O grande erro que Hollywood pode cometer após o sucesso de Homem-Aranha 4

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Quando um filme quebra recordes, os estúdios não enxergam apenas ingressos vendidos. Cada detalhe da produção passa a ser analisado como uma possível fórmula para o próximo sucesso, desde o tamanho das cenas de ação até a quantidade de personagens famosos reunidos na tela.

No caso de Homem-Aranha: Um Novo Dia, os números acabaram se tornando muito maiores do que indicavam as primeiras estimativas. O quarto filme solo de Tom Holland abriu com US$ 360,1 milhões nos Estados Unidos e Canadá e aproximadamente US$ 932 milhões mundialmente. A estreia norte-americana superou os US$ 357,1 milhões de Vingadores: Ultimato e estabeleceu um novo recorde histórico naquele mercado. Mundialmente, ficou atrás apenas do lançamento de Ultimato.

E o desempenho não parou no primeiro fim de semana. Um Novo Dia já arrecadou cerca de US$ 2,48 bilhões no mundo, tornou-se o filme de maior bilheteria de 2026 e ocupa a terceira posição entre as maiores bilheterias mundiais da história, atrás somente de Avatar e Vingadores: Ultimato. Nos Estados Unidos e Canadá, já superou Star Wars: O Despertar da Força e assumiu o primeiro lugar histórico em valores nominais, sem correção pela inflação.

A trajetória foi muito além das projeções que já colocavam o filme perto da segunda maior estreia mundial da história. Em poucas semanas, Peter Parker passou dos US$ 2 bilhões e depois superou Avatar: O Caminho da Água para entrar no top 3 histórico.

No Brasil, o resultado também foi extraordinário. O filme ultrapassou Vingadores: Ultimato e se tornou o live-action de maior bilheteria já registrado no país.

Diante de números desse tamanho, é fácil imaginar qual será uma das discussões dentro dos grandes estúdios: o que exatamente fez esse filme funcionar tão bem?

O risco está em procurar uma resposta simples. Uma leitura apressada poderia concluir que o público deseja produções cada vez maiores, com vários heróis, ameaças gigantescas e cenas feitas para provocar reações imediatas nas salas de cinema.

Esse raciocínio deixa de lado uma parte essencial do sucesso: o público acompanha o Peter Parker de Tom Holland há dez anos.

O erro de confundir escala com causa

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Holland apareceu pela primeira vez como Peter Parker em Capitão América: Guerra Civil, lançado em 2016. Desde então, participou de três filmes anteriores do Homem-Aranha, dois longas dos Vingadores e diferentes encontros com personagens importantes do Universo Cinematográfico da Marvel.

Durante esse período, os espectadores acompanharam Peter como um adolescente deslumbrado diante dos Vingadores, um herói inseguro sob a orientação de Tony Stark e um jovem obrigado a enfrentar perdas que mudaram completamente sua vida.

Ao final de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, ninguém mais se lembrava de Peter Parker. Ele perdeu o contato com MJ e Ned, deixou para trás boa parte da tecnologia que utilizava e voltou a combater criminosos sozinho pelas ruas de Nova York.

Homem-Aranha: Um Novo Dia não começou do zero. O filme recebeu tudo o que havia sido construído durante uma década e pôde usar essa relação já estabelecida com o público para ampliar o tamanho da aventura.

O novo capítulo também reuniu personagens de outras produções. Jon Bernthal retornou como Frank Castle, o Justiceiro, enquanto Mark Ruffalo voltou ao papel de Bruce Banner. As participações do Justiceiro e do Hulk já haviam sido mostradas nos trailers, o que ajudou na divulgação sem retirar Peter Parker do centro do filme.

A própria imagem de Homem-Aranha ao lado do Justiceiro representa bem essa diferença. Frank Castle acrescenta algo à história porque o personagem já possui uma relação própria com o público. Ele não precisa ser apresentado como se estivesse aparecendo pela primeira vez.

