
A Disney sempre gostou de transformar magia em linguagem visual. Feitiços, objetos vivos, mundos escondidos e personagens em transformação fazem parte da história do estúdio desde clássicos como Fantasia e A espada Era a Lei até produções recentes como Frozen e Encanto.
Com Enfeitiçadas: Bem-vindos a Hexe, o desafio é outro. A nova animação original do Walt Disney Animation Studios precisa conversar com essa tradição sem parecer apenas mais uma visita ao mesmo caldeirão.
Nos últimos dias, porém, uma discussão inesperada roubou parte da atenção. Após a divulgação do primeiro trailer, algumas pessoas nas redes sociais acusaram o filme de ter enquadramentos centralizados demais, como se as cenas tivessem sido pensadas para recortes verticais em plataformas como TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts.
Agora, os diretores Fawn Veerasunthorn e Jason Hand resolveram falar sobre o assunto. Em entrevista ao Cartoon Brew, eles comentaram a reação ao trailer, defenderam o trabalho visual da equipe e explicaram como a magia de Enfeitiçadas: Bem-vindos a Hexe foi criada para refletir a personalidade da protagonista Billie.
A nova magia da Disney

A história acompanha Billie, uma adolescente de temperamento difícil que descobre ter poderes mágicos e acaba levada para Hexe, um mundo estranho e cheio de bruxas. A jornada também envolve sua mãe, o que coloca a relação entre as duas no centro da trama.
Para Fawn Veerasunthorn, o ponto de partida era encontrar uma nova forma de retratar magia dentro da Disney. Ela explicou que o departamento de efeitos do estúdio já fez praticamente de tudo ao longo das décadas, então a equipe precisava encontrar algo que parecesse novo e, ao mesmo tempo, tivesse ligação direta com a história.
A diretora definiu o desafio como divertido. Segundo ela, o filme acompanha uma jovem em busca de crescimento e renovação, e isso precisava aparecer no jeito como a magia funciona.
Jason Hand comparou Billie com personagens de outras animações recentes do estúdio. Para ele, filmes como Moana e Encanto giram em torno de protagonistas mais altruístas, enquanto Billie segue por outro caminho.
O diretor disse que a magia do filme nasce justamente desse temperamento mais explosivo da personagem. Ela não é uma heroína comportada, nem alguém que tenta agradar o tempo todo.
Segundo Hand, a magia de Billie tem beleza e perigo ao mesmo tempo, pois carrega a energia da própria garota. Ele também afirmou que a protagonista se sente atraída pelas partes mais esquisitas daquele mundo, o que permitiu à equipe explorar uma abordagem diferente dentro do universo Disney.
Veerasunthorn resumiu Billie como uma personagem mais afiada e estranha. A diretora contou que passou a gostar muito dela ao longo do último ano de produção e disse que gostaria de ter tido, na adolescência, a coragem que vê na personagem.
Billie não precisa ser perfeita

Um dos pontos mais interessantes da entrevista está na forma como os diretores falam sobre a personalidade de Billie. Em vez de tentar suavizar todos os cantos da protagonista, a equipe quis manter sua energia mais teimosa e impulsiva.
Veerasunthorn explicou que a regra usada pela equipe era simples: o público precisava entender por que Billie tomava determinada decisão.
A diretora disse: “Se você fosse Billie, também teria feito essa escolha.”
Para ela, o segredo está em mostrar a confusão em que a personagem se mete sem transformar isso em algo gratuito. Billie pode agir de forma imatura, mas seu coração precisa estar no lugar certo.
Veerasunthorn comparou esse tipo de comportamento com personagens como Garfield, já que existe um prazer em ver alguém um pouco arisco escapar das regras que todo mundo precisa seguir.
Jason Hand acrescentou que a questão não é apenas fazer Billie ser simpática, e sim fazer o público torcer por ela. Para o diretor, personagens muito determinados costumam ser mais interessantes do que aqueles que ficam parados esperando a história acontecer.
Ele afirmou: “Uma personagem que faz demais é mais interessante do que uma personagem que não faz o suficiente.”
Essa construção também ajuda nos momentos mais íntimos. Segundo Hand, quando uma personagem tão cabeça-dura mostra vulnerabilidade, a cena ganha força. Ele elogiou Hailee Steinfeld, voz original de Billie, por conseguir trazer esses detalhes para a interpretação.
A relação entre mãe e filha

