
Nem toda sequência de terror consegue repetir o sucesso do filme original, mas o público do Disney+ parece disposto a dar uma segunda chance para a família mais violenta do cinema recente. Desde que chegou à plataforma em 2 de julho, Casamento Sangrento: A Viúva conquistou assinantes que já conheciam a primeira caçada de Grace pela mansão dos Le Domas e também entre quem só ouviu falar da franquia agora.
O filme chegou ao streaming e escalou rápido entre os títulos mais assistidos da plataforma, sinal de que o boca a boca sobre a continuação segue firme.
Parte da explicação está na própria história. Grace, interpretada por Samara Weaving, sobrevive ao jogo mortal da família de seu ex-noivo apenas para descobrir que aquilo era só a primeira fase de um pesadelo maior. Ao lado da irmã distante Faith (Kathryn Newton), ela agora precisa disputar o controle de um conselho secreto formado por quatro famílias ricas dispostas a tudo para vencer.
O que rendeu à sequência tanta conversa nos bastidores, porém, vai muito além da trama. Direção, elenco e equipe de efeitos especiais protagonizaram histórias que os fãs mais atentos provavelmente não conhecem, e que ajudam a entender por que o filme conquistou tanta gente no Disney+.
Tudo começou de um jeito bem diferente do que se imagina. Os diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett já tinham em mãos um projeto próprio sobre duas irmãs distantes, pensado especialmente para Kathryn Newton e Samara Weaving. Foi a Searchlight Pictures que os procurou para assumir a sequência de Casamento Sangrento (2019), e a dupla decidiu unir as duas ideias em um só roteiro.
A proposta agradou o estúdio, mas criou um problema de continuidade. O primeiro filme deixava claro que Grace não tinha família viva, então Guy Busick e R. Christopher Murphy precisaram reescrever a história para encaixar Faith como irmã distante da protagonista sem contradizer o que já havia sido mostrado na tela. O resultado colocou o ritual mortal logo depois dos eventos do filme anterior, agora espalhado entre várias famílias rivais em vez de uma só.
Uma homenagem discreta a Buffy
Kathryn Newton é fã antiga de Sarah Michelle Gellar e da personagem que a consagrou, Buffy, a Caça-Vampiros. Tanto que levou para o set uma foto da atriz na primeira aparição de Buffy na tela, ainda em 1997, e recriou o figurino e o penteado para sua própria cena de abertura no filme. Gellar percebeu a semelhança assim que gravaram juntas pela primeira vez. “O penteado é exatamente igual”, contou a atriz, surpresa com o carinho da colega de elenco.
A brincadeira com o passado de Gellar não parou por aí. Bettinelli-Olpin e Gillett contaram que tiveram dificuldade para escolher armas para a personagem Ursula Danforth sem esbarrar no arsenal que Buffy Summers já usou na série, entre 1997 e 2003. Toda vez que ofereciam um item novo, a atriz reconhecia a peça na hora. Quando pensaram em uma balestra (besta), a resposta veio rápido. “Buffy já tinha uma balestra!”, teria dito Gellar aos diretores. Quando trocaram por um lança-foguetes para as cenas de ação maiores, o comentário se repetiu, e a atriz lembrou que já havia empunhado a mesma arma em um dos episódios da série.
Um oceano de sangue artificial

Para dar conta da violência que marca a franquia, a produção recorreu a uma quantidade de sangue artificial pouco comum até para o gênero terror. Segundo os próprios diretores, foram usados 325 galões de sangue falso ao longo das filmagens, dos quais 140 galões só na sequência final. A equipe de efeitos especiais chegou a construir 14 canhões de sangue para dar conta de uma cena específica.
O exagero saiu da tela para as salas de cinema. Em exibições especiais no formato 4DX, o público foi surpreendido com jatos de sangue falso disparados durante os momentos mais violentos do filme, numa tentativa de tornar a experiência ainda mais imersiva para quem topasse encarar a sessão vestido com capa de chuva.
