
Poucos períodos da história inglesa renderam tantas disputas pelo trono, conspirações, acusações de traição e execuções quanto a era Tudor. Entre o fim do século XV e o início do XVII, mudanças religiosas, rivalidades dentro da corte e a disputa pela sucessão colocaram algumas das figuras mais famosas da história britânica diante do carrasco.
É justamente o caminho que levou essas pessoas à morte que estará no centro de uma nova produção da National Geographic. How The Tudors Lost Their Heads será uma série documental de seis episódios apresentada pelos historiadores Dan Snow e professora Suzannah Lipscomb.
De acordo com o anúncio divulgado pela Little Dot Studios, a estreia está marcada para 6 de setembro de 2026 no Reino Unido, às 20h, pelo canal National Geographic. A produção também chegará ao Disney+ britânico na mesma data.
Por enquanto, não há lançamento confirmado no Disney+ do Brasil. A Disney também não divulgou um título oficial em português brasileiro, portanto usamos How The Tudors Lost Their Heads até que haja uma definição para o nosso mercado. Nos Estados Unidos, a previsão oficial é de uma estreia posterior, ainda sem uma data anunciada.
A novidade se junta ao extenso acervo factual da National Geographic dentro do streaming. No Brasil, a plataforma adicionou recentemente a série documental Leão: A Alcateia Marsh de Masai Mara, enquanto vários outros títulos da marca podem ser encontrados entre os documentários da National Geographic disponíveis no Disney+.
Em vez de simplesmente reconstruir as mortes, How The Tudors Lost Their Heads começa cada história nos instantes anteriores a uma execução. A partir daí, Dan Snow e Suzannah Lipscomb retornam no tempo para descobrir como decisões pessoais, alianças políticas, conflitos religiosos, acusações e disputas pelo poder conduziram cada personagem até aquele momento.
A investigação utiliza cartas, pinturas, documentos oficiais, descobertas arqueológicas, arquivos históricos e evidências forenses que passaram por novas análises. Os apresentadores também viajaram por diferentes países da Europa e tiveram acesso a edifícios e coleções normalmente difíceis de consultar.
Dan Snow explicou que a intenção é olhar novamente para episódios que muitas vezes são apresentados como casos já encerrados nos livros de história.
“Os Tudors sempre nos fascinaram, não apenas por seu poder e esplendor, mas porque a vida na corte podia ser tão perigosa quanto glamorosa. Nesta série, Suzannah e eu voltamos às evidências com novos olhos para perguntar se essas execuções extraordinárias eram tragédias inevitáveis, necessidades políticas ou algo muito mais calculado. É a história em seu aspecto mais humano, dramático e brutal.”
Lipscomb, que há anos pesquisa o período Tudor, contou que algumas das descobertas feitas durante a produção alteraram inclusive sua própria interpretação de personagens da época.
“Fazer How The Tudors Lost Their Heads foi uma experiência maravilhosa. Estudo os Tudors há anos, mas esta série me deu a oportunidade de investigar profundamente as razões por trás dessas famosas execuções: os erros humanos, as vinganças, a fé inabalável e a política sombria. Isso me fez mudar de ideia sobre alguns dos personagens mais extraordinários do período.”
A historiadora acrescentou que documentos esquecidos e novas pistas permitiram reexaminar acontecimentos que, durante séculos, receberam explicações aparentemente simples.
De Maria Stuart a Ana Bolena: os seis casos investigados
O primeiro episódio é dedicado a Maria Stuart, a Rainha da Escócia, executada em 1587 depois de passar anos sob custódia na Inglaterra.
A produção acompanha sua trajetória pela França, Escócia e Inglaterra e trabalha com documentos históricos, inclusive cartas codificadas descobertas e decifradas por pesquisadores nos últimos anos. Snow e Lipscomb examinam se a queda de Maria foi consequência principalmente de suas próprias escolhas ou da ação de seus adversários políticos.
Um dos pontos centrais é sua relação com Elizabeth I. As duas rainhas eram parentes e potenciais rivais na disputa sucessória inglesa. O episódio também aborda o trabalho dos agentes e espiões da coroa inglesa que acompanhavam as atividades de Maria.
Em seguida aparece Perkin Warbeck, um dos casos mais curiosos do início da dinastia Tudor.
Em 1491, um jovem começou a circular pelas cortes europeias afirmando ser Ricardo de Shrewsbury, Duque de York, um dos chamados Príncipes da Torre. Os dois meninos haviam desaparecido durante o turbulento período que antecedeu a chegada de Henrique VII ao trono.
A reivindicação transformava Warbeck em ameaça direta ao primeiro rei Tudor. Alguns governantes europeus o apoiaram, em parte porque poderiam utilizá-lo contra Henrique VII.
Snow e Lipscomb investigam a perseguição ao pretendente e uma pergunta discutida há séculos: Perkin Warbeck era apenas um impostor ou poderia realmente ter sido um dos príncipes desaparecidos?
O terceiro episódio aborda provavelmente o nome mais famoso entre todos os escolhidos pela série: Ana Bolena.
Segunda esposa de Henrique VIII e mãe de Elizabeth I, Ana foi acusada de adultério, incesto e alta traição. Ela acabou decapitada na Torre de Londres em 1536.
A série examina novamente as circunstâncias que cercaram sua queda. Entre os assuntos estão sua relação com Henrique VIII, sua atuação nas discussões religiosas da corte, o rompimento com Thomas Cromwell e a pressão pela chegada de um herdeiro homem.
