
Algumas das decisões mais importantes de um filme aparecem antes mesmo de a história realmente começar. Uma frase na tela pode definir como o público deve interpretar tudo o que vem depois, especialmente quando o cineasta precisa apresentar um mundo com regras bem diferentes das nossas.
Christopher Nolan recorreu justamente a esse recurso em A Odisseia. O filme começa com uma breve mensagem que prepara o espectador para uma história situada na Idade do Bronze, período em que fenômenos naturais, crenças religiosas e acontecimentos inexplicáveis faziam parte da mesma visão de mundo.
Agora, o diretor contou de onde veio a ideia. E a resposta passa diretamente por George Lucas e pelo primeiro Star Wars, lançado em 1977 e posteriormente rebatizado como Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança.
Durante uma conversa com o cineasta sul-coreano Park Chan-wook para a revista Cine21, Nolan revelou que a famosa frase exibida antes da abertura de Star Wars serviu como referência para o texto que abre seu novo épico. A entrevista foi divulgada nesta segunda-feira, 10 de agosto, como parte da série Masters Talk da publicação.
O primeiro Star Wars começa com a frase “Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante…”, antes de apresentar o logotipo e o famoso texto que avança pela tela. Para Nolan, aquelas poucas palavras já eram suficientes para informar ao público que as regras do mundo real poderiam ser deixadas temporariamente de lado.
“Uma das minhas primeiras experiências no cinema, e uma experiência muito profunda, foi assistir ao primeiro Star Wars, de George Lucas. Ele começou o filme com uma frase que dizia: ‘Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante…’. Aquilo imediatamente me mostrou como assistir ao filme.”
Nolan explicou que esse aviso o colocava no estado de espírito adequado para aceitar tudo aquilo que apareceria em seguida na tela.
“Eu sentia que, com este filme, estava procurando esse tipo de experiência, em que você cria um mundo no qual o público pode se perder e aceitar os termos apresentados por ele.”
Por que A Odisseia começa falando em “magia aparente”?

A comparação surgiu quando Park Chan-wook perguntou sobre uma escolha específica feita por Nolan. A Odisseia começa com a frase “A time of apparent magic”, algo como “Uma era de aparente magia”.
A palavra “aparente” não está ali por acaso.
Segundo Nolan, sua intenção era preparar o público para a maneira como o filme trata acontecimentos que, dentro do poema atribuído a Homero, envolvem deuses, criaturas e forças sobrenaturais. O diretor buscou apresentar aquele universo de forma mais próxima da percepção que uma pessoa da Idade do Bronze poderia ter do mundo.
“Para uma pessoa que vivia na Idade do Bronze, havia magia por toda parte. Existiam coisas que ela simplesmente não conseguia explicar.”
Esses mistérios poderiam receber explicações fantasiosas, corretas ou incorretas. A frase inicial funciona, portanto, como um pequeno manual para o espectador entender o que está prestes a assistir.
Isso também ajuda a explicar uma das escolhas feitas na adaptação. Enquanto o poema de Homero apresenta intervenções constantes dos deuses, o filme de Nolan reduz bastante a presença direta dessas figuras. Muitos acontecimentos sobrenaturais aparecem ligados a fenômenos que os próprios personagens poderiam interpretar como ações divinas.
A comparação com George Lucas também não surgiu agora por acaso. Meses antes do lançamento, Nolan já havia chamado Homero de uma espécie de “George Lucas de sua época” e comparado o universo do poeta grego aos grandes mundos compartilhados da cultura popular atual.
Nesse sentido, existe uma ligação curiosa entre os dois trabalhos. George Lucas criou uma aventura espacial futurista e decidiu apresentá-la como algo ocorrido há muito tempo. Nolan fez o caminho inverso: pegou um texto de quase três mil anos e procurou uma forma de fazer o público entrar naquele mundo sem exigir que tudo fosse interpretado com a lógica do século XXI.
O Star Wars de 1977 teve enorme importância na formação cinematográfica de Nolan. O diretor já contou que assistiu ao filme repetidas vezes quando criança e que aquela sensação de entrar em outro universo permaneceu como uma referência em sua carreira.
O longa de George Lucas, inclusive, voltará aos cinemas em 2027 para comemorar os 50 anos da saga.
A Odisseia, por sua vez, está em cartaz nos cinemas brasileiros desde 16 de julho. O filme é estrelado por Matt Damon como Odisseu, com Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Zendaya, Charlize Theron e Lupita Nyong’o no elenco. A produção adapta o poema de Homero sobre a longa viagem do herói de volta para Ítaca após a Guerra de Troia.
A relação entre a obra de Homero e outras franquias contemporâneas também vai além de Star Wars. Recentemente, mostramos como A Odisseia e Percy Jackson partem de elementos da mesma mitologia grega, mas seguem caminhos bastante diferentes.