
Durante anos, os fãs queer da Marvel precisavam se contentar com pistas rápidas, olhares de relance e personagens que nunca chegavam a se assumir. O universo cinematográfico mais lucrativo da história tratava a representação LGBT como um risco que não valia a pena correr, especialmente em produções com alcance global e bilheterias bilionárias em jogo. Mas as coisas foram mudando.
O Disney+ separou quatro filmes e séries da Marvel para o destaque especial do Mês do Orgulho, reunindo títulos que, cada um à sua maneira, ajudaram a construir um espaço mais amplo para personagens queer dentro do MCU. A seleção não é aleatória. É um recorte de uma jornada que levou mais de uma década para chegar onde está.
A coleção Pride ganha destsque no streaming todo mês de junho com uma curadoria de filmes e séries com histórias e personagens LGBTQIA+ no centro.
Edições anteriores apostaram em musicais e títulos familiares, com obras como Amor, Sublime Amor e A Família Radical: Maior e Melhor, além de alguns projetos da Marvel. A edição de 2026 dobrou a aposta nos títulos do MCU, tornando a seleção ainda mais atraente para quem acompanha o universo dos super-heróis.
Os quatro projetos Marvel em destaque
Eternos

Eternos introduziu o primeiro super-herói abertamente gay do Universo Cinematográfico Marvel. Brian Tyree Henry interpretou Phastos, um Eterno que vive uma vida tranquila com seu marido Ben, vivido por Haaz Sleiman, e o filho pequeno do casal. A diretora Chloé Zhao retratou essa família de forma comum, sem tratar a identidade de Phastos como uma surpresa ou um detalhe secundário.
O filme também trouxe o primeiro beijo entre pessoas do mesmo sexo nas telas do MCU, em um momento de despedida entre Phastos e Ben antes de o herói partir para salvar o planeta. Sleiman, que é abertamente gay, descreveu a cena como algo capaz de salvar vidas em uma conversa com a Variety, falando sobre o peso de ver uma família queer retratada com amor nessa escala.
O compromisso teve um custo. Arábia Saudita, Kuwait e Catar barraram Eternos dos cinemas depois que a Disney se recusou a cortar o conteúdo com casal do mesmo sexo. Angelina Jolie, que viveu a guerreira Thena no filme, elogiou o estúdio pela decisão e declarou tristeza pelos fãs que não tiveram acesso ao longa nessas regiões.
Os Novos Mutantes

Os Novos Mutantes colocou um romance entre duas mulheres no centro da sua história. O filme de terror ambientado no universo X-Men acompanha cinco jovens mutantes mantidos em um hospital misterioso, e dois deles, Danielle Moonstar e Rahne Sinclair, se aproximam aos poucos e se apaixonam. Blu Hunt interpreta Dani, também conhecida como Miragem, enquanto Maisie Williams dá vida a Rahne, a mutante chamada Lobisomem.
O diretor Josh Boone foi buscar nos quadrinhos a longa história das duas personagens, onde Dani e Rahne compartilham um vínculo psíquico profundo. Elas trocam um beijo no filme e aparecem de mãos dadas na cena final, com a sugestão de um futuro juntas.
Lançado em 2020 como o último X-Men da era Fox antes de a Disney assumir a franquia, o filme foi um dos poucos da saga a colocar protagonistas abertamente queer em destaque.
Agatha Desde Sempre

Agatha Desde Sempre ganhou a fama de ser o projeto mais “gay” do MCU até hoje, e o elenco abriu os braços para a reputação. A série, derivada de WandaVision, acompanha Agatha Harkness, vivida por Kathryn Hahn, enquanto ela reúne um coven de bruxas para enfrentar a perigosa Estrada das Bruxas. A identidade queer não aparece em uma cena isolada: ela atravessa toda a série.
A produção finalmente apresentou Billy Maximoff, o Wiccano, um dos heróis queer mais esperados dos quadrinhos da Marvel. Joe Locke interpreta Billy, filho de Wanda Maximoff, e a série confirmou cedo que ele é gay, em uma ligação com o namorado. Um episódio posterior mergulhou no passado do personagem e mostrou Billy se beijando com Eddie, interpretado por Miles Gutierrez-Riley.
Agatha e Rio Vidal, vivida por Aubrey Plaza, formam o outro grande fio queer da série, com flashbacks para o longo e turbulento romance das duas, que remonta à época dos Julgamentos de Salem. Com Billy e com a história de Agatha e Rio, a produção tratou seus personagens queer como figuras centrais da narrativa, e não surpreende que o Disney+ a tenha escolhido para o destaque do Mês do Orgulho.
Jessica Jones

Jessica Jones trouxe a primeira personagem abertamente lésbica da Marvel Television, em 2015. Carrie-Anne Moss interpretou Jeri Hogarth, uma advogada fria e implacável que trabalha com frequência ao lado de Jessica Jones, a detetive particular vivida por Krysten Ritter. Os roteiristas adaptaram o personagem dos quadrinhos, onde Jeryn Hogarth é originalmente um homem.
A vida pessoal de Jeri ficou em evidência durante toda a série. Ela começa um caso com sua secretária Pam, vivida por Susie Abromeit, enquanto atravessa um divórcio complicado da esposa Wendy, interpretada por Robin Weigert. A série tratou esses relacionamentos com o mesmo cuidado dedicado aos casais heterossexuais.
O elenco queer da série cresceu com o tempo. Na terceira e última temporada, Jessica Jones apresentou Gillian, interpretada por Aneesh Sheth, a primeira personagem transgênero do MCU. A série foi originalmente exibida na Netflix antes de migrar para o Disney+, onde novos públicos podem encontrar um dos primeiros capítulos da Marvel nessa história de representação.
Por que esses títulos estão juntos

Reunir os quatro projetos em uma coleção conta uma história compacta sobre o quanto a Marvel mudou. Jessica Jones chegou primeiro, em 2015, mantendo seus personagens LGBTQIA+ no ambiente televisivo, onde o alcance era menor e a pressão comercial, mais suportável. Os Novos Mutantes levou esse esforço para as telas de cinema. Eternos foi além, dando a um herói principal um marido e uma família.
Agatha Desde Sempre soa como o resultado de tudo isso. Wiccan é um herói nomeado, com namorado e história própria, e a franquia parece disposta a mantê-lo em cena por um bom tempo. O entusiasmo aberto do elenco em relação ao projeto, bem diferente de qualquer postura defensiva, mostra que a Marvel está mais à vontade com esse tipo de história do que estava dez anos atrás.