
Quando o Disney+ começou a chegar a diferentes países, a Disney tinha uma vantagem que poucos concorrentes poderiam copiar: Marvel, Pixar, Star Wars e as animações clássicas já eram reconhecidas muito além dos Estados Unidos.
Essa biblioteca ajudou a plataforma a conquistar assinantes rapidamente, mas não resolve sozinha todas as etapas de uma expansão internacional. Depois da chegada, o serviço precisa convencer o público a continuar pagando todos os meses, inclusive nos intervalos entre os grandes lançamentos norte-americanos.
É aí que entram as produções locais. Séries coreanas, dramas britânicos, animes japoneses e títulos latino-americanos falam diretamente com o público de seus países de origem, mas alguns também encontram espectadores em dezenas de outros mercados.
Nos últimos anos, o Disney+ encontrou bons exemplos dessa circulação com títulos como Em Movimento, Disney Twisted-Wonderland: A Série e Rivais. Os resultados mais recentes deram à empresa confiança para aumentar consideravelmente esse tipo de investimento.
Durante a apresentação dos resultados do terceiro trimestre fiscal de 2026, o CEO Josh D’Amaro anunciou que o Disney+ pretende aproximadamente triplicar o número de séries originais locais nos próximos três anos.
A meta foi apresentada na carta mais recente aos acionistas da Disney. O plano busca atrair novos assinantes fora dos Estados Unidos e reduzir a quantidade de clientes que cancelam o serviço.
“Nos próximos três anos, planejamos aproximadamente triplicar o número de séries originais locais no Disney+ para atrair novos usuários internacionais e reduzir cancelamentos.”
A Disney não informou quantas séries utiliza como ponto de partida para esse cálculo. Portanto, ainda não é possível dizer exatamente quantas produções serão lançadas ou dividir o total por país.
Também há uma diferença importante entre triplicar o número de séries locais e triplicar todo o orçamento internacional. O anúncio trata da quantidade de produções originais seriadas, enquanto os valores investidos e o tamanho de cada projeto podem variar bastante.
Três séries ajudaram a convencer a Disney

Ao apresentar a nova meta, D’Amaro citou três resultados recentes obtidos em regiões diferentes. A lista reúne uma produção britânica, um drama coreano e uma série colombiana. A segunda temporada de Rivais tornou-se a maior estreia de uma produção original da região EMEA no Disney+ no Reino Unido e na Irlanda. A sigla reúne Europa, Oriente Médio e África.
O resultado reforça a posição da série britânica dentro da plataforma. A segunda temporada de Rivais ganhou 12 episódios, divididos em dois blocos, enquanto uma terceira temporada já foi confirmada.
Na Coreia do Sul, A Coroa Perfeita tornou-se a estreia coreana mais assistida da história do Disney+ em todo o mundo. A série chegou à plataforma em abril de 2026 e rapidamente apareceu entre os conteúdos mais vistos em dezenas de países.
O resultado foi além de uma boa estreia. Durante seus primeiros 28 dias, a produção acumulou mais de 43 milhões de horas assistidas, conforme detalhamos ao acompanhar o recorde alcançado por A Coroa Perfeita.
A terceira produção mencionada foi Dear Killer Nannies: Criado por Assassinos. Segundo a Disney, a série teve a estreia latino-americana original mais assistida internacionalmente na plataforma durante o último ano.
Produzida na Colômbia e protagonizada por John Leguizamo, a minissérie acompanha a infância de Juan Pablo Escobar, filho do narcotraficante Pablo Escobar. O relato é apresentado do ponto de vista de um menino criado entre homens que atuavam ao mesmo tempo como protetores e assassinos contratados.
A produção chegou completa ao catálogo em abril. Nosso artigo sobre a história real por trás de Dear Killer Nannies: Criado por Assassinos explica o que aconteceu com Juan Pablo Escobar depois da morte do pai.
Esses três casos mostram o tipo de resultado que a Disney procura. Cada série foi concebida para uma região específica, mas conseguiu viajar para outros países sem abandonar sua identidade de origem.
Disney quer crescer em mercados onde ainda ganha pouco

