
Meryl Streep tem três Oscars, mais de 21 indicações à estatueta dourada e uma carreira que atravessa cinco décadas. É a atriz mais premiada da história da Academia. Mas, mesmo com toda essa estatura no cinema mundial, ela continua sendo uma das vozes mais diretas e sem filtro da indústria.
Desta vez, o alvo foi a forma como Hollywood vem construindo seus personagens.
Em entrevista ao Hits Radio UK, Streep foi categórica: os filmes estão perdendo profundidade. E ela tem uma palavra para isso.
“Hoje em dia, tendemos a ‘marvelizar’ os filmes”, disse a atriz, em referência ao estilo consolidado pela Marvel Studios ao longo de mais de uma década de produções.
A crítica vai direto ao ponto: a divisão entre mocinhos imaculados e vilões sem nuance transformou o cinema em algo previsível. “Temos os vilões e temos os mocinhos, e isso é tão entediante”, completou.
Para a atriz, o que torna uma história verdadeiramente interessante é exatamente o que as produções de grande escala costumam evitar: a ambiguidade humana.
“O que é realmente interessante na vida é que alguns heróis são falhos, e alguns vilões são humanos, interessantes e têm suas próprias qualidades”, afirmou.
Não é pouca coisa vindo de quem passou décadas interpretando personagens que fogem de qualquer rótulo fácil.
Miranda Priestly, em O Diabo Veste Prada, é exatamente o tipo de figura que Streep defende: cruel, inteligente, sedutora e, ao mesmo tempo, humana de uma forma incômoda. Nem vilã pura, nem herói. Algo bem mais difícil de classificar.
Essa visão não é nova na trajetória de Streep. Ao longo da carreira, ela construiu personagens que vivem nas zonas cinzentas, figuras que o espectador não sabe se deve admirar ou repudiar. É o tipo de trabalho que dificilmente aparece em filmes onde tudo precisa ser explicado até o último fotograma.
De volta à Runway

A declaração vem num momento em que Streep está em alta nas bilheterias. O Diabo Veste Prada 2 já está em cartaz no Brasil e acumulou 78% de aprovação no Rotten Tomatoes após mais de 200 avaliações, garantindo a certificação Fresh, o que indica boa recepção da crítica especializada.
A sequência reúne o elenco original, incluindo Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, e promete revisitar Miranda Priestly num contexto bem diferente do original de 2006.
Curiosamente, Streep revelou recentemente em entrevista ao The Late Show with Stephen Colbert que o modelo para Miranda não foi Anna Wintour, a lendária diretora da Vogue, como muita gente sempre imaginou.
A inspiração veio de dois pesos pesados de Hollywood: o diretor Mike Nichols e o ator e cineasta Clint Eastwood. “Basicamente fiquei imitando Mike Nichols o tempo todo”, disse ela, entre risos.
Esse é o tipo de detalhe que diz muito sobre como Streep pensa o ofício de atuar: não como imitação de vida real, mas como construção calculada, cheia de referências e escolhas precisas.
A crítica à “marvelização” do cinema, portanto, não é capricho de veterana entediada. Vem de alguém que passou a vida inteira fazendo exatamente o oposto do que ela critica.