
A Disney abriu uma nova frente em seu esforço para reduzir despesas. Depois de eliminar milhares de postos de trabalho nos últimos anos e iniciar outra rodada de cortes em 2026, a companhia decidiu oferecer uma alternativa a parte de seus executivos mais antigos.
Desta vez, a proposta não é uma demissão. A empresa criou um programa temporário de aposentadoria antecipada com benefícios adicionais para profissionais que atendam a determinados critérios de idade e tempo de serviço.
A medida chega em um momento especialmente delicado dentro da companhia. Somente neste ano, cerca de 1.000 cargos foram eliminados em abril, enquanto outra rodada de demissões atingiu centenas de funcionários em julho, principalmente em áreas ligadas à Pixar e à National Geographic.
E a própria Disney já avisou que o processo ainda não terminou. Os cortes involuntários devem continuar em algumas áreas até 2027.
Segundo informações exclusivas publicadas pelo Deadline, o novo programa foi comunicado nesta segunda-feira (24) por Sonia Coleman, vice-presidente executiva e Chief People Officer da Disney, em um memorando enviado aos funcionários com cargos de diretor ou superiores.
Quem poderá aceitar a aposentadoria antecipada da Disney
O programa recebeu o nome de Voluntary Early Retirement Offer, ou VERO, que pode ser traduzido como Oferta Voluntária de Aposentadoria Antecipada.
A possibilidade está sendo oferecida a executivos baseados nos Estados Unidos que ocupam cargos entre diretor e vice-presidente executivo nas áreas Disney Entertainment, ESPN e setores corporativos. Algumas pessoas temporariamente trabalhando fora do país também podem estar incluídas.
Por outro lado, funcionários contratados sob regimes específicos não estão contemplados. Isso exclui boa parte dos executivos que ocupam os postos mais altos da companhia.
A Disney adotou um sistema de pontos para definir quem pode participar. Para se qualificar, o profissional precisa somar pelo menos 65 pontos entre idade e anos trabalhados na empresa.
Há ainda duas exigências mínimas: o executivo precisa ter pelo menos 50 anos de idade e dez anos de trabalho na Disney.
Na prática, um profissional de 50 anos com 15 anos de empresa atingiria exatamente os 65 pontos necessários. Da mesma forma, alguém de 55 anos precisaria ter trabalhado pelo menos dez anos na companhia.
A participação não será automática. Cada executivo considerado elegível receberá informações específicas sobre o pacote e terá um período determinado para decidir se aceita a proposta.
No memorando, Sonia Coleman deixou claro que ninguém será obrigado a sair:
“A participação é inteiramente opcional. Nenhum executivo elegível é obrigado a aceitar a oferta.”
A empresa ainda não informou publicamente quanto tempo durará esse período de decisão.
O pacote, porém, traz condições que podem tornar a proposta bastante atraente para profissionais que já cogitavam deixar a Disney.
Dependendo do cargo e do período trabalhado, o pagamento pela saída poderá chegar ao equivalente a um ano de remuneração. Durante o período correspondente à indenização, o executivo também poderá continuar utilizando o plano de saúde pagando as mesmas tarifas destinadas aos funcionários ativos.
Outro benefício envolve ações e outras formas de remuneração vinculadas ao desempenho da companhia. Os participantes poderão continuar adquirindo direitos sobre prêmios de ações já concedidos por até três anos.
Normalmente, funcionários que deixam a Disney antes da aposentadoria perdem essa possibilidade.
Há ainda um benefício bastante peculiar para quem trabalha na empresa: acesso vitalício ao Silver Pass, que oferece entrada gratuita nos parques temáticos da Disney, respeitando datas e eventuais períodos de bloqueio.
Aceitar o programa também não impede que o executivo comece a trabalhar imediatamente em outra empresa.
De acordo com o Deadline, não existe cláusula de não concorrência nem outra limitação semelhante vinculada à oferta. Quem conseguir outro emprego durante o período coberto pela indenização continuará recebendo os valores previstos. A principal mudança, caso o profissional ainda esteja usando o seguro de saúde da Disney, será a migração para o plano oferecido pelo novo empregador.
