
É difícil imaginar Hades, o temperamental deus do mundo dos mortos de Hércules (1997), com outra voz além da de James Woods na versão original em inglês. Seu jeito sarcástico, as explosões de raiva e as falas aceleradas ajudaram a transformar o vilão em um dos personagens mais divertidos da animação.
Mas a história poderia ter sido bem diferente. Antes de Woods entrar no projeto, a Disney tentou contratar um dos maiores nomes de Hollywood. E não se tratava apenas de uma possibilidade considerada durante a seleção do elenco.
Hades foi criado especificamente para Jack Nicholson, astro de Batman (1989), Questão de Honra (1992) e Melhor É Impossível (1997). Os diretores Ron Clements e John Musker chegaram a desenvolver o visual e a personalidade do personagem pensando no ator.
A revelação aparece no livro Making Disney Magic… from a Mermaid to Moana, de Ron Clements, que teve seus bastidores divulgados pela revista People nesta quinta-feira (15).
O mais curioso é que Nicholson chegou a visitar os estúdios Disney, assistiu a uma animação preparada especialmente para ele e demonstrou interesse. O acordo só não saiu por causa de uma exigência contratual que a empresa se recusou a aceitar.
Disney preparou uma apresentação especial para Jack Nicholson
Segundo Clements, John Musker acreditava que Nicholson seria perfeito para interpretar Hades. A equipe chegou a produzir desenhos iniciais do vilão com características que lembravam o rosto do ator.
Para tentar convencê-lo, o animador Andreas Deja preparou um teste de animação usando uma fala de Nicholson no filme Questão de Honra, dirigido por Rob Reiner.
A cena mostrava Hades pronunciando o diálogo do coronel Nathan Jessep, personagem interpretado pelo ator no drama de 1992.
Como o trecho continha linguagem inadequada para uma produção infantil, os diretores sabiam que aquela animação jamais poderia ser exibida ao público. A intenção era apenas impressionar Nicholson.
A estratégia aparentemente funcionou. O ator gostou da apresentação e também assistiu a uma sequência que apresentava Hades e seus ajudantes, Dor e Pânico.
Nicholson levou a filha Lorraine à visita. Como ela era fã da Disney e apareceu vestida de Branca de Neve, a equipe ainda preparou uma surpresa: desenhos originais de Branca de Neve e os Sete Anões.
O encontro terminou com presentes, incluindo sacolas de produtos Disney e bichos de pelúcia.
Tudo parecia encaminhado, até chegar a hora de discutir o contrato.
A exigência que fez Jack Nicholson perder o papel
De acordo com Ron Clements, a dificuldade não estava exatamente no cachê. Nicholson queria receber uma participação nas receitas obtidas com produtos licenciados relacionados ao filme.
O ator já havia conseguido uma condição semelhante em Batman, de Tim Burton, no qual interpretou o Coringa.
Relatos anteriores indicam que Nicholson teria pedido entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões de cachê, além de 50% das receitas de produtos relacionados a Hades.
Para a Disney, entretanto, dividir os ganhos com a comercialização de produtos do personagem estava fora de cogitação.
Clements explicou que, diante dessa condição, o estúdio precisou procurar outro intérprete.
E foi aí que começou uma segunda tentativa que também não deu certo.
A Disney contratou John Lithgow, ator que mais tarde interpretaria Lord Farquaad em Shrek (2001). Ele recebeu o papel sem precisar fazer um teste, pois os diretores acreditavam que conseguiria reproduzir o sarcasmo desejado para Hades.
Porém, durante as gravações, ficou claro que o resultado não correspondia ao que os cineastas imaginavam.
Clements assumiu a responsabilidade pela escolha:
“Não foi culpa de Lithgow. A culpa foi nossa por escolher o ator errado para aquele papel.”
A interpretação também não agradou a Michael Eisner, então presidente-executivo da Disney. Lithgow acabou dispensado, e a produção precisou procurar outro ator.
Foi quando James Woods entrou definitivamente em cena.
Em vez de seguir o estilo mais lento e ameaçador originalmente pensado para Nicholson, Woods transformou Hades em um vilão que falava sem parar, com a energia de um vendedor de carros usados misturada à de um agente de talentos de Hollywood.
O ator também improvisou várias falas, e essa liberdade ajudou a definir a personalidade que aparece no filme final.
Segundo Clements, Woods considera Hades um dos papéis mais divertidos de sua carreira.
Quase três décadas depois do lançamento da animação, o personagem continua despertando interesse. Tanto que uma versão do live-action de Hércules chegou a ser planejada com foco em Hades, embora essa ideia tenha sido posteriormente abandonada.
Enquanto o remake permanece sem data de estreia e sem elenco oficial, a animação original de Hércules, com a interpretação de James Woods como Hades em inglês, está disponível no Disney+.