
Poucas empresas fizeram da combinação entre arte e tecnologia uma parte tão presente de sua história quanto a Disney. A animação sincronizada com som, os primeiros longas animados, os efeitos visuais e os sistemas desenvolvidos para os parques mostram que novas ferramentas sempre tiveram espaço dentro da companhia.
A inteligência artificial, porém, chega cercada por preocupações diferentes. Artistas, roteiristas, atores e técnicos querem saber quais tarefas serão automatizadas, quais obras foram usadas para treinar os sistemas e até onde as empresas pretendem substituir profissionais por programas.
Dentro da própria Disney, o assunto já deixou a fase de testes isolados. Ferramentas de IA passaram a ser usadas em produções audiovisuais, projetos de atrações, planejamento de viagens e atividades internas de funcionários.
Agora, o CEO Josh D’Amaro detalhou algumas dessas aplicações e voltou a afirmar que a empresa não pretende retirar o artista do centro do processo criativo. As declarações foram feitas durante a apresentação dos resultados do terceiro trimestre fiscal de 2026.
Na comunicação oficial aos investidores, D’Amaro disse que a união entre criatividade e avanços tecnológicos seguirá como uma das prioridades da atual administração.
“A IA não serve apenas para gerar eficiência. Ela deve aprimorar um processo criativo que continuará centrado nas pessoas e conduzido por artistas.”
IA já está sendo usada na produção de filmes e séries
Segundo D’Amaro, as equipes dos estúdios usam inteligência artificial principalmente em etapas de pré-produção e pós-produção. O executivo afirmou que essas ferramentas permitem trabalhar com mais rapidez e aproveitar melhor o tempo dos profissionais.
A Disney não apresentou uma lista completa das tarefas automatizadas. Pré-produção pode envolver atividades como organização de referências, testes visuais, planejamento técnico e preparação de materiais. Pós-produção inclui edição, tratamento de imagens, efeitos visuais, áudio e adaptação de conteúdo.
Isso não significa que a companhia tenha confirmado o uso de IA em todas essas funções. A declaração de D’Amaro foi ampla e não identificou quais programas são usados, quais estúdios adotaram cada ferramenta ou quais produções atuais passaram por esse tipo de trabalho.
O CEO também falou sobre a personalização de conteúdos e serviços para públicos de diferentes países.
“A IA amplia o que nossos profissionais podem fazer. Ela não os substitui.”
A frase segue a posição que D’Amaro apresentou pouco depois de ser escolhido para comandar a empresa. Na ocasião, o executivo descreveu a inteligência artificial como uma ferramenta de apoio aos criadores, não como uma alternativa ao trabalho humano.
Mesmo assim, já existem exemplos concretos de IA em produções da companhia. A Disney confirmou anteriormente o uso da tecnologia em etapas específicas de séries, incluindo Percy Jackson e os Olimpianos.
Outro caso ocorreu em Invasão Secreta. A abertura da série da Marvel Studios utilizou imagens geradas por IA em um processo que também contou com storyboard, ilustração, animação 2D e 3D e trabalho tradicional de composição.
Na época, o estúdio responsável declarou que os artistas permaneceram envolvidos em todas as etapas. A explicação, no entanto, não impediu as críticas de profissionais e espectadores que rejeitaram o uso da tecnologia em uma produção de grande orçamento.
Ferramenta J.A.R.V.I.S. atende mais de 2 mil Imagineers
A inteligência artificial também chegou à Walt Disney Imagineering, divisão responsável pela criação de parques, atrações, hotéis, navios e experiências presenciais.
A Disney disponibilizou uma ferramenta chamada J.A.R.V.I.S. para mais de 2 mil Imagineers. O nome faz referência ao assistente de Tony Stark nos filmes do Homem de Ferro, cuja sigla já foi explicada em um artigo sobre o J.A.R.V.I.S. da Marvel.
O sistema interno reúne informações acumuladas pela Imagineering durante aproximadamente 70 anos. Dessa forma, profissionais podem consultar projetos, estudos e conhecimentos técnicos sem precisar procurar manualmente em grandes arquivos.
A companhia também usa cópias digitais e ferramentas de simulação para projetar e testar atrações antes que determinadas estruturas físicas sejam construídas.
Esses modelos permitem reproduzir virtualmente o funcionamento de veículos, filas, movimentação de visitantes e componentes de uma atração. As equipes podem testar diferentes cenários, localizar falhas e ajustar o projeto antes de iniciar uma etapa mais cara da construção.
De acordo com informações apresentadas aos investidores e detalhadas pelo TheWrap, esse tipo de sistema já está sendo aplicado no desenvolvimento do futuro parque da Disney em Abu Dhabi.
