
O aumento contínuo das mensalidades mudou a relação de muita gente com os serviços de streaming. Assinantes passaram a alternar entre plataformas, cancelar planos depois de assistir a uma série específica e procurar alternativas que não exigem pagamentos mensais.
Ao mesmo tempo, serviços gratuitos sustentados por publicidade conquistaram espaço nas televisões conectadas. Em vez de cobrar assinatura, essas plataformas exibem intervalos comerciais e usam catálogos antigos, canais temáticos e conteúdos licenciados para manter o público assistindo.
A Disney já oferece um plano mais barato com anúncios, mas ainda exige pagamento mensal. A próxima etapa pode retirar essa barreira para parte do catálogo e alcançar consumidores que não estão dispostos a contratar o Disney+.
Durante a apresentação dos resultados financeiros desta quarta-feira, 5 de agosto, o CEO Josh D’Amaro confirmou que a companhia estuda criar uma opção de streaming gratuita financiada por anúncios.
Nenhum lançamento foi anunciado, e a empresa ainda não informou quais países poderiam receber o serviço. Também não há confirmação para o Brasil.
Na teleconferência oficial do terceiro trimestre fiscal, D’Amaro explicou que a proposta está sendo analisada por três razões: alcançar pessoas mais sensíveis a preços, ampliar a quantidade de espaços publicitários disponíveis e criar uma porta de entrada para futuras assinaturas do Disney+.
“Estamos estudando um produto gratuito para os consumidores, que nos permita alcançar vários objetivos e fazer isso de forma eficiente.”
Serviço gratuito tentaria alcançar quem não paga pelo Disney+
O primeiro objetivo seria levar conteúdos da companhia a um grupo que atualmente considera a assinatura cara ou desnecessária.
No Brasil, o Disney+ oferece três modalidades pagas: Padrão com anúncios, Padrão e Premium. A opção mais barata reduz o preço ao inserir publicidade, mas ainda exige uma mensalidade. As diferenças estão detalhadas em nosso guia atualizado de planos e preços do Disney+.
Uma plataforma gratuita criaria outra forma de acesso. O usuário poderia assistir a uma seleção limitada sem contratar um plano, enquanto a Disney receberia dinheiro dos anunciantes.
“Vemos isso como uma forma de ampliar nosso alcance para um grupo de consumidores mais sensível a preços. A ampliação do alcance é uma de nossas prioridades estratégicas.”
A declaração não esclarece quanto conteúdo seria liberado. A empresa também não informou se o produto teria filmes e episódios completos, canais contínuos, trechos curtos ou uma combinação desses formatos.
Outra dúvida é onde esse conteúdo seria exibido. A opção gratuita poderia funcionar dentro do aplicativo do Disney+, em um serviço separado ou por meio de parceiros fabricantes de televisores e aparelhos de streaming.
Nada disso foi definido publicamente.
O que significa FAST
A pergunta dirigida a D’Amaro tratava de uma possível oferta FAST. A sigla vem de “Free Ad-Supported Streaming Television”, expressão usada para serviços de televisão gratuita por streaming com publicidade.
O formato costuma apresentar canais contínuos com horários definidos, de maneira parecida com a televisão tradicional. O espectador abre um canal e assiste ao que estiver passando, sem precisar escolher individualmente cada filme ou episódio.
Pluto TV, Tubi, Roku Channel e Samsung TV Plus são alguns dos exemplos mais conhecidos desse mercado. Suas programações podem reunir filmes, séries, notícias, realities, esportes e canais inteiros dedicados a um único gênero ou programa.
O Disney+ já oferece uma experiência parecida para assinantes em alguns países. Os chamados Streams exibem programações ininterruptas organizadas por marcas e temas. A plataforma já lançou canais dedicados a produções da Marvel, Star Wars, animações e séries como Os Simpsons.
Esses canais, porém, fazem parte de uma assinatura paga. Quando os primeiros foram anunciados, explicamos como funcionam as playlists contínuas do Disney+.
Um serviço FAST poderia aproveitar esse sistema e liberar determinados canais sem cobrança. Essa é uma possibilidade baseada no formato já usado pela empresa, não um plano confirmado pela Disney.
Também existe uma diferença entre FAST e AVOD. No FAST, a programação geralmente segue uma grade contínua. No AVOD, o usuário escolhe um título sob demanda e assiste gratuitamente com anúncios.
D’Amaro falou em um “produto gratuito” e citou concorrentes de AVOD, mas não definiu qual desses modelos a Disney adotaria. Portanto, ainda é cedo para afirmar que a companhia lançará canais FAST no formato tradicional.
Disney diz que precisa de mais espaços para publicidade
O segundo objetivo está diretamente ligado ao negócio de anúncios da companhia.
D’Amaro afirmou que a Disney consegue vender boa parte dos intervalos disponíveis em seus serviços atuais. Na avaliação do executivo, isso diferencia a empresa de concorrentes que possuem muitos espaços vazios ou precisam reduzir preços para atrair anunciantes.
“Ao contrário de muitos concorrentes de AVOD, temos boa parte de nossos espaços vendidos. Isso significa que uma quantidade maior de inventário poderia nos ajudar a acelerar o crescimento da receita publicitária.”
“Inventário”, nesse contexto, é o conjunto de espaços que pode ser vendido aos anunciantes. Cada intervalo exibido durante um filme, episódio ou canal representa uma nova oportunidade comercial.
