
Vinte anos é tempo suficiente para esquecer uma promessa. David Frankel havia jurado que não faria uma sequência de O Diabo Veste Prada. Mas aí veio o roteiro certo, o elenco reunido e, de repente, Miranda Priestly estava de volta às telonas como se nunca tivesse saído.
“Eu disse ‘nunca mais’, e aqui estamos,” o diretor admitiu. “Então eu certamente jamais diria ‘nunca mais’ de novo.”
O primeiro filme, lançado em 2006, faturou US$ 326 milhões nas bilheterias do mundo todo. Suficiente para que a ideia de uma sequência nunca fosse completamente descartada, mas insuficiente para colocá-la em prática sem que tudo se encaixasse. O grande sinal verde veio com a confirmação de Meryl Streep no papel. Sem ela, não haveria filme.
Com o retorno de Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, o set ganhou uma energia diferente da primeira produção. Frankel contou à Variety que a própria Hathaway tem uma analogia certeira para descrever a experiência:
“A gente estava reunindo a banda para gravar um álbum novo e fazer uma turnê tocando as músicas novas, mas o público também quer ouvir os clássicos. É uma pitada dos hits antigos misturada com as novidades.”
E os resultados mostram que a fórmula funcionou. Em apenas duas semanas de exibição, O Diabo Veste Prada 2 já havia arrecadado US$ 233 milhões globalmente.
Os easter eggs: nem de menos, nem de mais

Resgatar um clássico sem se tornar refém dele é um desafio e tanto. A equipe criativa que voltou para o projeto era praticamente a mesma do original: a roteirista Aline Brosh McKenna, a produtora Wendy Finerman, o diretor de fotografia Florian Ballhaus e a figurinista Molly Rogers, que na época era assistente da lendária Patricia Field.
Isso ajudou a calibrar os callbacks ao primeiro filme. Frankel conta que alguns detalhes, como os cintos, foram inseridos quase de última hora. Outros, como o suéter cerúleo e a frase “Um milhão de garotas matariam por esse emprego”, eram escolhas óbvias desde o início.
Mas a equipe precisou editar vários deles. “Se fossem muitos, você ia ficar um pouco irritado com a gente,” ele admite.
O callback mais poderoso, segundo o diretor, foi reservado para um momento específico do filme. “É como o callback, se você quiser chamar assim. Chapéu para a Aline por guardar para aquele ponto. É um dos meus momentos favoritos, porque tudo converge: é o momento dramático central e o aceno mais profundo ao original.”
Milão, Da Vinci e a batalha pelo futuro

Uma das sequências mais comentadas do filme se passa diante de A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Frankel conta que a equipe chegou a sondar a possibilidade de filmar no museu real, em Milão, mas os limites eram claros: nada de luz de velas, nada de jantar encenado diante da obra.
A solução foi construir um cenário. E para isso, o diretor teve a chance de passar um bom tempo diante do original.
“É incrível. Você está diante de uma pintura de 600 anos que ainda te move. Não existe forma melhor de dramatizar o melhor da realização humana do que essa obra,” diz ele.
A cena ao redor da mesa tem um peso que vai além da referência artística. É ali que um bilionário chamado Benjy pronuncia o discurso mais denso do filme, sobre o futuro e sua inevitabilidade. Miranda responde com um apelo pela criatividade humana, pela preservação do que foi construído com esforço e talento.
“Essa cena é, obviamente, o coração do filme: essa batalha entre a criatividade feita por humanos e o que vem a seguir. A gente não sabe o que é, mas está com medo, e sabe que está chegando.”
Miranda sem a armadura
Uma das diferenças mais perceptíveis entre os dois filmes é o quanto Miranda Priestly se permite ser vista além da frieza calculada que a tornou icônica.
Para Frankel, isso fazia parte do plano desde o início. No primeiro filme, há um lampejo de vulnerabilidade, uma fresta que deixa o espectador entrever o quanto aquela mulher carrega. Na sequência, com 20 anos a mais de história, a pergunta que a personagem precisa enfrentar é maior: valeu a pena?
“Uma mulher em meados dos 70 anos precisando confrontar a questão: qual vai ser o legado dela? Tudo foi em vão? Vai desaparecer tudo?” reflete o diretor. “Quando você para? Quando diz que já basta?”
Frankel vê nisso também um retrato de Meryl Streep. A atriz, segundo ele, se divertiu muito mais nesta produção. Em parte porque, ao longo de 20 anos, ela construiu uma amizade real com Hathaway e Blunt. No set do primeiro filme, a distância era calculada, parte da construção do personagem. Desta vez, era outra dinâmica.
“Ela e eu nos tornamos grandes amigos durante o primeiro filme, mas a relação dela com Anne e Emily era sempre distante durante as filmagens. Agora, depois de 20 anos, são amigas. São como filhas reencontradas. Isso criou uma dinâmica incrível.”
O que não entrou, o que ficou de fora e o que pode vir
Nem tudo o que foi cogitado chegou à tela. Uma das ausências mais comentadas é a de Adrien Grenier, o Nate do primeiro filme. Frankel confirma que a possibilidade foi discutida, mas a equipe não encontrou uma forma satisfatória de integrá-lo à trama.
“Não queríamos fazer um encontro casual qualquer. No fim, ele não entrou no roteiro.”
O diretor aproveita para elogiar os comerciais de Starbucks protagonizados por Grenier, que viraram piada carinhosa dentro do universo da franquia: “São geniais e hilários, e ele é incrivelmente autodepreciativo. Fico feliz que ele ainda faça parte desse universo de alguma forma.”
Quanto ao futuro da franquia, o filme deixa a porta aberta. O final coloca Miranda, Andy e Nigel como guardiões da Runway daqui para frente, ainda que o cenário da imprensa seja instável. Emily, por sua vez, sai para uma nova fase, em uma direção que o roteiro deixa subentendida.
Com US$ 233 milhões já no caixa e uma base de fãs ansiosa, a pergunta sobre um terceiro filme é inevitável.
Frankel ri da pergunta. Lembra que levou 20 anos para chegar até aqui. Lembra que havia prometido que não faria mais nenhum. E conclui com a única resposta honesta que tem:
“Se houvesse a oportunidade de revisitar os personagens e passar alguns meses com esses atores maravilhosos de novo, obviamente eu adoraria.”