
A disputa pelos direitos esportivos nos Estados Unidos já não envolve apenas emissoras, ligas e plataformas. O assunto chegou com força ao Congresso, especialmente depois que partidas importantes passaram a exigir assinaturas de diferentes serviços.
Para muitos torcedores americanos, acompanhar todos os jogos de um mesmo time pode exigir TV aberta, canais pagos e várias plataformas. O custo dessa combinação passou a chamar a atenção de políticos democratas e republicanos.
É nesse cenário que três gigantes decidiram aumentar sua presença em Washington. Netflix, Amazon e YouTube se uniram na criação da Streaming Access and Choice Alliance, ou SACA, uma nova organização voltada à defesa dos interesses das plataformas digitais diante de possíveis mudanças nas regras para transmissões esportivas.
Segundo a Variety, a coalizão foi anunciada nesta segunda-feira (14) e será comandada pela TechNet, associação que representa grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos.
A Streaming Access and Choice Alliance afirma que pretende defender políticas que tratem diferentes tecnologias de distribuição de forma equivalente e permitam que os serviços continuem investindo em programação, inclusive esportes ao vivo.
No próprio site, a organização argumenta que o streaming ampliou as formas de acompanhar competições, com recursos como múltiplos jogos na mesma tela, transmissões com estatísticas, diferentes câmeras, reprises sob demanda e programas paralelos apresentados por criadores de conteúdo.
Um dos números usados pela SACA para justificar a importância crescente desse mercado é que a quantidade de conteúdo esportivo oferecido pelos principais serviços globais de streaming por assinatura aumentou 52% desde janeiro de 2024.
Mike Ward, vice-presidente sênior de política federal e relações governamentais da TechNet, afirmou:
“Os americanos querem mais opções de conteúdo e flexibilidade sobre como e onde assistir aos seus programas favoritos, incluindo esportes e outros eventos ao vivo.”
Para o executivo, Netflix, Amazon, YouTube e outras empresas do setor precisam ter uma representação própria em Washington para discutir regras que acompanhem as mudanças na forma como o público consome televisão e vídeo.
Congresso quer reduzir custos e acabar com bloqueios
A criação da SACA acontece poucos meses depois de uma iniciativa no Senado que vai justamente na direção contrária a alguns dos interesses defendidos pelas plataformas.
Em abril, a senadora democrata Tammy Baldwin apresentou o For the Fans Act, projeto que pretende reduzir gastos dos torcedores e acabar com os chamados blackouts, situações em que determinados jogos ficam indisponíveis para assinantes dependendo de sua localização ou do acordo de transmissão.
Uma das propostas é exigir que ligas profissionais ofereçam aos torcedores locais uma opção única e gratuita para assistir aos jogos das equipes de seu estado, seja pela TV aberta ou por algum serviço online financiado por publicidade.
O projeto também impediria plataformas das próprias ligas, como NBA League Pass e MLB.TV, de cobrar pela assinatura e depois bloquear determinadas partidas por causa de contratos exclusivos com terceiros.
Baldwin estima que um torcedor de Wisconsin interessado em assistir a todos os jogos do Green Bay Packers, Milwaukee Brewers e Milwaukee Bucks pode gastar mais de US$ 1.500 por ano com as diferentes formas de acesso necessárias.
O tema também chegou à Câmara dos Representantes. Em junho, o Comitê Judiciário analisou a Sports Broadcasting Act, lei de 1961 que concede às principais ligas profissionais uma exceção limitada às regras antitruste para permitir a negociação conjunta de direitos de transmissão.
Republicanos do comitê publicaram um relatório argumentando que o modelo atual se afastou da finalidade original da legislação e pode estar prejudicando consumidores.
Disney está em outra aliança do streaming

A nova SACA não deve ser confundida com a Streaming Innovation Alliance, organização criada em 2023 e que também atua junto ao governo americano em assuntos relacionados ao setor.
Netflix faz parte dos dois grupos, mas Amazon e YouTube não estavam entre os integrantes fundadores da organização anterior. A Disney, por outro lado, participa da Streaming Innovation Alliance ao lado de empresas como Netflix, Paramount, Warner Bros. Discovery, Peacock, Motion Picture Association e TelevisaUnivision, como noticiamos na época da criação da coalizão.
A diferença também está no foco. Embora a Streaming Innovation Alliance trabalhe com diversas políticas relacionadas ao streaming, a nova coalizão formada por Amazon, Netflix e YouTube chega em um momento no qual o acesso a esportes está no centro das discussões em Washington.
Para a Disney, essa discussão é especialmente relevante por causa da ESPN. A companhia vem ampliando a distribuição de esportes diretamente pelo streaming e, nos últimos anos, levou a ESPN para o Disney+ em dezenas de mercados. Em abril, a cobertura da ESPN dentro do Disney+ chegou a aproximadamente 100 mercados.
Nos Estados Unidos, Netflix, Amazon e YouTube também ampliaram seus investimentos em direitos esportivos. Com o Congresso discutindo preços, exclusividades, disponibilidade regional e possíveis obrigações de acesso gratuito, a criação da SACA dá a essas empresas uma estrutura própria para tentar influenciar as próximas decisões tomadas em Washington.