
Quando a OpenAI lançou o Sora 2, em outubro de 2025, o impacto foi imediato. A internet se encheu de vídeos criados com inteligência artificial, muitos deles usando personagens e estilos claramente protegidos por direitos autorais. Para boa parte de Hollywood, o caminho parecia óbvio: processos, notificações e embates judiciais.
A Disney, porém, escolheu outra rota. Em vez de comprar briga, a empresa decidiu sentar à mesa. O acordo anunciado em 11 de dezembro, que inclui o licenciamento de cerca de 200 personagens icônicos e um investimento de US$ 1 bilhão na OpenAI, pode ter efeitos que vão muito além do uso do Sora por fãs e criadores.
Mais do que uma parceria pontual, o movimento sinaliza uma mudança de postura com potencial para influenciar estúdios, sindicatos criativos, empresas de tecnologia e até o rumo das discussões legais sobre IA nos Estados Unidos.
O recado da Disney para o mercado
“Sempre que o Mickey se mexe, o mercado reage”, resumiu Adam Eisgrau, diretor do grupo de políticas tecnológicas Chamber of Progress. A leitura dele é clara: ao fechar acordo com a OpenAI, a Disney dá a entender que acredita que o uso de obras protegidas para treinar inteligência artificial tende a ser considerado legal.
Isso chama atenção porque a própria Disney sempre foi uma das empresas mais rigorosas na defesa de seus direitos autorais. Em junho, por exemplo, processou o estúdio de IA Midjourney justamente por uso não autorizado de personagens.
A contradição aparente ajuda a explicar o real objetivo da empresa. Não se trata de barrar a IA, mas de garantir algum controle sobre como ela será usada.
“É difícil imaginar a Disney escolhendo esse caminho sem calcular que o treinamento de IA provavelmente será considerado uso justo”, afirmou Eisgrau.
O acordo também expõe uma posição curiosa da Disney. Um dia antes do anúncio da parceria com a OpenAI, a empresa exigiu que o Google parasse de usar personagens da Disney para treinar suas ferramentas de IA, afirmando que não toleraria usos não autorizados.
Ao mesmo tempo, não apenas aceita trabalhar com a OpenAI, como também investe pesado nela. Mesmo assim, vale destacar um ponto importante: a OpenAI recebeu o direito de reproduzir personagens no Sora, mas não ganhou autorização explícita para treinar seus modelos com esse material.
Ainda assim, para muitos observadores, a mensagem enviada ao mercado é forte.
Artistas veem avanço, mas seguem em alerta
Dentro da comunidade criativa, a reação é dividida. Há preocupação, mas também um certo alívio. Para a Human Artistry Campaign, coalizão que reúne sindicatos de Hollywood, o acordo representa um reconhecimento importante.
“O mercado está falando e dizendo que a arte humana tem valor e que artistas precisam ser pagos”, afirmou um porta-voz da organização, que descreveu a parceria como um passo relevante e um aviso claro para empresas que defendem o uso irrestrito de conteúdo da internet sem permissão ou remuneração.
Por outro lado, sindicatos ligados à animação veem riscos. A Animation Guild demonstrou receio com o trecho do acordo que fala em usar as interfaces da OpenAI para criar “novos produtos, ferramentas e experiências”.
Para Steve Kaplan, representante sindical, a formulação é vaga demais e levanta suspeitas sobre a introdução de ferramentas generativas diretamente no processo de produção de animação.
Tensões internas e surpresa nos bastidores
A parceria com a OpenAI também pegou parte dos sindicatos de surpresa. Segundo os relatos, as negociações vinham acontecendo havia meses, mas o anúncio caiu como uma bomba entre os críticos mais duros da IA.
“Fomos todos pegos de surpresa”, disse um membro do sindicato. “Precisamos reagir e investigar isso a fundo.”
No ano passado, a Animation Guild já havia tentado impor salvaguardas mais rígidas contra o uso de IA em contratos, mas muitos consideraram o resultado fraco. Desde então, alas mais combativas defendem medidas mais duras, inclusive a possibilidade de greve no futuro.
Conteúdo feito por usuários no Disney+

Outro ponto sensível do acordo envolve o Disney+. A empresa anunciou que vídeos criados por alguns assinantes do Sora poderão aparecer na plataforma de streaming.
Para Sam Tung, presidente da força-tarefa de IA do sindicato, isso levanta um alerta imediato. “Agora você paga para criar conteúdo para a Disney”, criticou.
Além de competir pela atenção do público com produções profissionais, esse material pode acabar servindo como laboratório informal para ideias e histórias futuras. Tung se diz decepcionado e confuso com a decisão, embora mantenha certo ceticismo.
“Sou otimista, mas acho que as pessoas não gostam de IA”, afirmou. “Ficarei surpreso se isso realmente virar um grande sucesso financeiro.”
Independentemente de como o público vai reagir, o acordo entre Disney e OpenAI cria um precedente difícil de ignorar. Pela primeira vez, uma gigante do entretenimento não apenas licencia seus personagens para uma ferramenta de IA generativa, como também aposta dinheiro nela.
Para Hollywood e o Vale do Silício, o recado é claro. A disputa agora não é mais apenas sobre barrar a tecnologia, mas sobre quem vai ditar as regras, quem vai lucrar e como o trabalho criativo humano será protegido nesse novo cenário.