
Quando a Disney anunciou que estava levando Din Djarin e Grogu para as telas de cinema pela primeira vez desde 2019, a expectativa era de um retorno triunfal de Star Wars ao grande formato. O duo mais carismático do streaming, protagonista da série mais popular do Disney+, finalmente ganharia a dimensão de um blockbuster. O resultado, no entanto, foi muito diferente do esperado.
O Mandaloriano e Grogu estreou com US$ 82 milhões no primeiro fim de semana nos Estados Unidos, acumulando US$ 145 milhões globalmente nos três primeiros dias. O número carrega um título pouco honroso: é a pior estreia de Star Wars na era Disney, ficando ligeiramente abaixo dos US$ 148 milhões que HanSolo: Uma História Star Wars alcançou em 2018, até então o pior desempenho da franquia.
A última esperança da Disney era que o boca a boca positivo do público revertesse a situação semana a semana. Mas essa esperança se desfez com os números do segundo fim de semana.
A queda de 70% que entrou para a história
O Mandaloriano e Grogu arrecadou apenas US$ 6,5 milhões na sexta-feira do segundo fim de semana, registrando uma queda de 70% em comparação com o dia de estreia. Ao fim do fim de semana, o filme somava US$ 118,9 milhões nos Estados Unidos, com estimativas apontando uma arrecadação entre US$ 22 milhões e US$ 25 milhões no período, representando uma queda de 69% a 73%.
Para efeito de comparação: Han Solo: Uma História Star Wars também sofreu uma queda de 70% em seu segundo fim de semana, o que à época sacudiu os planos da Disney e levou o estúdio a redirecionar vários projetos cinematográficos da franquia para séries no Disney+. Repetir exatamente esse desempenho, sendo que a barra já era baixa, é um sinal difícil de ignorar.
A queda no segundo fim de semana é o indicador que a indústria usa para medir a força real de um filme. Um recuo pequeno sugere público fiel e receita acumulada. Uma queda dessa magnitude indica o caminho inverso: saída acelerada dos cinemas e antecipação da chegada às plataformas digitais.
Considerando os dois primeiros fins de semana, O Mandaloriano e Grogu acumula US$ 246,6 milhões globalmente. Com esse ritmo, projeções indicam que o filme pode terminar sua carreira nos cinemas com uma arrecadação total entre US$ 352 milhões e US$ 493 milhões. Para uma franquia que já produziu filmes bilionários, mesmo os mais divididos pela crítica e pelo público, esse resultado representa uma mudança real.
Enquanto isso, YouTubers estão dominando os cinemas
O que torna a situação ainda mais incômoda para a Disney é o que acontece no resto das salas de cinema neste mesmo fim de semana.
Backrooms: Um Não-Lugar, dirigido pelo jovem Kane Parsons, que veio do YouTube, já ultrapassou US$ 118 milhões mundialmente. O crescimento de produções de terror originais e independentes, como Obsessão e Backrooms: Um Não-Lugar, está impulsionando o público jovem nos cinemas e alterando a dinâmica tradicional de Hollywood.
Obsessão, dirigido pelo também youtuber Curry Barker, arrecadou US$ 8,2 milhões apenas na sexta-feira de sua terceira semana em cartaz, com crescimento de 35% em relação à sexta-feira anterior. Isso é algo extremamente raro para filmes de terror, especialmente em disputa direta com a estreia de Backrooms.
O CEO da Cinépolis, Luis Olloqui, disse ter visto sessões esgotadas para os dois filmes: “Estávamos um pouco preocupados que estariam competindo pelo mesmo público. Não é o caso. Mostra que quando temos o conteúdo certo, pessoas de todas as idades estão dispostas a ir ao cinema.”
A questão que fica: a Disney gastou cerca de US$ 100 milhões só em marketing doméstico para O Mandaloriano e Grogu. E pode terminar o fim de semana atrás de filmes produzidos por uma fração desse valor, feitos por criadores que aprenderam o ofício no YouTube.
O que explica o tropeço de Star Wars

A transição de Din Djarin e Grogu do streaming para as telas mostrou que audiência no Disney+ não se converte automaticamente em ingressos vendidos. A série The Mandalorian é um fenômeno do streaming, mas o público que a acompanha em casa, no conforto do sofá, não sentiu urgência suficiente para ir ao cinema.
A janela de exibição exclusiva nos cinemas, fixada em 45 dias antes da chegada ao Disney+, é considerada curta por alguns exibidores. Essa compressão reduz o incentivo para o público antecipar a experiência nas salas, impactando diretamente a curva de receita nas semanas seguintes à estreia.
Há também um problema maior, acumulado ao longo de mais de uma década. Desde que a Disney comprou a Lucasfilm, a saga passou por uma trilogia Sequência que dividiu profundamente os fãs, seguida por uma série de produções no Disney+ com recepções bastante variadas. O resultado é uma erosão gradual do entusiasmo que uma vez fez de Star Wars um dos maiores eventos culturais do cinema.
O Mandaloriano e Grogu era posicionado como o filme que reverteria essa tendência. A queda de 70% no segundo fim de semana o tornou oficialmente o pior início de Star Wars da história. O desafio de reconquistar o público que cresceu amando a franquia é maior do que um único lançamento consegue resolver.