Disney já confirmou que novos cortes estão a caminho
A criação do VERO não significa que a Disney pretende substituir todas as próximas demissões por saídas voluntárias.
No próprio comunicado, Coleman afirmou que a aposentadoria antecipada representa apenas uma das medidas adotadas para reorganizar a empresa.
“Esta é uma das várias ações que estamos tomando para reformular nossa organização, incluindo reduções involuntárias de pessoal que já começaram em algumas áreas e continuarão no próximo ano.”
A decisão está diretamente relacionada ao plano de redução de despesas apresentado pela atual administração.
Josh D’Amaro assumiu como CEO da Disney em 18 de março de 2026, após substituir Bob Iger, e poucos dias depois começou uma nova fase de reorganização da companhia.
Em abril, aproximadamente 1.000 cargos foram eliminados. A maior parte dos cortes estava ligada à criação de uma estrutura unificada de marketing, mas as mudanças também atingiram os estúdios, redes de televisão, ESPN, áreas de produtos e tecnologia e setores corporativos.
Essa não foi uma iniciativa isolada. A Disney passou por outras rodadas de demissões nos últimos anos, depois que a administração iniciou um processo amplo de redução de despesas e revisão da quantidade de conteúdo produzido.
Em julho de 2026 veio outra rodada. Centenas de cargos foram eliminados em diferentes divisões, e dois grupos acabaram especialmente atingidos.
Dentro dos estúdios, a maior parte das demissões ficou concentrada na Pixar. Na televisão, a National Geographic sofreu boa parte das baixas.
A Pixar já havia passado por uma grande redução de funcionários em 2024, quando 175 pessoas deixaram o estúdio enquanto a empresa diminuía a quantidade de produções desenvolvidas diretamente para o Disney+.
A National Geographic também enfrenta há alguns anos uma política mais rígida de gastos. Executivos da marca já haviam falado publicamente sobre a redução do orçamento destinado a novas produções.
O aviso mais recente sobre o assunto veio em 5 de agosto.
Na divulgação dos resultados do terceiro trimestre fiscal de 2026, D’Amaro e o diretor financeiro Hugh Johnston disseram aos acionistas que a companhia continuava concentrada na redução de despesas para liberar recursos destinados a áreas consideradas prioritárias.
A Disney afirmou que estava avaliando diferentes alternativas, entre elas reduções nos custos com mão de obra e nas despesas de vendas, gerais e administrativas, categoria normalmente identificada pela sigla SG&A.
Coleman retomou exatamente esse ponto ao explicar a criação do programa de aposentadoria antecipada.
“Estamos focados em reduzir custos de forma substancial como parte da transformação em andamento, para continuar investindo nas áreas que vão sustentar nosso crescimento futuro: conteúdo, tecnologia e experiências.”
A proposta voluntária também funciona como uma oportunidade para que executivos que atendam aos requisitos decidam sair antes da definição de novos cortes obrigatórios.
No comunicado interno, a chefe de Recursos Humanos explicou que esse é um dos objetivos do programa: permitir que determinadas pessoas tomem uma decisão pessoal antes que a Disney finalize mudanças mais amplas em sua estrutura.
Para quem acredita que seu cargo pode acabar incluído em uma futura rodada de demissões, as condições oferecidas pelo VERO podem pesar na escolha. Pacotes de saída voluntária geralmente incluem vantagens que não necessariamente estarão disponíveis caso o posto seja eliminado posteriormente.
Programas desse tipo não são comuns na história recente da Disney, embora existam precedentes.
Em 2001, quando a companhia anunciou uma redução de aproximadamente 4.000 postos de trabalho, parte das saídas ocorreu por meio de programas voluntários antes das demissões.
Outro caso aconteceu em 2009, quando pacotes de desligamento voluntário foram oferecidos a mais de 600 executivos da divisão de parques nos Estados Unidos.
Agora, mais de 15 anos depois, a aposentadoria antecipada volta a ser usada como uma das ferramentas de reorganização da empresa. A diferença é que, desta vez, a iniciativa aparece logo no começo da gestão de Josh D’Amaro e acompanha uma confirmação explícita da própria Disney: novas reduções de pessoal já estão previstas e deverão continuar no próximo ano.