
O cinema ainda ocupa um espaço central dentro da Disney, mas nem todos os lançamentos conseguem repetir os resultados bilionários que o estúdio alcançou tantas vezes. Em um mesmo trimestre, a companhia pode comemorar um fenômeno como Toy Story 5 e, ao mesmo tempo, lidar com produções que ficaram abaixo das projeções internas.
Essa variação faz parte de um negócio no qual grandes orçamentos não garantem salas cheias. Campanhas publicitárias caras, concorrência, avaliações da crítica e o interesse do público podem alterar rapidamente o destino comercial de um filme.
Para a Disney, contudo, a passagem pelos cinemas representa apenas uma etapa. Personagens e histórias continuam circulando no Disney+, em brinquedos, roupas, videogames, atrações dos parques e cruzeiros por muitos anos.
Foi com esse argumento que a administração comentou os resultados de duas de suas principais estreias de 2026. Pela primeira vez, o CEO Josh D’Amaro reconheceu publicamente que Star Wars: O Mandaloriano e Grogu e o live-action de Moana não alcançaram as expectativas de bilheteria da companhia.
A declaração apareceu na carta aos acionistas divulgada pela Disney nesta quarta-feira, 5 de agosto, junto com os resultados do terceiro trimestre fiscal.
“Mesmo quando os filmes de nossas franquias não atendem às nossas expectativas de bilheteria, como aconteceu com O Mandaloriano e Grogu e o live-action de Moana, nossos investimentos nessas propriedades centrais alimentam outras partes da empresa.”
Disney explica o que ganhou com O Mandaloriano e Grogu

Star Wars: O Mandaloriano e Grogu chegou cercado por uma responsabilidade incomum. O longa marcou a volta de Star Wars aos cinemas desde Star Wars: A Ascensão Skywalker, lançado em 2019, e transformou personagens apresentados originalmente no Disney+ em protagonistas de uma produção para as telonas.
Antes da estreia, o filme já era tratado como um teste decisivo para o futuro de Star Wars no cinema. A principal dúvida era se o público que acompanhou Din Djarin e Grogu em casa estaria disposto a pagar pelo próximo capítulo da história.
O longa abriu com US$ 81,7 milhões durante o fim de semana tradicional nos Estados Unidos e Canadá. Ao considerar os quatro dias do feriado do Memorial Day, o valor ficou próximo de US$ 100 milhões. A estreia mundial chegou a cerca de US$ 165 milhões, o menor início de um filme de Star Wars na era Disney.
Desde então, a produção acumulou aproximadamente US$ 345 milhões nas bilheterias mundiais. O número está distante dos maiores resultados da franquia e também ficou abaixo do que a Disney esperava para o primeiro filme de Star Wars em quase sete anos.
Josh D’Amaro afirmou, porém, que a estreia trouxe benefícios em outras áreas. Segundo o executivo, o filme ajudou a aumentar as vendas de produtos de Star Wars, atraiu visitantes para a atração atualizada da Millennium Falcon na Disneyland e no Walt Disney World e gerou grande participação do público nos jogos da franquia.
“O Mandaloriano e Grogu impulsionou um crescimento saudável nas vendas de produtos de Star Wars, levou visitantes à atração atualizada da Millennium Falcon na Disneyland e no Walt Disney World e também gerou participação expressiva nos jogos.”
A força comercial de Grogu ajuda a explicar essa estratégia. Antes mesmo do lançamento do filme, o personagem já havia aparecido em mais de 13 milhões de produtos vendidos desde sua estreia em The Mandalorian. A Disney sabia que o pequeno companheiro de Din Djarin poderia render muito além dos ingressos, como detalhamos no artigo sobre o enorme volume de produtos de Grogu comercializados desde 2019.
A empresa não informou quanto as vendas cresceram depois da estreia, quantos visitantes foram atraídos aos parques ou qual foi o aumento registrado nos jogos. Por isso, não é possível determinar se essas receitas compensaram o desempenho mais baixo nos cinemas.
Esse detalhe é importante. A fala de D’Amaro explica por que a Disney ainda considera o filme valioso para a companhia, mas não transforma automaticamente sua bilheteria em sucesso financeiro.
Disney aposta que Moana terá vida longa no streaming
A situação de Moana foi ainda mais delicada. O live-action parecia partir de uma posição confortável: a animação de 2016 permanece entre os filmes mais assistidos da história do streaming, enquanto Moana 2 ultrapassou US$ 1 bilhão nos cinemas.
