Martin Scorsese elogia ferramenta de IA para filmes e enfrenta críticas

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Martin-Scorsese Martin Scorsese elogia ferramenta de IA para filmes e enfrenta críticas

A relação entre Hollywood e a inteligência artificial ficou ainda mais tensa nos últimos dias, agora com um dos nomes mais respeitados do cinema no centro da discussão.

Martin Scorsese, diretor de Taxi Driver, Os Bons Companheiros, A Invenção de Hugo Cabret e O Irlandês, passou a colaborar com a Black Forest Labs, empresa de IA generativa responsável pelo FLUX, modelo capaz de criar imagens a partir de comandos de texto.

A parceria foi apresentada como uma forma de explorar novas ferramentas para a pré-produção de filmes, especialmente na criação de storyboards. Para Scorsese, a tecnologia pode ajudar um diretor a mostrar com mais clareza aquilo que imagina antes de levar uma cena ao set.

Mas a reação de parte da indústria foi dura. O Art Directors Guild, sindicato que representa diretores de arte, designers, ilustradores e outros profissionais ligados à criação visual em Hollywood, divulgou um comunicado condenando a posição do cineasta e classificou o apoio à IA como uma traição ao trabalho coletivo do cinema.

Sindicato diz que Scorsese virou as costas para artistas humanos

Em uma longa publicação no X, o Art Directors Guild, também identificado como IATSE Local 800, afirmou que Scorsese está apoiando uma tecnologia que pode substituir justamente os artistas que ajudaram a construir a força visual de seus filmes ao longo de décadas.

O comunicado começa com uma frase direta: “Sr. Scorsese, o negócio não está em fluxo.”

A frase faz referência ao FLUX, ferramenta da Black Forest Labs usada para gerar imagens e storyboards por IA. Em seguida, o sindicato afirma que o diretor vencedor do Oscar está “virando as costas para os artistas humanos que, ao longo de sua carreira, o ajudaram a criar seus trabalhos mais memoráveis”.

A entidade também criticou a lógica por trás da IA generativa. Segundo o sindicato, esse tipo de tecnologia só consegue produzir imagens com aparência profissional porque foi treinada com grandes volumes de obras protegidas por direitos autorais, muitas vezes retiradas da internet sem autorização, crédito, pagamento ou transparência.

Para o Art Directors Guild, o trabalho de seus profissionais não pode ser tratado como algo fácil de reproduzir por um sistema automatizado.

“Pensar que suas contribuições profissionais podem ser imitadas ou superadas pela IA generativa, construída sobre trabalhos provavelmente roubados deles e de muitos outros artistas ao redor do mundo, é uma traição à natureza colaborativa do cinema.”

O que Scorsese disse sobre o uso de IA

A Black Forest Labs anunciou Scorsese como consultor em uma página dedicada à parceria. No material, a empresa diz que o diretor está ajudando a desenvolver sua chamada “inteligência visual” e participou de uma sessão de trabalho com o FLUX voltada para storyboards.

Scorsese explicou que cria seus próprios storyboards há décadas e sempre viu um desafio em transmitir ao elenco e à equipe aquilo que está em sua cabeça. Segundo ele, há ideias que precisam ser vistas, não apenas descritas.

“Agora, com essa ferramenta, posso compartilhar o que estou visualizando de forma mais clara e eficiente com minha equipe criativa, o designer de produção, o diretor de arte e o diretor de fotografia.”

O cineasta também citou seu histórico com tecnologia no cinema. Ele lembrou o uso do 3D em A Invenção de Hugo Cabret e do rejuvenescimento digital em O Irlandês, dois casos em que recursos técnicos tiveram papel central em sua forma de filmar.

Segundo Scorsese, ele testou a ferramenta em uma cena recente e viu vantagem na rapidez com que conseguiu gerar e compartilhar um storyboard.

“Durante o processo de pré-produção, tempo custa dinheiro, e isso nos permitiu avançar mais rápido sem sacrificar qualidade ou ofício.”

IA em Hollywood virou ponto de atrito entre criadores

A reação ao caso Scorsese não surgiu do nada. Nos últimos anos, o uso de IA no cinema e na TV se tornou um dos assuntos mais sensíveis entre artistas, roteiristas, atores, ilustradores, designers e profissionais de efeitos visuais.

A preocupação central não está apenas no uso da ferramenta em si, mas na origem dos dados usados para treiná-la e no risco de estúdios trocarem equipes humanas por sistemas mais baratos.

No caso dos storyboards, a discussão é ainda mais delicada. Esse material não é apenas um rascunho técnico. Ele ajuda a definir enquadramentos, ritmo visual, composição de cena, movimentos de câmera e até a comunicação entre diretor, fotografia, arte e produção.

Por isso, para muitos profissionais, usar IA generativa nessa etapa significa mexer em uma área que sempre dependeu de troca criativa entre pessoas.

O The Guardian destacou que não há indicação de que Scorsese pretenda usar imagens geradas por IA no corte final de um filme. A discussão, neste caso, gira em torno da pré-produção e da criação de storyboards. Ainda assim, artistas de conceito e storyboard reagiram de forma negativa à posição do diretor.

A Entertainment Weekly também lembrou que outros nomes de Hollywood têm opiniões diferentes sobre IA. Enquanto alguns cineastas passaram a admitir usos pontuais da tecnologia, Guillermo del Toro e Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, estão entre os que já fizeram críticas públicas duras à IA generativa.

O peso do nome de Scorsese aumentou a polêmica

A entrada de Scorsese nessa conversa chamou tanta atenção justamente por causa de sua imagem dentro da indústria. Ele é visto como um dos grandes defensores do cinema como arte coletiva, com uma carreira marcada por parcerias longas com montadores, fotógrafos, atores, designers de produção e outros profissionais de bastidores.

Por isso, o apoio a uma ferramenta de IA generativa soou, para o sindicato, como uma contradição.

A Black Forest Labs, por sua vez, apresenta o FLUX como um recurso para ajudar criadores a visualizar ideias, e não como substituto direto de equipes humanas. A empresa afirma que Scorsese quer usar a tecnologia mantendo “gosto, valores e julgamento humanos” no centro do processo.

Mesmo assim, o comunicado do Art Directors Guild mostra que parte de Hollywood não aceita esse argumento sem resistência. Para o sindicato, a questão não é apenas ganhar tempo na pré-produção, mas preservar o reconhecimento, o pagamento e o espaço de artistas que constroem visualmente filmes e séries antes mesmo de as câmeras começarem a rodar.

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