
Durante anos, o streaming foi tratado como uma aposta cara para a Disney. A companhia investiu bilhões de dólares em tecnologia, produções exclusivas, expansão internacional e aquisição completa do Hulu antes que esse negócio começasse a se sustentar.
A prioridade inicial era ganhar escala. O número de assinantes ocupava o centro de cada apresentação financeira, mesmo quando Disney+ e Hulu acumulavam prejuízos. Esse cenário começou a mudar, e a empresa decidiu parar de divulgar a quantidade total de assinaturas a partir do atual ano fiscal.
Agora, o foco está na receita obtida com cada cliente, no controle dos gastos e, principalmente, no dinheiro que permanece depois de pagar conteúdo, tecnologia, publicidade e distribuição.
Os resultados financeiros apresentados pela Disney nesta quarta-feira, 5 de agosto, mostram por que essa mudança aconteceu. Disney+ e Hulu registraram juntos um lucro operacional de US$ 712 milhões no terceiro trimestre fiscal de 2026.
O valor representa um aumento de aproximadamente 116% sobre os US$ 329 milhões alcançados no mesmo período do ano anterior. Em outras palavras, o lucro mais que dobrou em apenas 12 meses.
A receita do streaming cresceu em ritmo bem menor, mas ainda avançou 11%, de US$ 4,97 bilhões para US$ 5,53 bilhões. Como os gastos aumentaram somente 4%, uma parte bem maior do dinheiro arrecadado ficou com a empresa.
Com isso, a margem operacional chegou a 12,9%, arredondada pela Disney para 13% em sua carta aos acionistas. É a maior margem divulgada pela companhia para esse conjunto de serviços no formato atual de apresentação dos dados.
Assinaturas foram responsáveis pela maior parte do crescimento
A Disney divide a receita do streaming em três áreas: assinaturas, publicidade e outros ganhos ou perdas. O resultado do trimestre mostra uma diferença clara entre elas.
As assinaturas geraram US$ 4,72 bilhões, alta de 15% em comparação com os US$ 4,12 bilhões registrados um ano antes. Isso significa que praticamente todo o crescimento da receita veio dos pagamentos feitos pelos clientes e pelos parceiros que distribuem os serviços.
A empresa atribuiu esse avanço a dois fatores: preços médios maiores e aumento no volume de assinaturas. A variação cambial respondeu por aproximadamente um ponto percentual da alta.
O uso de reajustes para melhorar a arrecadação também aparece no mercado brasileiro. Em junho, o Disney+ aumentou novamente os preços de seus planos no Brasil, embora a nova tabela tenha entrado em vigor apenas nos últimos dias do período analisado.
A publicidade apresentou um resultado bem mais modesto. A receita com anúncios subiu 3%, de US$ 830 milhões para US$ 851 milhões.
Segundo a Disney, o mercado passou a contar com uma oferta maior de espaços publicitários, o que tornou a demanda mais fraca do que no trimestre anterior. Ainda assim, a empresa conseguiu manter crescimento nessa área.
Veja a evolução durante o ano fiscal de 2026:
| Trimestre fiscal | Receita do streaming | Lucro operacional | Margem |
|---|---|---|---|
| Primeiro trimestre | US$ 5,35 bilhões | US$ 450 milhões | 8,4% |
| Segundo trimestre | US$ 5,49 bilhões | US$ 582 milhões | 10,6% |
| Terceiro trimestre | US$ 5,53 bilhões | US$ 712 milhões | 12,9% |
No início do ano fiscal, a Disney já havia mostrado que o streaming estava crescendo mesmo sem a divulgação do total de assinantes. Desde então, a receita trimestral aumentou cerca de US$ 186 milhões, enquanto o lucro operacional avançou US$ 262 milhões.
Essa diferença mostra que a melhoria não dependeu apenas da entrada de mais dinheiro. O controle das despesas também teve papel decisivo.
Gastos cresceram muito menos que a receita
Os custos totais de Disney+ e Hulu chegaram a US$ 4,82 bilhões, aumento de aproximadamente 4% sobre os US$ 4,64 bilhões do ano anterior.
As despesas com programação e produção ficaram em US$ 2,58 bilhões, alta também próxima de 4%. Os demais gastos, que incluem tecnologia, distribuição, administração, publicidade, depreciação e amortização, alcançaram US$ 2,24 bilhões.
Na prática, a receita aumentou US$ 560 milhões, enquanto os custos subiram US$ 177 milhões. A diferença de US$ 383 milhões corresponde exatamente ao crescimento do lucro operacional no período.
A Disney reconheceu, porém, que parte da margem registrada no trimestre está ligada ao calendário de determinados pagamentos.
“A margem operacional do streaming por assinatura foi de 13% no terceiro trimestre fiscal, favorecida em parte pelo calendário dos gastos com marketing e programação.”
Essa observação evita uma interpretação exagerada dos números. Uma despesa que não apareceu neste trimestre pode ser reconhecida no seguinte. Ainda assim, a evolução sequencial mostra que a rentabilidade não depende apenas de uma mudança temporária.
A margem passou de 8,4% para 10,6% e depois para 12,9% nos três primeiros trimestres do ano fiscal. No período anterior, a Disney havia comemorado a primeira margem trimestral de dois dígitos do streaming. Três meses depois, o indicador avançou mais 2,3 pontos percentuais.
O que está incluído nesse lucro
Os US$ 712 milhões não representam o lucro isolado do Disney+. A Disney reúne seus serviços de vídeo sob demanda por assinatura em um indicador chamado Entertainment SVOD.
No trimestre atual, essa conta inclui o Disney+ e a modalidade sob demanda do Hulu. O Hulu Live TV e a Fubo ficam de fora, pois oferecem pacotes de canais ao vivo semelhantes aos serviços tradicionais de televisão por assinatura.
A empresa não revela quanto do lucro veio do Disney+ e quanto foi gerado pelo Hulu. Também não separa os resultados por país ou plano.
No Brasil e em outros mercados internacionais, Hulu é uma seção dentro do próprio Disney+. Nos Estados Unidos, a marca ainda mantém uma operação por assinatura, embora a Disney esteja avançando com a integração do Hulu ao Disney+ e a retirada gradual do aplicativo independente.
O lucro operacional de SVOD também é um indicador não padronizado pelas regras contábeis dos Estados Unidos. A própria Disney alerta que a forma de cálculo pode não ser diretamente comparável aos números divulgados por empresas como Netflix, Warner Bros. Discovery ou Paramount.
Mesmo com essa ressalva, o indicador permite acompanhar a evolução do negócio dentro da própria companhia. E a mudança em relação ao passado é clara: o streaming deixou de ser apenas uma área que exigia grandes investimentos e passou a responder por uma parte cada vez maior do lucro do segmento de Entretenimento.
No trimestre, todo o segmento registrou lucro operacional de US$ 1,68 bilhão. Disney+ e Hulu responderam por cerca de 42% desse total, contra aproximadamente 32% no mesmo período de 2025.
A Disney continua prevendo uma margem de dois dígitos no streaming durante todo o ano fiscal de 2026. Ao mesmo tempo, pretende ampliar os investimentos em produções internacionais, tecnologia e melhorias no aplicativo. A companhia já informou que seu orçamento anual de filmes, séries e direitos esportivos deve chegar a US$ 24 bilhões em 2026.
O desafio agora será manter a margem elevada enquanto esses gastos avançam e o mercado de publicidade enfrenta uma oferta cada vez maior de espaços nos serviços com anúncios.