
A Disney sempre tratou seus parques como algo maior do que um conjunto de atrações. Quem entra em uma área temática da empresa não está apenas diante de brinquedos, cenários e filas organizadas. A ideia é fazer o visitante sentir que atravessou a porta de um universo que já conhece do cinema, da TV ou do streaming.
É justamente por isso que algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo têm se aproximado da companhia. Adobe, NVIDIA e Meta aparecem hoje como parceiras em projetos que envolvem inteligência artificial, robótica, óculos inteligentes e novas formas de interação com os visitantes.
Segundo um artigo publicado no site oficial da The Walt Disney Company, essas colaborações passam diretamente pela Walt Disney Imagineering, a divisão responsável por transformar ideias criativas em experiências físicas nos parques, cruzeiros e outros espaços da Disney.
No centro de tudo está uma lógica simples, mas poderosa: a tecnologia só entra em cena quando ajuda a contar melhor uma história.
Disney quer usar tecnologia para acelerar ideias sem perder o toque humano
Kyle Laughlin, vice-presidente sênior de Pesquisa e Desenvolvimento da Walt Disney Imagineering, resumiu a visão da empresa ao explicar que a Disney sempre tratou seu “produto” como uma experiência ligada ao sentimento do visitante.
“Sempre falamos que ‘nosso produto é a emoção’. E esses tipos de ferramentas estão nos ajudando a criar essa conexão ainda mais rápido”, afirmou Laughlin.
Um dos exemplos mais recentes é a parceria com a Adobe em torno do Adobe Firefly Foundry, ferramenta de inteligência artificial generativa voltada ao processo criativo. A proposta é permitir que os Imagineers, como são chamados os profissionais da Imagineering, avancem mais rápido entre os primeiros esboços e versões mais detalhadas de uma ideia.
A relação entre Disney e Adobe, no entanto, não começou agora. Laughlin explicou que a empresa usa ferramentas da Adobe Creative Cloud há décadas e adotou cedo produtos ligados ao Firefly.
“Somos usuários de longa data das ferramentas Adobe Creative Cloud há décadas. Fomos um dos primeiros a adotar os produtos Firefly, e a Adobe nos procurou com uma oportunidade muito única para nos tornarmos um dos primeiros clientes do Adobe Firefly Foundry”, disse.
A diferença do Firefly Foundry está na possibilidade de criar modelos personalizados com base em materiais próprios da Disney. Na prática, isso permite que a inteligência artificial trabalhe dentro de uma identidade visual e criativa alinhada ao que a empresa construiu ao longo de décadas.
De acordo com o artigo, o modelo usa materiais licenciados e proprietários, além de mais de 70 anos de trabalhos da Imagineering, incluindo artes conceituais e projetos técnicos.
IA generativa entra como apoio, não como substituta
Mesmo com o avanço da inteligência artificial no desenvolvimento de atrações e espaços temáticos, a Disney reforça que a decisão criativa continua nas mãos de pessoas.
Laughlin afirmou que a busca por parceiros tecnológicos também passa pela responsabilidade de preservar o trabalho dos criadores.
“Queríamos encontrar um colaborador que pudesse nos ajudar a fazer isso de forma responsável e de uma maneira que, no fim, respeitasse o fato de sermos uma empresa guiada por criadores”, explicou.
Ele também destacou que a Disney é uma companhia movida por talentos e que o processo criativo precisa manter a presença humana como parte essencial do trabalho.
Essa posição é importante porque a IA generativa ainda gera discussões fortes na indústria do entretenimento, principalmente quando envolve direitos autorais, uso de acervos criativos e proteção ao trabalho artístico. No caso da Disney, a empresa apresenta o Firefly Foundry como uma ferramenta voltada a acelerar etapas, testar caminhos e facilitar iterações, sem tirar dos artistas e designers o controle sobre o resultado final.
Laughlin resumiu esse ponto ao dizer que a filosofia da companhia continua a mesma.
“A essência da empresa sempre foi ‘usar tecnologia para apoiar a contação de histórias’. Esta oportunidade está sempre a serviço de grandes histórias e dos criadores que têm uma visão sobre o que querem contar aos visitantes”, afirmou.
Robôs de Olaf e droids de Star Wars mostram novo ritmo nos parques
A colaboração com a NVIDIA mostra como esse avanço não se limita às artes conceituais. Na área de robótica, a Disney tem usado simulações e inteligência artificial para reduzir o tempo de criação de personagens físicos que interagem com os visitantes.
O artigo cita o programa dos droids BDX, desenvolvido com apoio do framework de simulação Newton, da NVIDIA. Esse projeto levou cerca de um ano para ser desenvolvido. Depois, com a base técnica já estabelecida, a equipe conseguiu criar uma versão robótica de Olaf em apenas quatro meses.
Esse tipo de evolução abre espaço para áreas temáticas mais povoadas por personagens robóticos, capazes de circular, reagir e participar do ambiente de forma mais natural.
Laughlin usou o World of Frozen, na Disneyland Paris, como exemplo do que pode vir pela frente.
“Você pode imaginar um Sven robótico, um Snowgie robótico, um conjunto robótico de trolls, para que possamos continuar preenchendo Arendelle com toda essa textura e vida dos seus personagens favoritos da forma mais convincente possível”, comentou.
A fala indica que a Disney vê esses robôs como parte do cenário vivo dos parques, não apenas como atrações isoladas. Em vez de limitar a experiência a encontros tradicionais com personagens, a empresa quer explorar novas maneiras de fazer esses mundos parecerem mais habitados.
Atrações podem acompanhar estreias de filmes com mais rapidez
Outro ponto citado pela Disney envolve a possibilidade de atualizar atrações em sintonia com lançamentos nos cinemas. O exemplo usado foi Star Wars: The Mandalorian and Grogu, que ganhou uma nova missão em Millennium Falcon: Smugglers Run no mesmo dia em que o filme chegou aos cinemas.
Para a Disney, esse tipo de integração pode se tornar mais frequente à medida que as equipes ganham ferramentas capazes de reduzir prazos de criação, teste e implementação.
“Acho que este é um exemplo perfeito do potencial para liberar ainda mais experiências lançadas no mesmo dia”, disse Laughlin.
A Meta também aparece entre as parceiras tecnológicas citadas pela empresa, com experimentos envolvendo os óculos Ray-Ban Meta. A proposta, nesse caso, é explorar novas formas de interação entre visitantes, personagens e ambientes físicos.
No fim, o interesse de empresas como Adobe, NVIDIA e Meta pela Disney passa por um ponto claro: poucas companhias têm tantos personagens, mundos e experiências presenciais funcionando ao mesmo tempo. Para quem desenvolve tecnologia, os parques da Disney são um campo raro de teste, onde inovação precisa funcionar diante de famílias reais, em ambientes lotados e com expectativas altíssimas.
Para a Disney, essas parcerias ajudam a acelerar processos e abrir novas possibilidades. Para o público, a mudança pode aparecer de forma menos técnica e mais direta: personagens mais vivos, atrações mais atualizadas e áreas temáticas que pareçam cada vez mais próximas dos filmes e séries que inspiraram tudo.