
Durante três filmes, o Peter Parker de Tom Holland quase sempre teve alguém mais experiente por perto para indicar o caminho. Tony Stark assumiu boa parte desse papel em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, Nick Fury ocupou uma posição parecida em Homem-Aranha: Longe de Casa e Doutor Estranho entrou nessa dinâmica em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa.
Depois de tudo o que aconteceu com Peter, repetir a fórmula pela quarta vez poderia fazer o personagem andar em círculos. Homem-Aranha: Um Novo Dia escolheu outro caminho e colocou o herói diante de problemas que ele precisaria resolver como adulto.
A presença de Bruce Banner poderia sugerir que o Hulk seria o próximo nome da lista de mentores. Não foi essa a intenção. E Jean Grey, por sua vez, ocupou um espaço que originalmente seria destinado a outro personagem da Marvel.
Chris McKenna e Erik Sommers, roteiristas dos quatro filmes de Tom Holland no MCU, detalharam essas escolhas em uma entrevista ao TheWrap. As respostas ajudam a entender algumas das decisões mais curiosas de Um Novo Dia e revelam que a versão final do filme demorou meses para encontrar a personagem certa para seu conflito principal.
Atenção: o texto a seguir contém spoilers de Homem-Aranha: Um Novo Dia.
Peter Parker precisava parar de procurar mentores
Para Sommers, a mudança começa simplesmente pelo crescimento de Peter. O público já viu o herói procurar pessoas mais velhas em busca de respostas, com resultados bastante diferentes ao longo de seus filmes.
Desta vez, os roteiristas queriam que ele aprendesse a encontrar essas respostas sozinho.
“Já vimos ele procurar esses mentores. Não vamos fazer isso de novo. Queremos contar uma história sobre ele amadurecendo.”
Sommers explicou que parte desse amadurecimento consiste justamente em Peter assumir seus próprios problemas em vez de recorrer automaticamente a alguém mais experiente.
Essa decisão também mudou a maneira como ele se relaciona com outros personagens. Justiceiro, Bill Metzger e Jean DeWolff não são tratados como figuras de autoridade às quais Peter pede conselhos. São relações entre adultos que precisam trabalhar juntos, negociar interesses ou simplesmente lidar uns com os outros.
É uma diferença importante em relação à fase escolar do personagem. Peter ainda pode cometer erros e pedir ajuda, mas não está mais colocado na posição daquele adolescente cercado por adultos capazes de resolver tudo por ele.
Essa ideia também ajuda a explicar por que a participação de Yelena Belova funciona dentro dessa fase mais adulta. Os próprios roteiristas disseram que a interação dos dois foi pensada desde versões muito iniciais do roteiro.
Bruce Banner entrou por causa do problema de Peter, não para ser seu tutor
Então por que colocar Bruce Banner no filme?
Segundo McKenna, o ponto de partida foi o problema físico enfrentado por Peter. Com as alterações que começam a ocorrer em seu organismo, fazia sentido que ele procurasse alguém capaz de entender o que estava acontecendo.
Bruce era a escolha natural por sua experiência científica e pelo que ele próprio viveu com o Hulk.
Isso não significava colocar Banner no antigo posto ocupado por Tony Stark. Peter busca conhecimento específico com o cientista, mas continua responsável por encontrar sua própria saída.
A presença de Bruce ainda resolvia outra necessidade do roteiro. Como o controle mental fazia parte da história desde cedo, os autores perceberam que poderiam usar justamente um dos personagens fisicamente mais poderosos da Marvel contra o Homem-Aranha.
“O Hulk seria perfeito para nossa antagonista controlar mentalmente. E assim poderíamos ter uma grande luta entre Homem-Aranha e Hulk.”
McKenna disse que a equipe ficou muito satisfeita quando recebeu autorização da Marvel para usar Bruce Banner e o Hulk. O personagem atendia tanto à parte científica da história quanto ao confronto físico que os roteiristas queriam construir.
Esse embate acabou se tornando uma das peças centrais da campanha do filme. Antes mesmo da estreia, um trailer já havia revelado o confronto entre Peter e o Hulk.
Jean Grey não estava nos primeiros planos

O caso de Jean Grey foi bem diferente. McKenna revelou que o controle mental e as transformações de Peter já faziam parte da história, mas faltava alguém que realmente funcionasse dentro daquele conflito. Os roteiristas desenvolveram outras possibilidades e chegaram a trabalhar com diferentes personagens durante meses.
Nada encaixava como eles queriam.
A situação mudou quando McKenna recebeu uma ligação de um dos produtores informando que Jean Grey estava disponível para ser usada no filme.
“Foi Jean quem realmente destravou tudo. Ela era a peça que faltava.”
A escolha permitia fazer algo além de simplesmente colocar uma telepata contra Peter. Jean e o Homem-Aranha poderiam refletir alguns dos problemas um do outro, especialmente por estarem tentando entender mudanças que não conseguem controlar completamente.
Também havia espaço para apresentar Jean inicialmente como uma ameaça sem defini-la como uma vilã tradicional. McKenna explicou que a personagem precisava ser humanizada e chegar ao fim da história em outro ponto, algo essencial para alguém que terá importância no futuro dos mutantes dentro do MCU.
O filme, portanto, não precisava transformar um adversário clássico do Homem-Aranha no responsável pelo controle mental apenas para manter a história restrita à galeria de inimigos de Peter.
McKenna confirmou que essa escolha foi consciente. Homem-Aranha: Um Novo Dia coloca o herói diante de uma personagem pertencente ao universo mais amplo da Marvel, reforçando sua ligação com outros núcleos do MCU.
Jean também acabou criando consequências que podem continuar muito depois desse filme. A tecnologia desenvolvida por Peter para neutralizar poderes já deixou uma possível ligação entre o Homem-Aranha e uma futura perseguição aos mutantes, especialmente por causa do envolvimento do Departamento de Controle de Danos.
Isso deixa uma situação curiosa para uma eventual quinta aventura solo. Depois de quatro filmes nos quais Peter dividiu espaço com personagens importantes de outras partes do MCU, ainda existe uma extensa lista de adversários clássicos do Homem-Aranha que não foram explorados nessa versão.
Por enquanto, porém, McKenna e Sommers deixam claro que a ausência de um grande vilão tradicional do herói em Um Novo Dia não aconteceu por falta de alternativas. A equipe passou meses procurando alguém para ocupar aquela posição e só encontrou a solução quando recebeu permissão para usar Jean Grey.
Homem-Aranha: Um Novo Dia está em cartaz nos cinemas brasileiros.