
Nem sempre um filme que fracassa nas bilheterias é esquecido pelo público. Algumas produções acabam encontrando seus fãs anos depois, e Planeta do Tesouro, lançado pela Disney em 2002, é um desses casos.
A animação misturava aventuras de piratas, ficção científica e técnicas tradicionais de desenho com computação gráfica. Apesar do trabalho de centenas de artistas e de um investimento milionário, o resultado comercial ficou muito abaixo das expectativas.
Quase 24 anos depois, Ron Clements, que dirigiu o longa ao lado de John Musker, decidiu falar sobre o que aconteceu nos bastidores. Responsável também por sucessos como A Pequena Sereia, Aladdin e Hércules, o cineasta acredita que o desempenho decepcionante não pode ser explicado apenas pela recepção do público.
Em uma entrevista exclusiva à revista People, publicada no sábado (17), Clements apontou problemas de divulgação, disputas entre executivos e um ambiente de trabalho prejudicado pelas mudanças que a Disney preparava para seu departamento de animação.
As declarações acompanham o lançamento de seu livro de memórias, Making Disney Magic… from a Mermaid to Moana, no qual ele revisita décadas de trabalho no estúdio.
Disney desistiu do filme poucos dias depois da estreia
Com um orçamento estimado em US$ 140 milhões, Planeta do Tesouro arrecadou aproximadamente US$ 110 milhões mundialmente. Poucos dias após a estreia nos Estados Unidos, a Disney registrou uma baixa contábil de US$ 74 milhões relacionada ao desempenho da produção.
Para Clements, a decisão contribuiu para prejudicar ainda mais a imagem do filme.
“Foi um filme no qual colocamos uma quantidade enorme de trabalho, e um trabalho muito bonito, feito por muitas pessoas. A divulgação e a promoção provavelmente não foram tudo o que poderiam ter sido”, afirmou.
O diretor também destacou que a Disney praticamente desistiu da produção logo após seu lançamento, algo que considerou bastante incomum.
Segundo ele, o anúncio do prejuízo recebeu enorme atenção da imprensa americana. O assunto chegou a virar motivo de piada em programas de televisão, apesar de a equipe ter conseguido concluir o longa cerca de US$ 10 milhões abaixo do orçamento inicialmente previsto.
Mas os problemas não se limitavam à campanha publicitária.
Naquele período, o então presidente da Disney, Michael Eisner, enfrentava divergências com Roy E. Disney, sobrinho de Walt Disney e uma das principais figuras da divisão de animação.
Clements acredita que o conflito entre os dois também prejudicou Planeta do Tesouro.
Ao mesmo tempo, os executivos discutiam o futuro dos desenhos feitos à mão. O sucesso de animações computadorizadas de outros estúdios, como Shrek e A Era do Gelo, aumentava a pressão para que a Disney mudasse sua maneira de produzir filmes.
“Foi um filme difícil de fazer porque, naquele momento, os executivos do estúdio estavam decidindo que talvez a animação desenhada à mão não tivesse mais futuro ali”, explicou.
A situação era especialmente delicada porque muitos profissionais envolvidos na produção já sabiam que poderiam perder seus empregos quando o trabalho terminasse.
“Havia muitas pessoas trabalhando no filme que sabiam que não teriam emprego depois que ele fosse concluído. Isso não é exatamente a melhor coisa para manter o ânimo da equipe.”
O contraste era curioso. Enquanto a direção do estúdio questionava o futuro da animação tradicional, Planeta do Tesouro buscava justamente combinar desenhos feitos à mão com novas tecnologias digitais.
Essa mistura visual está entre as curiosidades da produção que já destacamos aqui no site.
Disney não queria que Planeta do Tesouro fosse indicado ao Oscar
Uma das revelações mais surpreendentes da entrevista envolve o Oscar de 2003.
Mesmo depois do resultado comercial negativo, Planeta do Tesouro conseguiu uma indicação na categoria de Melhor Filme de Animação. Segundo Clements, isso aconteceu sem qualquer esforço da própria Disney para conquistar a vaga.
“Fiquei feliz por ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação naquele ano, apesar de o estúdio não ter feito absolutamente nenhuma campanha por ele e não querer realmente que fosse indicado”, declarou.
O diretor admitiu que a situação foi constrangedora, mas considerou a indicação um dos poucos acontecimentos positivos daquele período.
O prêmio acabou ficando com A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki.
Para Clements, o reconhecimento da Academia também teve uma consequência importante: ajudou a mudar a maneira como as equipes de direção passaram a ser consideradas na categoria de animação.
O fracasso comercial ainda trouxe outra consequência. A Disney chegou a desenvolver planos para expandir a história de Jim Hawkins, mas abandonou os projetos depois do resultado nos cinemas.
Como já explicamos em uma matéria sobre o cancelamento de Planeta do Tesouro 2, uma continuação chegou a ter roteiro, artes conceituais e ideias para novos personagens. Havia também a possibilidade de uma série de televisão.
Hoje, porém, Clements encontra satisfação ao perceber que o filme conquistou admiradores fiéis ao longo dos anos.
“É incrível que o filme, que eu chamaria de cult, tenha um público tão dedicado e que realmente o ame”, comentou.
O cineasta contou que alguns fãs chegam a dizer que Planeta do Tesouro é sua animação favorita da Disney. Para ele, isso mostra que a produção conseguiu alcançar parte do público para o qual havia sido criada, mesmo sem o sucesso esperado na época.
Planeta do Tesouro está disponível no catálogo brasileiro do Disney+.