
Até onde um intérprete deve ir para construir um personagem? A pergunta acompanha o cinema há décadas e costuma voltar à tona quando surgem relatos de atores que mantêm comportamentos, vozes ou hábitos de seus papéis mesmo depois que as câmeras param.
Anya Taylor-Joy conhece bem o esforço necessário para permanecer dentro de um universo fictício durante meses. Desde que escolheu protagonizar A Bruxa no lugar de um projeto do Disney Channel, a atriz passou por produções como O Gambito da Rainha, O Menu, Os Novos Mutantes e Furiosa: Uma Saga Mad Max.
Ela também já recebeu elogios de colegas experientes. Sigourney Weaver, por exemplo, destacou a dedicação de Taylor-Joy durante as filmagens de Entre Montanhas, suspense no qual as duas trabalharam juntas.
Isso não significa, porém, que a atriz aceite qualquer comportamento em nome da preparação artística. Para Taylor-Joy, mergulhar em um papel não pode servir como autorização para desrespeitar profissionais ou transformar o ambiente de trabalho em um lugar desagradável.
Durante uma entrevista ao Complex News para divulgar a série Lucky, da Apple TV, ela afirmou que mulheres raramente recebem a mesma tolerância concedida a alguns atores homens quando decidem permanecer no personagem fora das cenas.
A declaração ganhou atenção nas redes sociais por unir dois assuntos frequentemente discutidos em Hollywood: as diferenças de tratamento entre homens e mulheres e os limites da chamada atuação pelo Método.
Anya Taylor-Joy define atuação como uma “psicose controlada”
Taylor-Joy explicou que não pretende adotar uma versão extrema da atuação pelo Método, prática geralmente associada a intérpretes que usam experiências pessoais, exercícios de memória e imersão prolongada para se aproximar de seus personagens.
Na opinião da atriz, mulheres nem sequer teriam a liberdade necessária para abandonar completamente suas obrigações durante uma produção.
“Se você reparar, mulheres não fazem atuação pelo Método porque temos coisas para cuidar. Portanto, não podemos simplesmente perder a cabeça por completo.”
Ela descreveu o próprio trabalho como uma espécie de “psicose controlada”. Durante as gravações, a intérprete passa grande parte do dia com os pensamentos, os gestos, as roupas e o ambiente de outra pessoa.
“Você está fingindo ser outra pessoa, tendo os pensamentos dela durante 16 horas por dia, movimentando-se como ela, dentro da casa dela e usando as roupas dela. É como ter uma irmã ou uma colega de quarto ocupando um espaço na minha mente por algum tempo.”
Taylor-Joy contou que as pessoas próximas compreendem esse processo. Quando percebem que a personagem está ocupando espaço demais, elas chegam a chamá-la pelo nome do papel como uma forma de verificar se está tudo bem.
Apesar dessa entrega, a atriz considera inviável manter o personagem permanentemente. Uma produção pode reunir centenas de profissionais, desde integrantes do elenco até responsáveis por figurino, maquiagem, iluminação, som, transporte e alimentação.
Para ela, quem ocupa uma posição de destaque também tem responsabilidade sobre o ambiente criado durante as filmagens.
“Você trabalha com centenas de pessoas e é sua responsabilidade tratá-las bem e ajudá-las a fazer o melhor trabalho possível. Se você estiver ocupado demais sendo um babaca, isso não será divertido para ninguém.”
A observação faz uma separação importante. Taylor-Joy não critica o estudo profundo de um papel nem a busca por concentração. Seu alvo é o uso da preparação artística como justificativa para grosseria, isolamento imposto aos colegas ou atitudes que prejudicam a equipe.
Kristen Stewart apresentou uma visão parecida

Anya Taylor-Joy não é a primeira atriz a relacionar a atuação pelo Método às diferenças de gênero dentro da indústria.
Em dezembro de 2025, Kristen Stewart falou sobre o assunto em uma entrevista ao The New York Times. Para ela, interpretar exige que o profissional aceite uma posição de vulnerabilidade, algo que alguns atores tentariam compensar com comportamentos mais agressivos ou ostensivos.
“Uma atuação é naturalmente vulnerável e, portanto, bastante constrangedora e pouco masculina. Não existe bravata em sugerir que você é o porta-voz das ideias de outra pessoa. Isso é naturalmente submisso. Você já ouviu falar de uma atriz que trabalha pelo Método?”
As declarações de Stewart e Taylor-Joy não comprovam que nenhuma mulher utilize técnicas associadas ao Método. As duas apresentam uma leitura pessoal sobre a diferença na forma como determinados comportamentos são aceitos dentro dos sets.
A provocação está justamente nessa disparidade. Quando um ator homem se mantém distante, hostil ou imprevisível, sua atitude pode ser tratada como sinal de dedicação. Uma mulher nas mesmas condições corre o risco de receber rótulos menos favoráveis e enfrentar cobranças diferentes.
Daniel Day-Lewis defende o verdadeiro significado do Método
Um dos maiores representantes desse estilo de preparação, Daniel Day-Lewis possui uma visão diferente sobre o assunto. Durante a divulgação de Anêmona, em 2025, o ator afirmou que boa parte das críticas recentes parte de pessoas que não compreendem a técnica.
“Quase todos os comentários feitos nos últimos anos sobre atuação pelo Método vêm de pessoas que entendem pouco ou nada do que isso realmente envolve. É como se estivéssemos envolvidos em uma ciência duvidosa ou em algum tipo de culto.”
Segundo Day-Lewis, o objetivo não é criar caos nos bastidores nem permanecer deliberadamente inacessível. A preparação deveria libertar o intérprete para reagir aos colegas de forma espontânea diante das câmeras.
Ele voltou ao assunto em uma conversa com a revista Big Issue e reclamou da maneira como a expressão “entrar totalmente no Método” costuma ser associada à loucura.
“Trata-se de se libertar para apresentar aos seus colegas um ser humano vivo, com quem eles possam interagir. É muito simples. Por isso, toda essa conversa de ‘ele entrou completamente no Método’ me irrita. Isso quase sempre vem ligado à ideia de algum tipo de insanidade.”
As posições de Taylor-Joy e Day-Lewis não são necessariamente incompatíveis. Ele defende uma técnica de preparação voltada à liberdade durante a cena. Ela critica comportamentos que ultrapassam o trabalho e afetam profissionais que não têm qualquer obrigação de lidar com hostilidade.
No centro da fala de Anya Taylor-Joy está uma regra bastante prática: o compromisso com o personagem termina onde começa o direito dos colegas de serem tratados com respeito.
A entrevista completa pode ser conferida abaixo: