
Poucas histórias de sobrevivência ganharam uma adaptação tão angustiante quanto 127 Horas. Lançado em 2010, o filme colocou James Franco sozinho diante de uma rocha impossível de mover e transformou a luta de Aron Ralston em uma experiência difícil de esquecer.
O longa de Danny Boyle, porém, mostrava uma reconstrução cinematográfica dos acontecimentos. Por mais fiel que fosse aos relatos do montanhista, ainda havia um ator diante das câmeras, um roteiro e uma equipe trabalhando fora do cânion.
A realidade registrada por Ralston era bem diferente. Enquanto permanecia preso e acreditava que poderia morrer naquele local, ele utilizou uma câmera para gravar mensagens, reflexões e despedidas destinadas à família.
Mais de duas décadas depois do acidente, parte desse arquivo pessoal finalmente servirá de base para uma nova produção.
A National Geographic Documentary Films anunciou um documentário ainda sem título sobre o caso. O projeto será dirigido por James Marsh, vencedor do Oscar por O Equilibrista, e tem lançamento previsto para 2027.
Documentário mostrará gravações feitas dentro do cânion
O novo filme terá acesso a imagens nunca exibidas que Aron Ralston gravou durante os seis dias em que permaneceu imobilizado no Bluejohn Canyon, uma região remota do estado norte-americano de Utah.
Ralston tinha 27 anos quando entrou sozinho no cânion, em abril de 2003, sem avisar a outras pessoas qual seria o seu itinerário. Durante o percurso, uma rocha se deslocou e prendeu seu braço direito contra a parede.
A pedra pesava aproximadamente 360 quilos. Depois de várias tentativas frustradas de se libertar, o montanhista começou a usar sua câmera para documentar a situação e deixar mensagens para familiares e amigos.
De acordo com a National Geographic, essas gravações mostram seus pensamentos mais íntimos, as mudanças entre esperança e desespero e a deterioração de suas condições físicas. O material acompanhará o período anterior à decisão que salvou sua vida: amputar o próprio braço com uma ferramenta pequena e seguir pelo cânion até encontrar ajuda.
Carolyn Bernstein, vice-presidente executiva da National Geographic Documentary Films, afirmou que James Marsh estava entre os diretores mais desejados pela divisão desde sua criação.
“James Marsh está no topo da nossa lista de diretores dos sonhos desde o lançamento do selo de documentários, há quase uma década. Trabalhar com ele nesta história envolvente, visceral e profundamente humana é a realização de um grande desejo.”
A executiva também destacou que o acesso ao arquivo particular de Ralston será um dos diferenciais da produção.
“A determinação de Ralston diante de circunstâncias tão adversas, somada ao acesso único ao seu acervo pessoal, torna esta história uma escolha perfeita para a nossa seleção de filmes centrados em pessoas.”
Diretor de O Equilibrista volta aos documentários
James Marsh tem experiência justamente na reconstrução de acontecimentos reais a partir de depoimentos, arquivos e registros históricos.
O cineasta britânico venceu o Oscar de melhor documentário por O Equilibrista, filme sobre a travessia realizada por Philippe Petit entre as Torres Gêmeas do World Trade Center em 1974.
Marsh também dirigiu A Teoria de Tudo, cinebiografia do físico Stephen Hawking que rendeu a Eddie Redmayne o Oscar de melhor ator. Seu último longa documental havia sido Projeto Nim, lançado em 2011.
O caso de Ralston representa, portanto, o retorno do diretor ao formato que lhe deu a principal estatueta de sua carreira.
“A história de Aron é uma das grandes aventuras do nosso tempo, um relato impressionante de medo, sofrimento, coragem e resistência”, declarou Marsh.
Para o diretor, as gravações feitas no cânion permitem que o próprio Ralston conduza parte do documentário.
“Os registros feitos por Aron durante aquele período são únicos e constituem um presente extraordinário para um cineasta. Ele nos conta o que sentia e pensava enquanto estava preso, em constante alternância entre esperança e desespero.”
Marsh desenvolverá o filme ao lado de colaboradores da Magna Studios. Oliver Calleja, vice-presidente sênior de produções de não ficção da empresa, classificou o arquivo como um relato raro de alguém diante de uma escolha extrema.
“As imagens de Aron são um registro surpreendente e cru de uma pessoa presa em um dilema perigoso e profundo. Sabíamos que elas precisavam de um cineasta capaz de fazer justiça a Aron e às suas gravações.”
A diferença entre o documentário e 127 Horas
A história chegou aos cinemas pela primeira vez em 127 Horas, produção dirigida por Danny Boyle e baseada no livro autobiográfico Between a Rock and a Hard Place, publicado por Ralston em 2004.
James Franco interpretou o montanhista, enquanto Danny Boyle e Simon Beaufoy assinaram o roteiro. O próprio Ralston acompanhou a produção e levou o diretor ao local onde ficou preso.
O filme recebeu seis indicações ao Oscar, entre elas melhor filme, melhor ator para Franco, roteiro adaptado, montagem, trilha sonora e canção original.
Embora algumas gravações reais de Ralston já tenham aparecido em reportagens e programas especiais, o documentário da National Geographic terá acesso mais amplo ao material guardado pelo aventureiro.
Isso permitirá observar os acontecimentos sem a mediação de uma atuação. As imagens foram registradas dentro do cânion, durante os dias em que Ralston ainda não sabia se conseguiria sair vivo.
Quando o novo documentário será lançado?
A National Geographic confirmou que o filme chegará em 2027, mas ainda não divulgou o título oficial nem uma data específica.
Também não há confirmação sobre a estreia no Brasil ou sobre sua distribuição pelo Disney+. Produções da National Geographic Documentary Films costumam passar primeiro por festivais e salas de cinema antes de chegar às plataformas da Disney, mas o planejamento deste projeto ainda não foi detalhado.
O documentário terá produção da Magna Studios e será construído em torno das gravações pessoais de Ralston. A classificação indicativa também permanece indefinida, algo especialmente relevante devido à natureza do caso e às possíveis imagens exibidas.