D’Amaro reconheceu que o Disney+ ainda precisa avançar fora dos Estados Unidos, especialmente em países onde a companhia considera que a arrecadação está abaixo do potencial.
“Nossa estratégia é clara: aproveitar relações regionais e levar conteúdo local ao Disney+ em escala. É assim que cresceremos internacionalmente.”
Na prática, a empresa pretende trabalhar mais perto de produtoras, emissoras, estúdios e profissionais já estabelecidos em cada região. Isso pode diminuir a necessidade de construir toda a operação do zero e facilitar o desenvolvimento de projetos pensados para hábitos locais.
A estratégia também reduz a dependência de Hollywood. As grandes franquias norte-americanas continuarão no centro do Disney+, mas as produções regionais permitem manter um calendário mais regular e atender públicos que não necessariamente assinam o serviço apenas por Marvel ou Star Wars.
Outro benefício está na distribuição. Uma série pode ser criada inicialmente para a Coreia do Sul, Reino Unido, Brasil ou México e, caso apresente bons resultados, ganhar divulgação e lançamento mais amplo dentro da própria plataforma.
Foi o que aconteceu com vários k-dramas. O gênero deixou de funcionar apenas como uma oferta regional e passou a ocupar posições de destaque no Disney+ em diferentes partes do mundo. A companhia já confirmou pelo menos nove produções coreanas para 2026.
As produções locais também ajudam a diminuir os cancelamentos. Um assinante pode entrar para assistir a um filme da Marvel, mas permanecer porque encontra séries lançadas durante todo o ano em seu idioma e com atores que já acompanha.
Em alguns países, a ampliação ainda ajuda a Disney a cumprir regras relacionadas à presença e ao financiamento de obras nacionais ou regionais. Essas exigências variam de acordo com cada mercado e podem envolver cotas de catálogo, contribuições financeiras ou investimentos diretos em produção.
Brasil está incluído nos planos de expansão

O anúncio feito aos acionistas não detalhou quantas novas séries serão produzidas no Brasil. A Disney, porém, já havia revelado uma meta específica para o país poucos meses antes.
Durante a Rio2C, Eric Schrier, presidente de produções originais internacionais da Disney, afirmou que a companhia trabalha para chegar a uma nova produção brasileira por mês no Disney+.
Na ocasião, o executivo informou que a empresa produzia mais de 100 séries fora dos Estados Unidos, distribuídas por aproximadamente 20 países. Ele também citou Impuros e Amor da Minha Vida entre os exemplos brasileiros usados como referência.
A expansão anunciada para o Disney+ no Brasil inclui projetos de diferentes gêneros, além de parcerias com produtoras locais.
O desempenho de Impuros oferece um argumento a favor dessa estratégia. Em 2026, a produção tornou-se a série brasileira mais assistida da história do Disney+ durante seus cinco primeiros dias disponíveis.
O novo plano também representa uma mudança em relação ao período em que a Disney passou a revisar e reduzir projetos locais. A companhia cancelou produções em diferentes países e adotou critérios mais rígidos depois de concluir que quantidade elevada não garantia audiência ou retenção.
Naquele momento, explicamos por que o Disney+ estava produzindo menos séries fora dos Estados Unidos. Agora, a empresa parece ter encontrado uma seleção de formatos, parceiros e regiões nos quais considera possível voltar a crescer.
Isso não significa uma aprovação automática de qualquer projeto local. A fala de D’Amaro indica que o aumento será guiado pelos resultados já observados e pela capacidade de cada título de atrair assinantes, evitar cancelamentos e circular além de seu mercado inicial.
A Disney também pretende aumentar gradualmente os gastos com conteúdo. Durante a conversa com analistas, o CEO destacou as produções internacionais como uma das áreas em que a empresa acredita ter espaço para avançar.
Com a nova meta, o catálogo do Disney+ deve ficar menos dependente de lançamentos produzidos nos Estados Unidos. Nos próximos três anos, a plataforma tentará combinar suas grandes marcas com uma quantidade muito maior de séries britânicas, coreanas, japonesas, latino-americanas e de outras regiões.