
A relação entre a Disney e a Character.ai teve uma reviravolta curiosa. Há pouco mais de um ano, as duas empresas estavam em lados opostos de uma disputa envolvendo o uso de personagens famosos em ferramentas de inteligência artificial.
Na época, a Disney exigiu que a plataforma retirasse chatbots inspirados em figuras como Homem-Aranha, Darth Vader, Elsa e Moana. Agora, a gigante do entretenimento está interessada em adquirir parte da tecnologia desenvolvida pela mesma empresa.
A Character.ai anunciou nesta terça-feira, 13 de outubro, que iniciou um processo de recuperação judicial nos Estados Unidos, com base no Capítulo 11 da legislação de falências americana. O objetivo é encontrar compradores para seus ativos e tentar preservar o valor do negócio.
E a Disney já apareceu como uma das principais interessadas, com uma oferta inicial de US$ 20 milhões.
O que a Disney quer comprar da Character.ai?

De acordo com o comunicado oficial da Character.ai, a proposta foi apresentada pela Disney Worldwide Services, subsidiária da The Walt Disney Company.
O acordo prevê uma licença permanente e não exclusiva de determinados direitos de propriedade intelectual da Character.ai, além de alguns direitos relacionados a reivindicações legais.
Na prática, isso permitiria à Disney utilizar parte da tecnologia da empresa por tempo indeterminado, sem necessariamente adquirir toda a plataforma ou impedir que outras companhias também tenham acesso a esses recursos.
A proposta inclui ainda serviços de transição prestados pela Disney com a participação de antigos funcionários da Character.ai que foram contratados recentemente.
A Disney foi designada como stalking horse bidder, expressão utilizada nos processos de falência dos Estados Unidos para identificar o interessado que apresenta uma oferta inicial, estabelecendo uma referência para outras propostas.
Isso não significa que a compra esteja concluída. Outros interessados poderão apresentar ofertas superiores, e a operação ainda depende das aprovações necessárias no processo judicial.
Disney contratou o CEO da Character.ai recentemente
Outro detalhe chama atenção nessa história. Em setembro, a Disney anunciou a contratação de Karandeep Anand, então CEO da Character.ai, para assumir o recém-criado cargo de diretor de tecnologia da companhia.
A contratação fazia parte de uma reorganização destinada a ampliar o uso de tecnologia em diferentes negócios, incluindo o Disney+.
A aproximação é ainda mais curiosa porque, em outubro de 2025, a Disney havia notificado formalmente a Character.ai pelo uso não autorizado de seus personagens.
Na ocasião, a empresa acusou a plataforma de disponibilizar versões interativas de personagens protegidos por direitos autorais, inclusive em conversas consideradas inadequadas. A Character.ai informou que havia removido os personagens mencionados na reclamação.
Agora, além de contratar profissionais da empresa, a Disney pretende ter acesso permanente a parte de sua propriedade intelectual.
Character.ai pode encerrar suas atividades
Fundada em 2021, a Character.ai ganhou espaço no mercado por permitir que usuários criem personagens virtuais e conversem com eles por meio de inteligência artificial.
Entretanto, a empresa passou a enfrentar dificuldades jurídicas, regulatórias e operacionais. Segundo seu CEO, Colin Adams, a decisão de recorrer à Justiça veio após uma avaliação das alternativas disponíveis.
“Após uma análise abrangente das alternativas disponíveis, o conselho concluiu que esse processo de venda supervisionado pela Justiça oferece à empresa a melhor oportunidade de maximizar o valor para todas as partes interessadas”, declarou o executivo.
Por enquanto, a plataforma continuará funcionando, com a expectativa de interrupções mínimas durante o processo.
A previsão é que a venda dos ativos seja concluída entre o final de novembro e o início de dezembro de 2026.
Há, porém, uma possibilidade preocupante para os usuários: se não surgir uma proposta que permita a continuidade da plataforma, a Character.ai poderá encerrar suas operações.
Ainda não foram divulgados detalhes sobre quais recursos tecnológicos a Disney pretende utilizar caso a negociação seja aprovada. Também não existe confirmação de que essas ferramentas serão integradas ao Disney+.
O interesse, entretanto, aparece em um momento no qual a companhia busca ampliar suas iniciativas de inteligência artificial, inclusive depois do encerramento do Sora e do cancelamento de seu acordo bilionário com a OpenAI.