Além da magia e da aventura, Enfeitiçadas: Bem-vindos a Hexe também aposta em um vínculo pouco explorado em animações de grande estúdio: a relação entre mãe e filha.
Veerasunthorn contou que sua visão sobre a própria mãe mudou depois que ela teve uma filha. Para a diretora, existe algo curioso em perceber que os pais tiveram uma vida antes de serem vistos apenas como pais pelos filhos.
Ela disse que se considera uma pessoa “normal e legal”, mas sabe que sua filha talvez não a veja assim. A mesma coisa aconteceu com ela em relação à própria mãe.
No filme, essa ideia aparece na trajetória de Billie e Alice. A adolescente passa por mudanças, descobre novas partes de si mesma e precisa lidar com uma figura materna que também guarda segredos.
Hand relacionou esse tema à iconografia lunar do longa. Segundo ele, a equipe usa muitas referências à Lua para reforçar ideias de mudança, ciclos e transformação.
Veerasunthorn também destacou o conceito de coven, grupo de bruxas que funciona como uma rede de apoio. Para uma adolescente que se sente sozinha, encontrar seu grupo pode ser essencial. E, às vezes, esse grupo pode incluir a própria mãe.
Ação sem perder o toque da Disney
Durante a apresentação em Annecy, os diretores exibiram uma cena de batalha entre Billie e outra bruxa. A sequência levou a uma pergunta sobre como criar ação forte sem sair do território esperado para uma animação da Disney.
Jason Hand explicou que a equipe não trabalha com os mesmos recursos de um filme da Marvel, por exemplo. Não há socos e tiros como em uma produção de super-heróis. Em vez disso, o objetivo é criar obstáculos intensos e antagonistas que pressionem a protagonista.
O diretor disse que a intenção é fazer a ação parecer tão empolgante quanto a de um grande filme de aventura, mas com ferramentas diferentes.
Para ele, outro ingrediente importante é a comédia. Hand afirmou que ação pela ação não basta. A cena precisa ter humor, personalidade ou algum detalhe que revele algo sobre os personagens.
Essa mistura combina com o tom descrito pelos diretores para Enfeitiçadas: Bem-vindos a Hexe. O filme quer ser mágico, estranho, mais cartunesco e visualmente ousado dentro do padrão recente da Disney.
O detalhe escondido nos olhos de Billie

A entrevista também revelou um detalhe visual que muita gente não percebeu no trailer. Segundo Jason Hand, os olhos de Billie têm pequenos brilhos em formato de lua crescente.
A ideia surgiu durante a fase de iluminação e foi abraçada pela equipe como uma pista sutil sobre o potencial mágico da personagem.
Veerasunthorn explicou que o objetivo era sugerir que Billie poderia ser uma bruxa sem tornar tudo óbvio demais. Por isso, pequenos sinais foram espalhados pelo design da personagem.
Hand contou ainda que assistia a Chainsaw Man com seu filho de 15 anos e ficou impressionado com o uso visual dos olhos no anime. A equipe, então, buscou algo nessa linha, mas de forma bem mais discreta e adequada ao filme.
A diretora disse que, por se tratar de uma produção original, a equipe viu uma chance de pensar de outro jeito e apostar em uma abordagem mais cartunesca.
Hand reforçou que essa foi uma prioridade em várias áreas do longa, incluindo cores, proporções dos personagens e design de produção.
Diretores respondem crítica sobre vídeo vertical
A parte mais direta da entrevista veio quando os diretores foram questionados sobre a reação ao trailer. Nas redes sociais, alguns espectadores afirmaram que o filme parecia enquadrado para ser recortado em vídeos verticais, como se a Disney tivesse priorizado o consumo em celulares.
Hand admitiu que não esperava esse tipo de crítica. Veerasunthorn também disse que foi pega de surpresa.
O diretor foi direto ao negar a interpretação. Para ele, a discussão deve perder força quando mais imagens do filme forem divulgadas.
Hand afirmou: “Nós vimos a fotografia incrível que nossa equipe está fazendo, e sinto que isso vai desaparecer naturalmente. Foi bizarro e não é verdade.”
Veerasunthorn reforçou que existe muito cuidado em cada imagem do filme. Segundo ela, a equipe pensa onde os personagens devem estar, o que existe ao redor deles e como o espaço comunica o estado interno de Billie.
A diretora explicou: “Colocamos muita intenção em cada quadro, pensando em onde os personagens estão e no que os cerca.”
Ela disse que a equipe faz perguntas como: Billie se sente livre neste momento? Ela se sente presa? O ambiente precisa mostrar abertura ou restrição?
Hand também adiantou que o filme brinca com a forma como o mundo é percebido pela protagonista, inclusive a partir da proporção da imagem. Para ele, essa é uma das razões pelas quais a acusação de que o longa teria sido pensado para vídeo vertical não deve se sustentar.
Objetos vivos em um mundo mais cartunesco
Outro ponto que empolga os diretores é a chance de animar objetos sem vida. Hand contou que ele e Michael Franceschi, chefe de animação, adoram o pequeno açucareiro de A espada era a lei e quiseram levar essa ideia mais longe.
Um dos exemplos citados é Bucket, o caldeirão. Hand disse que desenhou o personagem ao longo da produção e ficou animado ao ver um teste em 2D feito por Tyler Pacana.
Para o diretor, esse tipo de animação faz o mundo parecer mais vivo. Ele também afirmou que existem várias coisas “descontroladas” no filme que espera que o público descubra aos poucos.
Veerasunthorn completou que a animação permite exagerar a caricatura com mais liberdade.
Pelo que os diretores descrevem, Enfeitiçadas: Bem-vindos a Hexe tenta equilibrar tradição e novidade. A magia ainda está lá, mas a protagonista não segue o molde da heroína perfeita. O mundo ainda tem objetos animados e bruxas, mas a equipe quer explorar formas, cores e detalhes que ajudem o filme a encontrar sua própria identidade dentro da Disney.
Enfeitiçadas: Bem-vindos a Hexe estreia nos cinemas brasileiros em 26 de novembro.