
Poucas histórias da ficção científica carregam uma reputação tão forte de serem impossíveis de adaptar quanto O Guia do Mochileiro das Galáxias. Criada por Douglas Adams primeiro como uma série de rádio da BBC, a franquia se expandiu para romances, quadrinhos, um seriado de TV britânico e, décadas depois, um longa-metragem estrelado por Martin Freeman.
A trama acompanha Arthur Dent, um humano que escapa por pouco da destruição da Terra graças à ajuda do alienígena Ford Prefect. A partir daí, os dois passam a viajar pelo espaço ao lado de Trillian, Zaphod Beeblebrox e do androide depressivo Marvin.
Em 2019, um novo capítulo dessa história parecia prestes a começar. O Hulu, serviço de streaming norte-americano controlado pela Disney, anunciou o desenvolvimento de uma série baseada nos livros de Adams, sob o comando de Carlton Cuse, conhecido por Lost.
Sete anos depois, esse projeto chegou ao fim, e o próprio Cuse explicou o motivo.
O que Carlton Cuse disse sobre o cancelamento
Em entrevista ao site ScreenRant, concedida durante o evento Italian Global Series de 2026, Cuse confirmou que não está mais envolvido no projeto e que a série nunca foi produzida.
O roteirista, vencedor do Emmy (principal prêmio da televisão americana), afirmou que trabalhou na adaptação “há alguns anos” e chamou o romance de Adams de “um dos meus livros favoritos de todos os tempos”.
Ainda assim, Cuse reconheceu que transformar a obra em série provou ser uma tarefa mais difícil do que ele e o coshowrunner Jason Fuchs imaginavam. Segundo ele, a equipe de roteiristas “não conseguiu encontrar um jeito de fazer isso” funcionar sob uma perspectiva atual.
Ao comentar o desfecho do projeto, o criador foi direto:
“Isso acontece às vezes quando você trabalha em coisas assim. Valeu a pena tentar, porque eu amo muito aquela história. Mesmo sem ter saído do papel, foi ótimo mergulhar de novo naquele mundo, porque ele é brilhante.”
Por que o livro é considerado difícil de adaptar

A fama de O Guia do Mochileiro das Galáxias como material praticamente inadaptável não é recente. A estrutura do romance foge do convencional, intercalando a jornada de Arthur Dent com trechos do próprio guia intergaláctico que dá nome à obra.
Some-se a isso o tom de humor absurdo e os eventos deliberadamente caóticos das aventuras do grupo, elementos difíceis de transpor para um roteiro linear de televisão.
Apesar disso, as duas adaptações anteriores conquistaram o público fiel aos livros. A série de TV de 1981 teve a participação de John Lloyd, um dos autores do roteiro de rádio original, enquanto o próprio Douglas Adams ajudou a escrever o roteiro do filme de 2005 antes de morrer.
Vale lembrar que a Disney detém os direitos da propriedade intelectual de O Guia do Mochileiro das Galáxias desde a produção do longa de 2005, o que manteve o projeto da série sob o guarda-chuva do estúdio mesmo após a Hulu se tornar parte do grupo.
A trajetória de Cuse e o futuro incerto do projeto
Caso tivesse sido concluída, a série não seria a primeira incursão de Cuse em adaptações de peso. Depois do sucesso de Lost, ele criou Bates Motel, prelúdio de Psicose, além de coproduzir Jack Ryan, com John Krasinski, e a adaptação de Locke & Key pela Netflix.
O caminho do projeto no Hulu nunca foi simples. Desde o anúncio em 2019, a produção passou por relatos contraditórios, incluindo uma renovação antecipada para uma segunda temporada e sucessivos períodos de pausa antes mesmo das gravações começarem.
A saída de Cuse não significa, necessariamente, que a Hulu descartou de vez a ideia de adaptar a obra de Adams. O gênero de ficção científica vive um momento forte na televisão, e outros títulos com fama de inadaptáveis vêm ganhando versões bem recebidas, como Fundação, da Apple TV, e Duna, da Warner Bros. Isso pode motivar o streaming a tentar, no futuro, um novo caminho para O Guia do Mochileiro das Galáxias.