
Boa parte do que aparece na tela quando alguém abre o Disney+ depende de tecnologias que passam despercebidas. Resolução, cores, compactação do vídeo, transmissão para diferentes aparelhos e reprodução simultânea exigem sistemas desenvolvidos ao longo de muitos anos.
Quando existe uma disputa sobre quem detém os direitos dessas tecnologias, o problema deixa de ficar restrito aos tribunais. Formatos podem desaparecer temporariamente, recursos precisam ser refeitos e determinados aparelhos podem deixar de oferecer a mesma qualidade de antes.
Assinantes europeus já tiveram uma amostra disso. Nos últimos meses, o Disney+ retirou formatos avançados de imagem em alguns países após decisões judiciais relacionadas a patentes de transmissão e compactação de vídeo.
Agora, a própria The Walt Disney Company reconheceu que processos desse tipo podem exigir mudanças nos recursos de seus serviços de streaming. O alerta aparece no relatório trimestral entregue pela companhia à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a SEC.
O documento não informa quais funções estão sob maior risco, nem afirma que haverá alguma alteração específica no Disney+ brasileiro. Ainda assim, a descrição mostra que a empresa já precisou desenvolver soluções alternativas e admite que outros ajustes podem ser necessários.
A Disney informa que seus serviços e tecnologias de streaming enfrentam acusações de violação de patentes tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. A companhia atribui o aumento desse risco à rápida evolução tecnológica e à grande quantidade de patentes registradas nesse setor.
“Ao nos defendermos nesses casos, desenvolvemos, e podemos desenvolver no futuro, alternativas para recursos, funcionalidades e serviços nas jurisdições relevantes ou de forma mais ampla.”
Segundo o relatório, esse trabalho exige investimentos adicionais em engenharia e outras áreas técnicas. A Disney também admite que as modificações podem fazer alguns clientes desistirem de seus serviços.
Decisões judiciais podem retirar funções do Disney+

Um resultado desfavorável não significaria apenas o pagamento de indenizações. A Disney reconhece que pode ser obrigada a pagar royalties e taxas de licenciamento, além de enfrentar ordens judiciais que impeçam a oferta de determinados recursos ou exijam mudanças em funções já disponíveis.
Em outra parte do mesmo relatório, a empresa volta ao assunto e afirma que seus serviços de streaming fazem parte de diferentes processos envolvendo patentes. A administração, no entanto, diz que não considera provável, neste momento, uma perda financeira relevante causada pelo conjunto dessas ações.
Essa ressalva é importante. O documento apresenta riscos que podem afetar os negócios, mas não anuncia a retirada de um recurso específico, não estabelece datas e não identifica todas as empresas envolvidas.
O texto também não menciona nominalmente a InterDigital. A empresa de tecnologia, porém, mantém uma disputa judicial de grande porte com a Disney em torno de patentes usadas na codificação e transmissão de vídeos.
Codecs como AVC e HEVC permitem compactar arquivos para que filmes, séries e eventos ao vivo sejam transmitidos com boa qualidade sem consumir uma quantidade impraticável de dados. O HEVC, também chamado de H.265, é bastante utilizado na distribuição de conteúdos em 4K e HDR.
Em julho de 2026, a InterDigital anunciou uma nova vitória contra a Disney no Tribunal Unificado de Patentes da Europa. A decisão envolve uma patente relacionada ao HEVC e alcança 11 países da União Europeia, entre eles Alemanha, França e Itália. A Disney ainda pode recorrer.
A InterDigital também afirma ter obtido outras decisões relacionadas a tecnologias de HDR, sobreposição de transmissões, envio de vídeos entre aparelhos e formatos adicionais de compactação. Alguns desses processos tramitam na Alemanha e no Brasil.
O problema já chegou aos assinantes europeus
As consequências deixaram de ser apenas hipotéticas. No início de 2026, o Disney+ retirou Dolby Vision, HDR10+ e conteúdos em 3D na Alemanha, embora parte dos formatos tenha voltado posteriormente.
No fim de julho, a situação se ampliou. O serviço suspendeu temporariamente a reprodução em 4K UHD e HDR em vários países europeus após outra decisão judicial.
Em declaração divulgada na Europa, a Disney confirmou que a mudança estava ligada à tecnologia usada para entregar esses formatos e afirmou trabalhar para restaurá-los. Alguns assinantes do plano Premium passaram a receber vídeos limitados a Full HD e SDR, mesmo com a manutenção do valor da assinatura.
A reprodução em 4K começou a retornar em alguns mercados europeus no início de agosto, por meio de uma solução técnica diferente. O HDR, porém, ainda não havia sido restabelecido em todos os locais e aparelhos afetados.
O caso ajuda a entender por que a Disney menciona no relatório que pode criar alternativas para determinadas funções. Uma empresa pode recorrer de uma decisão, negociar uma licença ou substituir a tecnologia questionada. Refazer parte do sistema, porém, demanda tempo, testes e compatibilidade com televisores, celulares, navegadores e dispositivos de streaming.
Também existe um processo no Brasil
A disputa com a InterDigital inclui uma ação apresentada no Rio de Janeiro. Em setembro de 2025, a empresa informou que a 7ª Vara Empresarial da Comarca da Capital concedeu uma decisão preliminar relacionada a duas patentes de codificação de vídeo AVC e HEVC.
Uma análise jurídica publicada pela Licks Attorneys na época informou que a ordem determinava que a Disney deixasse de codificar ou distribuir no Brasil vídeos que usassem uma ferramenta específica dessas tecnologias, sob pena de multa diária.
Até o momento, os documentos divulgados pela Disney não associam esse processo à retirada de 4K, HDR ou outros recursos para os assinantes brasileiros. O funcionamento normal do serviço no país também indica que a companhia pode ter adotado uma solução técnica, obtido alguma suspensão judicial ou encontrado outra forma de cumprir as determinações. Essa possibilidade, contudo, é uma inferência, já que a empresa não explicou publicamente como respondeu à ordem.
A Disney também contesta a postura da InterDigital. Em uma ação própria apresentada nos Estados Unidos, a companhia acusou a detentora das patentes de adotar práticas abusivas de licenciamento e de exigir pagamentos que a Disney considera indevidos. A InterDigital rejeita essas acusações e sustenta que suas tecnologias estão sendo usadas sem a licença necessária.
O alerta incluído no relatório trimestral, portanto, não significa que o Disney+ esteja prestes a perder uma função no Brasil. Ele confirma, porém, que as disputas já exigiram modificações técnicas e que novas decisões podem alterar recursos em países específicos ou até em uma área mais ampla.
Para os assinantes, o principal ponto de atenção está nos formatos vinculados aos planos mais caros. Quando 4K, HDR, Dolby Vision ou funções semelhantes são retirados, mesmo temporariamente, parte do que justificava o preço do plano Premium deixa de estar disponível.