Quanto mais pessoas usam um serviço gratuito, maior tende a ser a quantidade de anúncios que a plataforma consegue apresentar. A Disney poderia oferecer campanhas segmentadas de acordo com localização, idade, tipo de conteúdo e hábitos de consumo, dentro das regras de privacidade aplicáveis.
Os números do trimestre ajudam a entender o interesse. Disney+ e Hulu geraram juntos US$ 851 milhões em receita publicitária, alta de 3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
As assinaturas ainda respondem pela maior parte do negócio. Elas renderam US$ 4,715 bilhões no trimestre. Mesmo assim, a publicidade representa uma fonte adicional de dinheiro e pode crescer sem depender diretamente de novos pagantes.
O streaming por assinatura de Disney+ e Hulu alcançou lucro operacional de US$ 712 milhões, mais que o dobro dos US$ 329 milhões registrados um ano antes. A Disney, portanto, não está estudando a modalidade gratuita apenas para corrigir prejuízos. A intenção é acrescentar outro grupo de consumidores a uma operação que já se tornou rentável.
Gratuito funcionaria como entrada para o Disney+ pago

O terceiro objetivo seria converter parte do público gratuito em assinantes.
Uma pessoa poderia começar assistindo a canais ou títulos sem pagar e depois receber ofertas para acessar lançamentos, catálogos completos, melhor qualidade de imagem, downloads e outros recursos dos planos do Disney+.
No mercado digital, essa etapa inicial costuma ser chamada de “topo do funil”. É o grupo de pessoas que ainda não compra o serviço, mas já entrou em contato com a marca e pode ser convencido a assinar no futuro.
“Uma oferta gratuita também poderia ajudar a alimentar o crescimento de assinantes do Disney+ no topo do funil.”
Esse modelo permitiria que a Disney reservasse seus conteúdos mais recentes para os planos pagos. O serviço gratuito poderia apresentar temporadas antigas, filmes selecionados, canais temáticos, notícias, realities, animações e episódios usados para divulgar uma produção maior.
A companhia ainda teria de encontrar um equilíbrio. Caso entregue conteúdo demais gratuitamente, parte dos usuários pode deixar de ver razão para pagar. Se oferecer muito pouco, a plataforma pode não atrair público suficiente para interessar aos anunciantes.
A Disney possui uma vantagem nesse ponto. Seu catálogo reúne décadas de filmes, séries, desenhos, documentários e programas de televisão. Parte desse material recebe pouca exposição dentro do Disney+, mas poderia abastecer canais contínuos sem retirar os principais lançamentos dos assinantes.
Proposta faz parte da transformação do Disney+
A análise de uma opção gratuita acontece enquanto a Disney tenta converter o aplicativo em algo maior do que um catálogo de filmes e séries.
D’Amaro afirmou que o Disney+ começará a se transformar em um “ecossistema completo de associação” no início de 2027. A ideia é reunir entretenimento, jogos, produtos, benefícios, experiências para fãs e recomendações mais personalizadas.
A companhia também anunciou um acordo com o TikTok que permitirá levar ao Disney+ vídeos curtos criados por fãs. O projeto começará nos Estados Unidos, com outros mercados previstos posteriormente. Os detalhes estão em nosso artigo sobre os vídeos de fãs do TikTok que serão exibidos dentro do Disney+.
Essas mudanças apontam para um aplicativo com diferentes níveis de acesso. Algumas pessoas poderiam usar a parte gratuita, outras manteriam assinaturas tradicionais e os fãs mais envolvidos teriam benefícios adicionais ligados a produtos, eventos e experiências da companhia.
A estratégia também responde ao crescimento de plataformas gratuitas e híbridas. YouTube e TikTok ocupam muitas horas do dia sem exigir assinatura, enquanto os serviços pagos disputam consumidores que já mantêm várias mensalidades.
No Brasil, essa diferença aparece nos dados de audiência. Plataformas gratuitas alcançam uma parcela muito maior do tempo total gasto com vídeos, enquanto Disney+, Netflix, Globoplay e outros serviços por assinatura dividem um mercado bastante fragmentado. Essa comparação foi abordada em nossa análise sobre o crescimento do Disney+ na audiência brasileira.
Disney não anunciou data, catálogo ou países
Apesar das declarações, a possibilidade ainda está em avaliação. D’Amaro encerrou sua resposta com uma ressalva direta:
“Não temos nada específico para anunciar hoje, mas é definitivamente algo que estamos considerando.”
Isso significa que a Disney não confirmou o lançamento de um plano gratuito do Disney+, nem apresentou um novo aplicativo FAST.
Não existe data, preço, lista de canais, catálogo ou previsão de chegada ao Brasil. Também não está definido se a oferta exigirá cadastro, quantos anúncios serão exibidos ou quais recursos permanecerão exclusivos dos assinantes.
A escolha das palavras do CEO, no entanto, mostra que o assunto já ultrapassou uma discussão genérica sobre tendências do mercado. A companhia identificou objetivos comerciais claros e explicou aos investidores como uma opção gratuita poderia aumentar audiência, publicidade e futuras assinaturas.
O próximo passo será decidir se esses benefícios compensam o risco de oferecer gratuitamente uma parte do conteúdo que hoje permanece protegida pelos planos pagos.