
Jon Favreau passou boa parte de sua carreira criando mundos que não existiam diante das câmeras. Foi assim em O Rei Leão, de 2019, no qual animais e paisagens foram construídos digitalmente com um nível de realismo que aproximava o filme de um documentário de natureza. Anos depois, o diretor recebeu a oportunidade de voltar à savana, mas desta vez as regras eram completamente diferentes. Não havia roteiro capaz de decidir o destino dos personagens, uma tomada não poderia ser refeita e nem mesmo o protagonista tinha garantia de sobreviver até o fim das filmagens.
O resultado já pode ser visto no Disney+. Leão: A Alcateia Marsh de Masai Mara, que estreou nesta quinta-feira (20/08) no Brasil, acompanha durante quatro episódios a vida de Kio, desde seus primeiros dias como filhote até a fase adulta.
Para Favreau, a experiência teve ainda outra particularidade. Embora seu currículo inclua filmes, séries e projetos de grande escala, este é o primeiro documentário de sua carreira.
E o cineasta resolveu entrar nesse novo território abrindo mão justamente das ferramentas digitais que dominaram alguns de seus trabalhos mais famosos.
Favreau aceitou o projeto por causa de Mike Gunton

A ideia começou a tomar forma em 2022. Na época, Favreau trabalhava com Mike Gunton, produtor executivo da unidade de história natural da BBC Studios, em Planeta Pré-Histórico.
A produção sobre dinossauros colocava os dois profissionais em uma situação curiosa. Gunton e sua equipe vinham do documentário de natureza, enquanto Favreau carregava sua experiência com computação gráfica e produções digitais.
Foi Gunton quem propôs fazer o caminho inverso.
Em entrevista à Variety, Favreau explicou que não estava procurando especificamente uma oportunidade para dirigir ou produzir um documentário. O convite interessou principalmente por causa da parceria que já havia criado com Gunton.
“Não era como se eu quisesse fazer um documentário. Era mais porque eu realmente gostava de trabalhar com Mike e sua equipe. Eles vieram do mundo deles para o meu, o mundo digital, e depois eu fui para o mundo deles, o documentário.”
Gunton queria ampliar a proposta de Dinastias, produção da BBC dedicada a acompanhar animais vulneráveis ou ameaçados, e concentrar uma série inteira em uma única espécie.
Para Favreau, havia uma ligação anterior com esse trabalho. Durante a produção de O Rei Leão, ele já recorria a Dinastias como referência para estudar o comportamento dos animais.
Segundo Gunton, Favreau observava detalhes como a maneira pela qual os leões se moviam e pequenos gestos corporais que poderiam ajudar a tornar os animais do filme mais convincentes.
Quando surgiu Leão: A Alcateia Marsh de Masai Mara, os papéis se inverteram. Em vez de usar documentários para alimentar uma produção digital, Favreau passaria a trabalhar diretamente com animais reais.
“Mike tinha a ambição de acompanhar uma única alcateia de uma forma que nunca havia sido feita antes, e isso significava abandonar todas as ferramentas com as quais eu estava confortável, como CGI, e trabalhar de maneira totalmente analógica.”
A equipe estabeleceu uma regra desde o início: as imagens dos animais não seriam alteradas digitalmente.
“Decidimos que não faríamos nenhum aprimoramento digital, não apagaríamos elementos e não manipularíamos as imagens.”
É uma diferença importante em relação a O Rei Leão. Apesar das semelhanças inevitáveis entre as duas produções, o que aparece na nova série aconteceu diante das câmeras em Masai Mara, no Quênia.
A ligação entre os projetos, porém, existe. Quando a National Geographic apresentou inicialmente a produção, a associação com o clássico da Disney aparecia até na divulgação, com a ideia de acompanhar a trajetória de um “verdadeiro Rei Leão”.
Foram quase 1.400 dias de filmagens para acompanhar uma alcateia