O resort será construído em parceria com a Miral, nos Emirados Árabes Unidos. Quando o projeto foi anunciado, D’Amaro afirmou que o local seria o parque mais avançado e interativo da empresa. Os planos iniciais para o novo resort à beira-mar em Abu Dhabi ainda não incluíam uma data de inauguração.
A Disney não explicou quais áreas do parque estão sendo testadas com IA. Também não informou se o sistema participa da criação artística das atrações ou se está concentrado em engenharia, logística e segurança.
Essa diferença é importante. Uma ferramenta que simula o fluxo de visitantes não exerce a mesma função de um gerador de imagens, textos ou vídeos. O termo inteligência artificial reúne tecnologias bastante diferentes, e nem todas produzem material criativo.
Planejamento de férias e atendimento nos parques

A empresa também pretende usar IA para simplificar a preparação de viagens aos seus parques.
Planejar uma visita ao Walt Disney World, por exemplo, pode exigir decisões sobre hospedagem, ingressos, transporte, refeições, atrações e horários. A proposta da Disney é usar ferramentas capazes de organizar essas informações de acordo com as preferências de cada visitante.
A companhia não anunciou um produto definitivo, mas já realizou testes com respostas automáticas no site do Walt Disney World. O sistema pode resumir informações e ajudar em pesquisas sobre assuntos como restaurantes e serviços disponíveis no resort.
Funcionários dos parques também recebem acesso a ferramentas de IA para localizar respostas e atender visitantes com maior rapidez. A Disney usa o termo Cast Members, ou membros do elenco, para se referir aos profissionais que trabalham em suas áreas de experiências.
D’Amaro afirmou que a tecnologia pode permitir que os funcionários atendam mais pessoas e reduzam o tempo gasto em tarefas administrativas.
Ao mesmo tempo, a companhia precisa evitar que respostas incorretas prejudiquem uma viagem. Informações sobre horários, restrições de atrações, acessibilidade, reservas e alimentação exigem dados atualizados. Um erro pode gerar problemas maiores do que uma recomendação inadequada de filme.
A Disney não revelou como verifica as respostas, quais informações pessoais podem ser usadas ou se o visitante terá a opção de falar diretamente com uma pessoa durante todo o processo.
Economia de custos também faz parte do plano
Embora D’Amaro tenha insistido que a IA não se resume à eficiência, o executivo reconheceu que a redução de despesas está entre as razões para sua adoção.
Segundo ele, equipes que trabalham com ferramentas mais rápidas podem atender mais pessoas nos parques e nas plataformas digitais com custos menores. Os recursos economizados poderiam ser direcionados a filmes, séries, novas experiências e infraestrutura tecnológica.
Essa explicação ganha peso porque a Disney continua reduzindo despesas e avaliando novos cortes no quadro de funcionários. A companhia informou no mesmo trimestre que ainda está no meio de seu programa de economia.
O uso da IA para cortar custos não começou com a atual administração. Em 2023, durante o comando de Bob Iger, a empresa já havia criado uma força-tarefa para estudar aplicações da tecnologia em suas diferentes divisões.
Desde então, a adoção ganhou novas frentes. A Disney passou a testar sistemas internos como DisneyGPT e J.A.R.V.I.S., além de oferecer ferramentas aprovadas para atividades diárias de funcionários. Os detalhes desse avanço foram reunidos anteriormente em um artigo sobre os testes internos de inteligência artificial na companhia.
A afirmação de que artistas não serão substituídos, portanto, será observada junto com as decisões trabalhistas tomadas pela empresa. A existência de uma diretriz pública não responde quantos postos podem mudar, quais funções serão reduzidas ou como os ganhos de produtividade serão distribuídos.
Disney reconhece riscos legais e regulatórios
A adoção também cria obrigações relacionadas a direitos autorais, privacidade, contratos de trabalho e segurança de dados.
No relatório entregue à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a Disney reconheceu que as regras para inteligência artificial ainda estão em evolução.
A companhia afirmou que novas exigências podem elevar custos ou limitar a maneira como a tecnologia é usada em uma ou mais divisões.
A posição da Disney também possui uma aparente contradição. Ao mesmo tempo em que amplia o uso interno de IA, a empresa combate plataformas acusadas de reproduzir seus personagens sem autorização.
A companhia já tomou medidas contra sistemas que geram versões de heróis, princesas e figuras da Pixar. Artistas e sindicatos também criticam empresas que usam obras protegidas para treinar modelos sem consentimento ou pagamento.
Esse conflito não é exclusivo da Disney. Empresas de entretenimento querem aproveitar a velocidade e a capacidade de automação da IA, mas também precisam impedir que terceiros usem seus catálogos livremente.
D’Amaro deixou claro que a tecnologia será uma prioridade de sua gestão. O que permanece sem resposta é como a Disney comprovará, na prática, que os novos sistemas continuarão subordinados aos artistas, especialmente quando eficiência e redução de custos fazem parte da mesma estratégia.