O interesse inicial também foi alto. O primeiro trailer da nova versão alcançou 182 milhões de visualizações em 24 horas e se tornou o segundo vídeo mais assistido entre os live-actions da Disney nesse intervalo.
Esse interesse não se converteu na abertura esperada. Moana arrecadou US$ 43 milhões em seu primeiro fim de semana nos Estados Unidos e Canadá, além de US$ 52 milhões nos mercados internacionais.
A estreia mundial ficou em US$ 95 milhões, bem abaixo da projeção inicial de pelo menos US$ 130 milhões. O resultado colocou o filme entre as aberturas mais fracas de uma nova versão com atores de uma animação da Disney.
O filme soma aproximadamente US$ 263 milhões no mundo até agora. O orçamento de produção teria ficado em torno de US$ 250 milhões, antes dos gastos com publicidade e distribuição. Esses números não permitem calcular o resultado final, mas mostram por que a administração reconheceu que a bilheteria ficou aquém do planejado.
A abertura já havia sido analisada no Guia Disney+ Brasil, quando mostramos que o live-action de Moana teve a segunda pior estreia entre os remakes recentes da Disney.
D’Amaro indicou que a próxima oportunidade de recuperação estará no Disney+. A expectativa da empresa é que o longa encontre um público maior quando chegar ao catálogo.
“Esperamos que Moana tenha um desempenho forte no Disney+, aproveitando o sucesso do filme original, que está entre os títulos mais assistidos de todos os tempos.”
A confiança não surgiu por acaso. Moana: Um Mar de Aventuras ultrapassou 1,4 bilhão de horas assistidas no Disney+ e ocupa o posto de filme mais transmitido da história da plataforma.
O streaming pode ampliar a vida comercial do remake, gerar novas visualizações das animações e manter personagens, músicas e produtos em circulação. Ainda assim, a audiência no Disney+ não altera o valor já arrecadado nos cinemas e não deve ser tratada como substituta direta da bilheteria.
Disney diz que cinema é apenas uma parte da conta
Durante a apresentação dos resultados, o diretor financeiro Hugh Johnston reforçou que o desempenho nos cinemas continua importante. Segundo ele, a companhia busca resultados consistentes, mas precisa analisar seu calendário como um conjunto de produções, e não a partir de um único lançamento.
“O desempenho nos cinemas é importante para nós, é claro, e certamente queremos entregar resultados financeiros consistentes com nossos filmes. Mas a natureza da indústria cinematográfica faz com que esse seja um jogo de portfólio.”
A ideia é que alguns filmes superem as projeções e ajudem a equilibrar aqueles que arrecadam menos. Em 2026, o maior exemplo é Toy Story 5, que ultrapassou US$ 1 bilhão e se tornou o lançamento de maior bilheteria do ano até aquele momento.
A Disney calcula que os cinco filmes de Toy Story já arrecadaram mais de US$ 4 bilhões nos cinemas. Juntos, eles também acumulam mais de 2 bilhões de horas assistidas no Disney+ e movimentam mais de US$ 1 bilhão por ano em vendas de produtos no varejo.
Nos parques e cruzeiros, a franquia está presente em quatro áreas temáticas, 19 atrações e dois hotéis. Para a empresa, esses números mostram como uma produção pode continuar gerando receita muito depois de sair dos cinemas.
Johnston afirmou que Experiências, área que reúne parques, cruzeiros e produtos, e Streaming são atualmente dois dos principais motores de crescimento da Disney. Filmes e séries abastecem essas divisões com personagens que podem ser usados em diferentes negócios.
“A janela dos cinemas é, em muitos aspectos, apenas um dos dados que analisamos. O verdadeiro valor dessas propriedades está no benefício acumulado das histórias desenvolvidas ao longo de décadas e na nossa capacidade de usá-las em toda a engrenagem da Disney.”
Essa posição não elimina a importância dos ingressos. Uma estreia abaixo do esperado pode reduzir receitas, antecipar a chegada ao streaming e dificultar a aprovação de continuações com orçamentos semelhantes.
A fala dos executivos mostra, porém, que a Disney não pretende avaliar Moana e Star Wars: O Mandaloriano e Grogu apenas pelo dinheiro arrecadado nas salas. A companhia agora tentará extrair valor dos dois filmes em assinaturas, produtos, parques e jogos, embora ainda não tenha demonstrado se os ganhos nessas áreas serão suficientes para compensar a decepção nas bilheterias.