
Igby Rigney mal teve tempo de assimilar a mudança em sua carreira. Depois de passar por Nova York, Londres e Berlim em uma extensa agenda de divulgação, o ator voltou a Los Angeles pouco antes de Estilhaços chegar ao Disney+.
A estreia tem um peso especial para o ator de 26 anos. Esta é a primeira vez que ele ocupa o centro de uma grande produção, justamente ao interpretar uma versão adolescente de Bret Easton Ellis, autor de Psicopata Americano e do livro que deu origem à série.
O trabalho exigia uma escolha delicada. Rigney precisava se aproximar da maneira de falar, observar e recordar do escritor sem transformar a atuação em uma cópia. Para isso, pesquisou entrevistas antigas, ouviu o audiolivro narrado pelo próprio Ellis e trabalhou diretamente com Ryan Murphy.
Ainda assim, houve uma ausência curiosa durante todo o processo: o ator nunca conversou pessoalmente com o homem que interpreta. Em entrevista à Variety, Rigney contou que essa distância, em vez de atrapalhar, ajudou a manter sua atenção nos roteiros e nas orientações recebidas durante as filmagens.
Estilhaços adapta o romance parcialmente autobiográfico de Ellis e acompanha Bret durante o último ano em uma escola de elite de Los Angeles, nos anos 1980. A chegada do misterioso Robert Mallory coincide com os crimes de um assassino em série, enquanto o protagonista tenta entender o que é real, o que foi distorcido pelo medo e o que pode ter mudado em sua própria memória.
Uma audição feita do jeito antigo

O primeiro contato de Rigney com o projeto aconteceu por meio de algumas cenas enviadas para teste. Em vez de gravar sozinho e mandar o material pela internet, ele foi chamado a um estúdio de Los Angeles para trabalhar diante da equipe de seleção de elenco.
Para o ator, esse formato tornou a experiência mais pessoal. Ele pôde conhecer a diretora de elenco, ajustar o teste dentro da sala e entender melhor o que a produção procurava. A gravação chegou a Ryan Murphy, que chamou Rigney para uma nova etapa em Nova York.
Foi nessa fase que ele encontrou Graham Campbell e Hayes Warner, futuros colegas de elenco. Murphy perguntou se Rigney já havia lido o romance de Bret Easton Ellis. A resposta foi não. O ator explicou que preferiu estudar primeiro as páginas do roteiro entregues para a audição, já que aquele seria o material usado diante das câmeras.
Murphy aceitou a justificativa, mas deixou uma tarefa clara antes do encontro seguinte: “Leia o livro. Você precisa terminar antes de voltar.”
Rigney escolheu o audiolivro, narrado pelo próprio Ellis. A decisão acabou servindo a dois objetivos. Além de conhecer a história completa, ele passou a observar o ritmo da voz do escritor, as palavras destacadas e as mudanças de entonação.
Na etapa seguinte, o ator fez testes de química com Graham Campbell e Homer Gere. Segundo Rigney, Murphy conduziu a sessão como um exercício de interpretação, com espaço para testar reações e diferentes formas de abordar as cenas.
O ambiente reduziu a sensação de julgamento comum em audições e ajudou o grupo a construir as relações que mais tarde apareceriam na tela. Rigney afirmou que o encontro se parecia mais com uma aula de atuação do que com uma avaliação na qual os participantes precisavam provar que mereciam o papel.
A voz de Bret sem copiar Bret
O audiolivro não foi a única referência usada por Rigney. Ele também encontrou uma entrevista de Ellis no início da vida adulta, o registro mais próximo que conseguiu localizar da época em que o escritor ainda estava perto da idade mostrada na série.
O ator ouviu o material várias vezes e discutiu suas escolhas com Ryan Murphy. A intenção era captar alguns hábitos de fala sem criar uma caracterização exagerada que pudesse desviar a atenção da história.
Mesmo com Bret Easton Ellis envolvido na produção executiva e na criação da série, os dois nunca se encontraram. O contato do escritor com a construção do personagem aconteceu principalmente por meio de Murphy.
“Eu nunca tive a chance de conhecê-lo”, afirmou Rigney.
Na avaliação do ator, a falta desse encontro também simplificou o trabalho. Sem acesso direto às lembranças pessoais de Ellis, ele pôde se concentrar no que estava escrito e no que Murphy queria explorar em cada dia de filmagem.
Essa escolha combina com a própria estrutura do livro. Rigney destacou que muitas passagens começam com a ideia de “eu me lembro”. Os acontecimentos são apresentados décadas depois, a partir da memória de alguém que pode não recordar tudo com precisão.
A série transporta essa dúvida para a relação entre Bret e Robert. Certos encontros acontecem sem testemunhas e, quando os personagens contam aos amigos o que ocorreu, as versões não coincidem. O público precisa decidir quem está mentindo, quem está escondendo algo e até que ponto Bret é uma fonte confiável.
Los Angeles também teve papel importante na preparação. Rigney ouvia o audiolivro enquanto dirigia pelas mesmas ruas descritas por Ellis e passou a conhecer melhor os trajetos entre as colinas da cidade.
A ambientação dos anos 1980 já havia chamado atenção no trailer de Estilhaços, que apresentou festas, carros, casas luxuosas e o medo crescente provocado pelos crimes.
Cenas íntimas foram tratadas como coreografia
Além de interpretar uma pessoa real, Rigney precisou lidar com cenas íntimas e sequências que mostram a sexualidade escondida de Bret. Ele contou que pensou bastante na forma como esses momentos funcionariam diante das câmeras, mas não ficou nervoso com a gravação.
A presença de coordenadores de intimidade foi decisiva. Cada movimento era combinado, delimitado e acompanhado pela equipe, o que permitia que os atores soubessem exatamente o que aconteceria antes de iniciar a cena.
Rigney resumiu o processo com uma comparação direta: “É como fazer uma dança sob um microscópio.”
Para ele, o desafio maior apareceu em cenas aparentemente mais simples, nas quais Bret está cercado pelos amigos. O elenco criou uma relação muito próxima fora das câmeras, mas o personagem ocupa uma posição cada vez mais isolada dentro do grupo.
Bret observa acontecimentos que os demais preferem ignorar. Quanto mais tenta alertá-los sobre suas suspeitas e seus medos, menos atenção recebe. Rigney precisou manter esse afastamento mesmo quando estava diante de colegas com quem se divertia nos intervalos.
O ator disse que, em algumas gravações, repetia mentalmente trechos da narração de Bret enquanto os outros personagens conversavam. Isso o ajudava a sustentar a sensação de que ninguém realmente o escutava, sem se deixar levar pela amizade existente entre os integrantes do elenco.
A proximidade também fortaleceu os confrontos com Homer Gere. Durante os testes, Murphy incentivou os dois a descobrir quais provocações produziam respostas físicas e mudanças imediatas de comportamento.
Rigney comparou a troca entre eles a uma partida de tênis, na qual cada um procurava surpreender o outro. Fora das câmeras, porém, os atores desenvolveram uma forte amizade, o que tornou essas cenas algumas das favoritas do protagonista.
Os dois primeiros episódios de Estilhaços já estão disponíveis no Disney+. A estreia no catálogo aconteceu em 5 de agosto, e os próximos capítulos serão lançados às quartas-feiras, às 22h, no horário de Brasília.