
Há algo quase teimoso em Impuros. Desde 2018, a série brasileira acompanha a queda de braço entre Evandro do Dendê e Victor Morello, dois homens que parecem presos um ao outro por raiva, obsessão e destino.
Mas depois de seis temporadas, parte do público começou a fazer uma pergunta justa: até quando essa disputa vai render?
Nas redes sociais, não é difícil encontrar comentários de quem aponta que muita gente já entrou, saiu, morreu ou sumiu da história, enquanto Evandro e Morello seguem de pé. A série mudou de fase, trocou alianças, abriu espaço para novos inimigos e mexeu em quase todo o tabuleiro. Mas, no centro, lá estão os dois outra vez.
Só que existe um dado que complica essa crítica. Mesmo com a sensação de repetição para alguns espectadores, Impuros segue fortíssima. Mesmo após duas semanas desde a estreia da sexta temporada completa, a série aparece em 2º lugar no Top 10 das séries mais assistidas do Disney+ no Brasil, atrás apenas de A Coroa Perfeita.
Quando observamos a lista de tendências do streaming, Impuros só tem à frente A Coroa Perfeita e Grey’s Anatomy (entenda a diferença entre o Top 10 e a lista de tendências do Disney+).
E tem mais: com a nova temporada, Impuros estabeleceu o recorde de produção brasileira mais assistida da história do Disney+.
Ou seja, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas se Evandro e Morello ainda funcionam. A pergunta real é: por que ainda funciona para tanta gente?
Rivalidade que já virou a espinha dorsal da série

Desde o começo, Impuros vendeu ao público um jogo de caça. De um lado, Evandro do Dendê (Raphael Logam), um homem que entrou no crime depois de uma tragédia familiar e transformou ambição em poder. Do outro, Victor Morello (Rui Ricardo Diaz), o policial federal que enxerga nele uma missão pessoal.
Esse duelo deu identidade à série.
O problema é que uma disputa longa demais sempre corre o risco de virar ciclo. Evandro escapa, Morello volta. Morello se aproxima, Evandro reage. Um perde algo, o outro paga o preço. E a roda gira de novo.
Depois de seis temporadas, a reclamação de parte do público faz sentido. É natural que alguns espectadores olhem para a série e pensem: “De novo esses dois?”. Afinal, Impuros matou personagens importantes, mudou relações centrais e colocou novos nomes em posições de destaque. Mesmo assim, a velha guerra continua.
Mas isso também diz muito sobre a força dos protagonistas. A série não trata Evandro e Morello apenas como inimigos. Ela construiu os dois como forças opostas que se alimentam da mesma energia. Um precisa do outro para justificar sua própria queda.
Essa é a parte que mantém a rivalidade viva.
A 6ª temporada entendeu que precisava abrir o jogo

A grande sacada da sexta temporada é que Impuros não tenta depender só de Evandro e Morello.
A série ainda usa os dois como eixo principal, mas não fica parada neles. Geise (Lorena Comparato), Afonso (João Vitor Silva) e Inês (Karize Brum) ganham muito mais espaço.
Isso muda bastante a dinâmica.
Geise, por exemplo, deixa de ser apenas alguém arrastada pelas decisões de Evandro. Sua dor vira movimento. Sua vingança cria tensão própria. A personagem passa a ocupar um lugar muito mais ativo, sem depender o tempo todo do marido para justificar sua presença.
Afonso e Inês também crescem. O casal entra em uma parte importante da trama envolvendo milícia e poder no Rio de Janeiro, o que ajuda a expandir a série para além da perseguição entre traficante e policial.

Esse talvez seja o ponto mais forte do sexto ano: Impuros reconhece que não pode viver eternamente só do mesmo confronto. A série ainda usa Evandro e Morello como motor, mas entrega mais protagonismo para personagens que antes orbitavam essa disputa.
Números mostram que o público continua junto
Mesmo com críticas pontuais, a resposta do público segue impressionante.
Impuros estabeleceu o recorde oficial de série nacional mais vista da história do Disney+ no Brasil. A produção ocupa o topo da lista de séries mais assistidas da plataforma após o lançamento dos novos episódios.
No IMDb, Impuros também aparece com nota 8,1, um número alto para uma produção brasileira de longa duração dentro do streaming.
E há outro dado que chama ainda mais atenção: na página de episódios da sexta temporada no IMDb, nenhum capítulo aparece com avaliação abaixo de 9,0.
Isso não elimina as reclamações. Mas coloca a discussão em outro patamar.
Uma série não chega à sexta temporada com esse nível de resposta por acaso.
Mesmo quem questiona a repetição do embate entre Evandro e Morello precisa reconhecer que Impuros encontrou uma fórmula rara no audiovisual brasileiro: personagens fortes, ritmo de maratona, cenas de tensão e uma base de fãs que realmente acompanha cada nova fase.
A série ainda sabe prender o espectador

A permanência de Evandro e Morello é, ao mesmo tempo, trunfo e risco.
É trunfo porque os dois representam a essência da série. Tirar essa rivalidade de cena seria quase mexer no DNA de Impuros. Eles são a referência imediata do público, os rostos da disputa e o fio que conecta todas as temporadas.
Mas também é risco porque, em algum momento, toda guerra precisa parecer que está andando. O espectador aceita uma disputa longa, desde que ela não pareça circular. E a sexta temporada parece entender isso ao colocar outros personagens para empurrar a história.
Playboy, interpretado por Bruno Gagliasso, chega como novo rival de Evandro. Geise assume uma posição mais forte. Inês e Afonso passam a ter mais peso. Gilmar continua sendo uma presença importante. O entorno cresceu.
É isso que impede Impuros de virar apenas “Evandro contra Morello, parte 6”.
A série ainda gira em torno dessa briga, claro. Mas agora existe mais gente ocupando espaço, tomando decisões e alterando o rumo das coisas. Para uma produção tão longa, isso é vital.
A 7ª temporada já está em movimento

Outro sinal de confiança na série é que a próxima leva de episódios já está encaminhada.
Publicações de bastidores confirmaram que a sétima temporada de Impuros já está em gravação no Rio de Janeiro, com registros ligados à nova fase da produção circulando desde abril.
Isso reforça algo importante: a Disney não está tratando Impuros como uma série em fim de ciclo. Pelo contrário, os números da sexta temporada e a produção da sétima mostram que ainda existe fôlego para continuar.
A questão, agora, é como a série vai usar esse fôlego.
Evandro e Morello ainda funcionam? Sim, mas não do mesmo jeito que antes. Hoje, eles funcionam melhor quando não carregam tudo sozinhos.
A sexta temporada mostra que Impuros fica mais interessante quando entende que a rivalidade dos dois é a base, não a série inteira. O público ainda quer saber até onde essa guerra vai. Mas também quer ver Geise, Afonso, Inês, Gilmar e os novos jogadores mexendo nesse jogo.
Depois de seis temporadas, talvez esse seja o maior mérito de Impuros: sobreviver à própria fórmula sem abandoná-la por completo.