O mesmo vale para Bruce Banner. Ruffalo interpreta o personagem no MCU desde Os Vingadores, de 2012. Sua presença carrega anos de filmes anteriores, assim como o retorno de Bernthal traz consigo tudo o que foi construído desde sua estreia como Justiceiro em 2016.

Participações especiais, grandes batalhas e conexões com outras produções da Marvel ajudaram a transformar o lançamento em um evento. Isso não significa que esses elementos possam ser simplesmente copiados e aplicados a qualquer personagem.

Uma reunião entre heróis funciona melhor quando o público já sabe quem são aquelas pessoas e tem motivos para querer vê-las juntas. Sem esse trabalho anterior, uma participação especial corre o risco de parecer apenas uma tentativa de chamar atenção.

A própria Sony parece reconhecer que o personagem continua sendo a peça central desse resultado. Em setembro, o CEO da Sony Pictures Entertainment, Ravi Ahuja, afirmou que o estúdio não esperava uma arrecadação tão alta e destacou Peter Parker e a execução do filme ao falar sobre as razões para o desempenho nas bilheterias.

Novos heróis precisam de tempo, não de atalhos

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A principal lição de Homem-Aranha: Um Novo Dia deveria ser a importância de investir em personagens durante vários anos. O problema seria chegar à conclusão oposta e transformar encontros, participações especiais e batalhas enormes em requisitos para qualquer produção de super-heróis.

Nem todo filme precisa começar com o destino do planeta em jogo. Histórias menores dão espaço para que o público descubra quem é o protagonista, o que ele deseja, quais são seus limites e por que vale a pena acompanhá-lo.

Os primeiros filmes do Homem-Aranha de Holland trabalharam justamente dessa maneira. Em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, Peter ainda tentava provar que merecia ocupar um espaço entre os grandes heróis. Em Homem-Aranha: Longe de Casa, precisava lidar com a ausência de Tony Stark e com expectativas que não sabia se conseguiria atender.

Foi somente depois desse percurso que Sem Volta Para Casa reuniu personagens de diferentes gerações da franquia. O encontro com os Homens-Aranha de Tobey Maguire e Andrew Garfield não funcionou apenas pela surpresa. Havia anos de lembranças associadas aos três protagonistas.

A mesma lógica ajuda a explicar Um Novo Dia. O público não comprou ingressos apenas para assistir a confrontos maiores. Havia interesse em descobrir o que aconteceria com Peter depois do final de Sem Volta Para Casa, como sua vida mudaria sem qualquer pessoa se lembrando dele e se ainda existiria alguma possibilidade de reconstruir suas relações com MJ e Ned.

Uma imagem de divulgação de Homem-Aranha: Um Novo Dia pode mostrar uniformes, personagens e cenas espetaculares, mas nada disso surgiu isoladamente. O filme chegou aos cinemas depois de dez anos de convivência do público com essa versão de Peter Parker.

O desempenho também tornou a discussão sobre um quinto filme inevitável, mas a situação ainda exige cuidado. Tom Holland afirmou logo após a estreia que Homem-Aranha 5 está nos planos, sem confirmar contratos ou uma data.

Desde então, o próprio CEO da Sony Pictures falou sobre o assunto. Ravi Ahuja disse em setembro que o estúdio ainda não tem uma data definida para o próximo filme e observou que normalmente há um intervalo de alguns anos entre os lançamentos. Portanto, apesar do resultado gigantesco de Um Novo Dia, Sony Pictures e Marvel Studios ainda não anunciaram oficialmente título ou data de estreia para Homem-Aranha 5.

Talvez isso seja justamente o que outros estúdios deveriam observar antes de tentar reproduzir o fenômeno.

A indústria não precisa encontrar outro Homem-Aranha da noite para o dia. Precisa dar a novos personagens a oportunidade de conquistar espaço aos poucos, com filmes capazes de funcionar por conta própria antes de receber equipes inteiras, ameaças cósmicas e orçamentos gigantescos.

Copiar o tamanho de Homem-Aranha: Um Novo Dia é relativamente fácil. Reproduzir os dez anos que fizeram milhões de pessoas se importar com Peter Parker exige algo bem mais difícil de colocar em uma planilha: paciência.

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