Uma recuperação contra o tempo
Pouco antes das filmagens começarem, Samara Weaving sofreu uma lesão grave nas costas. A atriz revelou que chegou a ficar sem conseguir andar, com um disco morto e três discos protuberantes na coluna. “Eu estava seriamente machucada antes de filmar isso”, contou em entrevista promocional. Ela só recuperou os movimentos dois dias antes do início das gravações.
A produção chegou a temer pela continuidade do projeto. Segundo Weaving, os produtores acompanhavam a recuperação dia a dia, preocupados com a possibilidade de a atriz não conseguir desempenhar fisicamente um papel tão exigente. Ela conta que só passou pelo período com a ajuda do marido, o roteirista Jimmy Warden, que a auxiliou nas tarefas mais básicas enquanto ela ainda dependia de medicação para dor.
Da incerteza à irmandade das protagonistas

Antes de vestir a pele de Faith, Kathryn Newton conheceu Samara Weaving em uma sessão privada de Casamento Sangrento organizada pelos próprios diretores. As duas se descreveram como igualmente desajeitadas naquele primeiro encontro, mas encontraram rapidamente uma cumplicidade que acabou aparecendo na tela, já que boa parte das cenas exigia que as personagens permanecessem algemadas uma à outra. Sarah Michelle Gellar, que assistiu ao filme pronto ao lado do marido Freddie Prinze Jr., também elogiou a química das duas depois da exibição.
Nem sempre essa continuação pareceu possível. Weaving contou que, logo depois do lançamento do primeiro filme, ninguém apostava em uma sequência. “Ninguém achava que teria uma continuação”, revelou a atriz. Os primeiros boatos sobre um novo capítulo pareciam distantes até virarem conversas reais, depois contratos assinados e, por fim, um roteiro em produção. Para ela, a experiência reforçou o carinho pelo elenco original, que classificou como parte de seus atores favoritos para trabalhar.
A partir daqui o texto entra em terreno de spoiler. Quem ainda não assistiu ao filme e prefere se surpreender pode parar por aqui.
Cuidado, spoiler a partir daqui
Os curiosos de plantão vão gostar de saber que nem todo desfecho ficou claro na tela. Os diretores confirmaram que Martina Rajan, personagem que foge da mansão antes do terceiro ato, também explode ao final da história. Segundo a dupla, ela sobrevive até o amanhecer, mas como seu nome constava no contrato do pacto, acaba eliminada onde quer que estivesse. A equipe chegou a cogitar uma cena com o carro dela destruído e coberto de sangue na beira da estrada, enquanto Grace e Faith passavam ao lado, mas a ideia não saiu do papel.
Outro momento que rendeu comentário nos bastidores envolve um dos poucos integrantes não humanos do elenco. Quando os satanistas se curvam diante da ascensão de Grace ao poder, é um bode quem reconhece a nova líder primeiro. Segundo Matt Bettinelli-Olpin, a cena não estava no roteiro. Toda a equipe reagiu no set ao perceber o que o animal tinha feito por conta própria, batizado de Winnie pela produção, que Tyler Gillett elogiou depois pelo desempenho.
A raiz de toda a sequência também esconde uma curiosidade e tanto. Guy Busick e R. Christopher Murphy chegaram a escrever uma cena pós-créditos para o primeiro filme, cortada por falta de orçamento. A cena mostrava um grupo de pessoas ricas em um salão discutindo o destino da família Le Domas, antes de revelar uma multidão inteira venerando Le Bail. O material nunca usado acabou virando o ponto de partida para a sequência. A ideia incluía uma nova rodada do jogo depois da vitória de Grace, agora com integrantes de outras famílias rivais em busca do mesmo trono.
Com tanta informação de bastidores, fica mais fácil entender por que Casamento Sangrento: A Viúva segue firme entre os títulos mais assistidos do Disney+, e por que os fãs mais atentos já pedem uma nova rodada desse jogo mortal.