Documentos utilizados pelos historiadores também são colocados lado a lado com as acusações apresentadas no julgamento. O objetivo é verificar até que ponto o processo contra Ana Bolena tinha sustentação nas evidências e quanto havia de conveniência política em sua condenação.
O quarto capítulo avança para o reinado de Elizabeth I e acompanha Robert Devereux, 2º Conde de Essex.
Essex teve uma ascensão rápida na corte e se tornou um dos favoritos da rainha. A relação, porém, se deteriorou após sucessivos conflitos e uma campanha militar fracassada na Irlanda.
Em 1601, ele participou de uma tentativa de insurreição em Londres, episódio que terminou com sua prisão, julgamento por traição e execução. A investigação da National Geographic analisa documentos do período em busca de alterações e interferências, além da participação de adversários políticos do conde em sua queda.
O quinto episódio retorna ao século XVI para contar a história de John Dudley, Duque de Northumberland.
Dudley tornou-se uma das figuras mais poderosas do governo durante o reinado do jovem Eduardo VI. A situação mudou completamente em 1553, quando o rei morreu aos 15 anos.
Pouco antes, Lady Jane Grey, nora de Dudley, havia sido colocada na linha de sucessão. Ela chegou ao trono, mas seu reinado durou apenas nove dias. Maria, filha de Henrique VIII e Catarina de Aragão, reuniu apoio suficiente para tomar o poder e posteriormente se tornou a rainha Maria I.
Sem sustentação política, Dudley foi preso e executado por traição. Snow e Lipscomb voltam aos registros para analisar sua participação na tentativa de instalar Jane Grey no trono e até que ponto o duque agiu em benefício próprio ou dentro de uma disputa política maior que já dominava a corte.
A temporada termina com Margaret Pole, Condessa de Salisbury, cuja história atravessa a mudança entre duas dinastias.
Margaret nasceu na Casa de York e era filha de George Plantagenet, Duque de Clarence, irmão dos reis Eduardo IV e Ricardo III. Quando Henrique VII venceu Ricardo III em 1485 e estabeleceu a dinastia Tudor, a posição da família mudou radicalmente.
Mais tarde, Margaret recuperou patrimônio e prestígio e ganhou a confiança de Henrique VIII, inclusive com responsabilidades na casa de sua filha Maria.
O problema surgiu com Reginald Pole, filho de Margaret. Ele se tornou um importante opositor da ruptura de Henrique VIII com Roma e entrou em conflito aberto com o rei.
A perseguição acabou atingindo outros integrantes da família. Margaret foi presa na Torre de Londres e executada em 1541, aos 67 anos. A série percorre castelos ingleses e arquivos europeus para reconstruir os acontecimentos que antecederam sua condenação.
Vale observar que nem todos os seis protagonistas pertenciam propriamente à dinastia Tudor. Maria Stuart era da Casa de Stuart, Margaret Pole tinha origem Plantageneta, enquanto figuras como Ana Bolena, Robert Devereux e John Dudley entraram para a história por suas relações com os monarcas da época. A série, portanto, utiliza essas mortes para examinar a Inglaterra governada pelos Tudors e as disputas que cercavam a monarquia.
National Geographic aposta em historiadores e novas evidências
A produção é uma parceria entre History Hit e Little Dot Studios para a National Geographic. History Hit foi fundada por Dan Snow e reúne documentários, podcasts e outros projetos voltados à divulgação histórica.
Além da série televisiva, as empresas pretendem ampliar o assunto por meio de seus canais digitais e podcasts, entre eles History Hit, Not Just The Tudors, apresentado por Suzannah Lipscomb, e o canal Absolute History no YouTube.
Matt Taylor, vice-presidente de conteúdo, criação e marketing da National Geographic para a região EMEA, explicou o que a emissora buscou com o projeto.
“How The Tudors Lost Their Heads representa o compromisso da National Geographic com histórias reais extraordinárias por meio de produções de alto nível. Estamos muito satisfeitos em trazer esta série ao National Geographic e ao Disney+, com uma nova análise da ambição, das disputas pelo poder e das tragédias pessoais que definiram a era Tudor.”
Bill Locke, chefe de programação da History Hit, também destacou a participação conjunta das duas empresas.
“Ao combinar a reputação da National Geographic em dar vida à história por meio de uma abordagem inteligente com a capacidade da History Hit de alcançar públicos interessados em conteúdo conduzido por especialistas, estamos muito felizes em trabalhar novamente juntos, desta vez em uma série que reexamina uma das dinastias mais fascinantes da Grã-Bretanha.”
Paul Woolf, chefe de desenvolvimento de produções não roteirizadas da Little Dot Studios, afirmou que a empresa pretende aproveitar a comunidade já formada em torno de seus podcasts e canais digitais para ampliar a discussão sobre o período Tudor.
No Reino Unido, o National Geographic exibirá os episódios semanalmente. A programação começa em 6 de setembro com Maria Stuart, seguida por Perkin Warbeck e os Príncipes da Torre em 13 de setembro, Ana Bolena em 20 de setembro, o Conde de Essex em 27 de setembro, John Dudley em 4 de outubro e Margaret Pole em 11 de outubro.
No Disney+ britânico, a série estará disponível a partir de 6 de setembro. Como ocorre com outras produções da National Geographic, os calendários internacionais podem ser diferentes. Até o momento, a Disney não anunciou How The Tudors Lost Their Heads para o catálogo brasileiro, e qualquer data para o Brasil antes de uma confirmação oficial seria apenas especulação.