
Margaret Atwood é uma das escritoras mais respeitadas do mundo, e The Handmaid’s Tale é sua obra mais famosa. No Brasil, o filme de 1990 baseado no livro chegou com o título A História da Aia, enquanto a série lançada em 2017 ganhou o nome O Conto da Aia. São dois títulos, duas adaptações e recepções muito diferentes, inclusive por parte da própria autora.
Porque Atwood tem uma opinião bem definida sobre o longa de 1990, dirigido pelo alemão Volker Schlöndorff com roteiro do dramaturgo Harold Pinter.
Ela não gostou.
Em uma entrevista anterior, a autora foi direta ao apontar o principal problema de A História da Aia. Schlöndorff, que estava em uma fase minimalista, decidiu retirar a narração em voz da protagonista Offred, vivida pela atriz Natasha Richardson. Uma decisão que, na avaliação de Atwood, comprometeu o filme inteiro.
“O roteiro do Pinter incluía a voz da personagem central. E então o diretor, em uma fase minimalista, a retirou”, disse Atwood. “Acho que teria sido muito melhor com ela.”
O problema era ainda mais delicado para Richardson. A atriz, que Atwood conhecia pessoalmente, tinha gravado toda a narração e construído sua performance com base nela. Quando o diretor cortou o recurso, toda essa estrutura desmoronou.
“Natasha me expressou, em termos bastante irritados, que ela tinha gravado toda a voz e ajustado sua performance em cima disso. Era muito mais parecido com o que temos agora, em que você ouvia Offred pensando de vez em quando”, lembrou Atwood.
A voz de Offred, aliás, é o fio condutor que sustenta a história tanto no romance quanto em O Conto da Aia. É por meio desse monólogo interior que o espectador acessa o terror cotidiano de Gilead.
Vale lembrar que o elenco de A História da Aia era estrelado: além de Richardson, o filme contava com Faye Dunaway, Robert Duvall, Aidan Quinn e Elizabeth McGovern.
O nome de Offred, inclusive, carrega um significado simbólico, pronunciado como “de Fred” em inglês, uma referência ao Comandante Fred Waterford (Duvall), que a “possui”.
A série que finalmente fez jus ao livro

O Conto da Aia estreou em 2017 com Elisabeth Moss no papel de Offred, agora com o nome revelado como June Osborne, e com Bruce Miller como showrunner. Desta vez, Atwood aprovou.
Na mesma entrevista à Variety, a autora explicou por que o formato televisivo foi muito mais adequado para contar sua história. Na época do filme, a TV ainda era dominada por produções bem diferentes do que o streaming viabilizou décadas depois.
“Havia muita história para 90 minutos”, disse ela. “Essa é outra resposta para por que o filme não funcionou.”
Miller teve em Atwood uma parceira desde o início e, segundo ele mesmo, adotou uma política simples durante toda a produção. Em entrevista ao The Hollywood Reporter sobre Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, ele explicou:
“Ao fazer O Conto da Aia, segui a política de ‘em caso de dúvida, siga a Margaret’. E funcionou muito, muito bem. Não apenas por lealdade a ela ou ao livro, mas porque, na prática, ela é uma excelente contadora de histórias. Às vezes há coisas que eu não entendo, mesmo tendo lido o livro por 30 anos, e é ótimo que eu possa colocar isso na série e ver que funciona muito bem, mesmo sem saber exatamente como ia dar.”
Os Testamentos: Das Filhas de Gilead

O Hulu expandiu ainda mais o mundo criado por Atwood com Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, série baseada no romance sequência lançado em 2019. A história se passa quatro anos após o final de O Conto da Aia, série que foi bem além do livro original de 1985.
O centro da nova trama é Agnes, vivida por Chase Infiniti, uma jovem criada dentro de Gilead que, na verdade, é filha de June Osborne (Elisabeth Moss) e foi roubada ainda bebê pelo Comandante MacKenzie (Nate Corddry).
Enquanto se prepara para se tornar esposa de um Comandante, Agnes tem sua vida virada de cabeça para baixo pela chegada de Daisy, interpretada por Lucy Halliday.
Daisy é apresentada como uma uma jovem que deseja ingressar em Gilead. Mas a realidade é bem diferente: ela também foi arrancada do Canadá, seus pais eram membros da resistência e foram assassinados.
A organização de resistência conhecida como “Mayday” opera nas sombras e parece estar recrutando Daisy para se tornar uma agente dupla dentro do regime.
Atwood aparece em uma participação especial na série e ficou especialmente satisfeita com o retorno de Ann Dowd ao papel de Tia Lydia. Depois de uma primeira adaptação que ficou aquém do que a obra merecia, ver a história finalmente tratada com esse cuidado é uma reviravolta e tanto para a autora.
O Conto da Aia e Os Testamentos: Das Filhas de Gilead estão disponíveis no Disney+.