítulos curtos para maratona. Já o Freeform adotou uma programação televisiva em blocos ao longo de três quintas-feiras. Ou seja, a Disney encontrou mais de uma forma de empacotar basicamente as mesmas horas de história.
Esse modelo havia sido anunciado antes da estreia, quando a companhia começou a detalhar como funcionariam os capítulos curtos de Coven Academy.
Coven Academy não é o único teste da Disney com formatos feitos para celular
A experiência também não surgiu isoladamente.
A Disney já havia avançado muito mais nesse terreno com Locker Diaries, produção composta por vídeos de aproximadamente um a três minutos e apresentada verticalmente, formato associado diretamente às telas dos celulares.
Como mostramos quando a Disney começou a investir nesses microdramas verticais, Locker Diaries usa personagens ligados a Phineas e Ferb, ZOMBIES e Descendentes em histórias rápidas vistas a partir da perspectiva de um armário escolar.
É um caso bem diferente de Coven Academy. A nova série sobrenatural continua sendo uma produção tradicional em tela horizontal, com uma temporada que, somada, passa de cinco horas e meia. O que mudou foi a forma de cortar e apresentar esse conteúdo dentro do streaming.
Mas os dois projetos apontam para o mesmo interesse da Disney: descobrir quais formatos funcionam em um cenário no qual a televisão deixou de ser a única tela relevante.
TikTok, YouTube Shorts e Instagram Reels acostumaram milhões de pessoas a consumir vídeos em sessões muito menores. Isso não significa que filmes de duas horas ou séries com episódios de 50 minutos estejam desaparecendo. Significa apenas que empresas de entretenimento agora também enxergam espaço entre esses extremos.
Coven Academy ocupa justamente esse meio-termo. Seus episódios são curtos o bastante para alguém assistir a um deles em uma pausa de 15 minutos, mas foram feitos para que vários capítulos possam ser vistos consecutivamente como se fossem um episódio convencional.
A diferença entre as declarações de Federle e Erwich mostra que até dentro da própria Disney existem maneiras distintas de apresentar essa experiência. Para o criador, trata-se principalmente de reorganizar uma história tradicional em capítulos menores e fáceis de maratonar. Para o executivo, a duração também responde diretamente a um público que assiste cada vez mais pelo celular e em períodos menores.
Com todos os 21 episódios disponíveis no Disney+ brasileiro, a empresa agora tem um teste bastante concreto para descobrir se o público aceita esse formato fora dos vídeos verticais ultracurtos. E, caso Coven Academy consiga uma segunda temporada, será interessante observar se os capítulos de aproximadamente 15 minutos continuarão fazendo parte da fórmula.