A escala do trabalho ajuda a explicar os quatro anos necessários para terminar a série.
A equipe acumulou quase 1.400 dias de filmagens distribuídos por 52 períodos de gravação em Masai Mara. De acordo com a produção, nunca uma equipe havia passado tanto tempo em campo exclusivamente para acompanhar uma única alcateia.
Entre os profissionais envolvidos estavam o coprodutor executivo Simon Blakeney, a diretora de fotografia Sophie Darlington e a cineasta queniana Faith Musembi.
Mas havia um problema fundamental no início: ninguém sabia quem seria o personagem principal.
Para aumentar as chances de encontrar uma história que pudesse ser acompanhada durante anos, a equipe começou observando duas alcateias diferentes.
O trabalho foi extremamente detalhado. Os pesquisadores construíram árvores genealógicas dos grupos e prepararam fichas individuais para os animais. Características físicas eram registradas para permitir a identificação posterior, inclusive a distribuição dos pontos dos bigodes de cada leão.
Guias locais também foram essenciais. Mesmo depois de meses de acompanhamento, localizar os animais poderia ser difícil quando eles desapareciam em arbustos ou atravessavam quilômetros de vegetação alta.
Com o tempo, integrantes da equipe passaram a conseguir identificar cerca de 50 leões de diferentes alcateias pelo nome e pelas relações familiares.
Qualquer um deles poderia ter assumido o centro da série.
Gunton contou que havia filhotes machos e fêmeas, leoas adultas e grandes machos dentro dos grupos acompanhados. Aos poucos, porém, uma leoa e seu filhote começaram a chamar a atenção da produção.
O filhote recebeu o nome de Kio.
Era o personagem que a equipe precisava, mas sua escolha trouxe um risco enorme para um projeto que dependeria de anos de gravação.
Segundo os dados citados pela produção, menos da metade dos filhotes de leão chega à idade adulta.
Isso significava que a série poderia perder seu personagem principal a qualquer momento.
Durante partes da estação chuvosa, as planícies de Masai Mara ficavam praticamente intransitáveis para a equipe. Em outros períodos, Kio e seus irmãos desapareciam por semanas.
Favreau contou que as conversas com quem estava em campo começavam quase sempre pela mesma pergunta: Kio ainda está vivo?
Para alguém acostumado a determinar os acontecimentos de seus filmes, a falta de qualquer controle sobre o que viria a seguir mudou completamente a experiência.
“Você realmente precisa se entregar ao que o destino reservou. Não tínhamos como mudar os resultados. Estou acostumado a escrever, criar planos e criar momentos.”
A possibilidade de perder Kio antes do fim acompanhou a produção durante anos.
“Não saber se o personagem principal que surgiu conseguiria sobreviver a cada estação chuvosa era angustiante.”
E não existia um plano B capaz de reescrever o que já havia acontecido.
Kio acabou seguindo um caminho semelhante ao de Simba

A comparação com O Rei Leão poderia ter sido apenas uma ferramenta de divulgação, principalmente pela presença de Favreau. O que aconteceu com Kio, entretanto, criou paralelos que nem a própria equipe esperava encontrar.
A série registra perdas, separações, disputas e o amadurecimento do filhote. Kio precisa sobreviver tempo suficiente para sair de uma condição extremamente vulnerável e encontrar seu lugar entre outros leões.
Favreau destacou que nada disso havia sido planejado.
“Menos da metade dos filhotes sobrevive até a idade adulta, então não sabíamos o que iria aparecer diante de nós.”
O produtor explicou que, entre tantos animais acompanhados, acabou surgindo a história de um pequeno leão que continuava sobrevivendo.
“O que acabou aparecendo foi a história deste leão jovem e pequeno que continuou sobrevivendo, avançando, crescendo e finalmente chegou à idade adulta e se tornou um líder por mérito próprio.”
Foi somente depois que os acontecimentos já estavam registrados que a equipe percebeu como a vida de Kio havia seguido uma estrutura familiar aos espectadores de histórias de aventura.
Favreau reconheceu que o resultado acabou se aproximando de O Rei Leão e de outros protagonistas da Disney, embora isso não pudesse ter sido previsto quando as câmeras começaram a acompanhar a alcateia.
A coincidência vai além da presença do diretor do filme de 2019.
Hans Zimmer também compôs a trilha sonora de Leão: A Alcateia Marsh de Masai Mara. O músico tem uma ligação histórica com O Rei Leão, já que venceu o Oscar pela trilha do clássico animado de 1994.
Ainda assim, Mike Gunton deixou claro que a equipe não pretendia transformar a realidade dos animais em uma versão idealizada da natureza.
Segundo ele, a série evita tanto uma sucessão de ataques e violência quanto uma visão excessivamente açucarada da vida dos leões.
“É verdadeiro. É o que acontece na natureza. Às vezes é difícil, às vezes é bonito, às vezes é reconfortante e às vezes é chocante.”
Esse equilíbrio é especialmente importante porque a história de Kio inclui situações que uma produção de ficção poderia escolher evitar ou alterar.
Aqui, elas simplesmente aconteceram.
Depois de quatro anos de acompanhamento, a produção acumulou aproximadamente 1.000 horas de material bruto. Favreau participou do trabalho de transformar todo esse conteúdo nos quatro capítulos que agora estão disponíveis no Disney+.
A temporada completa soma pouco mais de duas horas e meia. O primeiro episódio, “Capítulo Um: Nasce um Príncipe”, tem 40 minutos. Em seguida vêm “Capítulo Dois: Uma Irmandade”, também com 40 minutos, “Capítulo Três: O Grande Sacrifício”, com 39 minutos, e “Capítulo Quatro: Ser Rei”, com 42 minutos.
O último capítulo acompanha justamente a etapa para a qual os quatro anos de gravações conduziram Kio: a disputa para conquistar um reino próprio.
Leão: A Alcateia Marsh de Masai Mara é uma produção da BBC Studios Natural History Unit para a National Geographic. Jon Favreau e Mike Gunton são produtores executivos, Jane Atkins é a produtora da série e Simon Blakeney atua como coprodutor executivo. Pela National Geographic, Janet Han Vissering e Tom McDonald são produtores executivos.
Os quatro episódios de Leão: A Alcateia Marsh de Masai Mara já estão disponíveis no Disney+ no Brasil.