
Toda nova série criada por Ryan Murphy costuma gerar expectativa e desconfiança na mesma medida. Afinal, o produtor já entregou alguns de seus trabalhos mais inspirados na TV americana, como American Horror Story, mas também projetos que receberam duras críticas, como a recente Tudo É Justo. Em The Beauty: Lindos de Morrer, sua nova aposta para o FX, exibida no Brasil pelo Disney+, o resultado fica mais próximo do lado que costuma funcionar melhor.
Os três primeiros episódios já estão disponíveis na plataforma e apresentam uma história que mistura ficção científica, exagero estético e terror corporal sem pudor. A série parte de uma ideia absurda, mas executada com segurança suficiente para prender a atenção, mesmo quando exagera.
Um vírus, beleza extrema e consequências nada sutis
A trama acompanha a disseminação de um patógeno criado em laboratório que se espalha por meio de contato sexual. Quem é infectado passa por uma transformação física imediata, tornando-se extremamente bonito. O problema é que, algum tempo depois, o corpo simplesmente entra em colapso de forma literal.
Logo na abertura da série, uma supermodelo interpretada por Bella Hadid abandona um desfile em Paris, espalha violência pelas ruas da cidade e termina em uma explosão grotesca. A cena deixa claro que The Beauty não pretende pegar leve em nenhum aspecto.
No centro da história estão os agentes do FBI Cooper Madsen (Evan Peters) e Jordan Bennett (Rebecca Hall), encarregados de investigar a origem e a propagação desse vírus.
Evan Peters conduz o papel com firmeza, lembrando seus trabalhos mais contidos fora do universo das séries exageradas do próprio Murphy.
Ao longo dos episódios, a série aposta em locações luxuosas, figurinos chamativos e um ritmo que alterna investigação policial com sequências que beiram o absurdo.
Há cenas em que editores de moda, empresários bilionários e figuras públicas se envolvem em situações extremas, sempre com uma estética muito bem cuidada.
A série sabe que flerta com o ridículo e, em vez de evitar isso, abraça o exagero como parte da experiência. Nem sempre funciona, mas raramente passa despercebida.
Comparações inevitáveis

As semelhanças com A Substância são evidentes, especialmente pelo uso do horror corporal como comentário social. Ainda assim, The Beauty se baseia em uma HQ publicada há mais de dez anos, criada por Jeremy Haun e Jason A. Hurley.
Enquanto o filme estrelado por Demi Moore focava no medo de envelhecer em Hollywood, a série amplia o olhar para outros desejos ligados à aparência. Personagens buscam cura para doenças, emagrecimento rápido ou uma aparência que combine com sua identidade de gênero, refletindo temas como cirurgias estéticas, medicamentos de emagrecimento e culto ao corpo.
Elenco de peso e escolhas curiosas
Ryan Murphy mantém uma de suas marcas registradas, atrair nomes conhecidos para seus projetos. Ashton Kutcher surge como um bilionário envolvido na criação do vírus, enquanto Isabella Rossellini interpreta sua esposa, uma figura distante que prefere se expressar por meio da moda de alta-costura.
Algumas participações, no entanto, são breves. A série introduz personagens interessantes apenas para descartá-los rapidamente, substituindo-os por rostos novos e visualmente perfeitos. Isso pode causar estranhamento, mas parece alinhado com a própria proposta da história.
Com o avanço dos episódios, The Beauty: Lindos de Morrer deixa de ser apenas um procedural policial e passa a funcionar quase como uma coleção de histórias paralelas. Algumas decisões dos personagens parecem sem lógica, e a trama perde foco em determinados momentos, especialmente ao se aproximar de um gancho aberto para a continuação.
Ainda assim, há algo que mantém o interesse. Mesmo quando tropeça, a série consegue provocar curiosidade suficiente para fazer o espectador querer assistir ao próximo episódio.
The Beauty: Lindos de Morrer lança novos episódios semanalmente às quartas-feiras, às 23h (horário de Brasília), no Disney+. É uma série exagerada, irregular e consciente disso tudo, o que, curiosamente, acaba sendo parte de seu charme.