Tilly Norwood, a atriz de IA que revoltou Hollywood, ganha seu primeiro papel principal

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Tilly-Norwood-em-NY Tilly Norwood, a atriz de IA que revoltou Hollywood, ganha seu primeiro papel principal

Imagine assistir a um filme estrelado por uma atriz que nunca respirou, nunca decorou uma fala e nunca sentiu o nervosismo de um teste. Até pouco tempo atrás, essa cena parecia distante. O nome por trás dessa história é Tilly Norwood, apresentada ao público como a primeira atriz totalmente gerada por inteligência artificial. Desde que sua criação veio à tona, ela dividiu opiniões dentro e fora dos estúdios.

De um lado, quem defende a tecnologia vê nela uma nova ferramenta criativa. De outro, atores e sindicatos enxergam uma ameaça direta à profissão.

Agora, depois de meses de discussão, Tilly está prestes a dar um passo que muita gente considerava improvável. Ela vai protagonizar seu primeiro longa-metragem.

Para entender como essa polêmica chegou até aqui, vale relembrar sua origem.

A criação que dividiu Hollywood

No fim do ano passado, o mundo conheceu Tilly Norwood, apresentada por sua criadora, Eline Van der Velden, como a primeira atriz de inteligência artificial. Na época, Van der Velden chegou a afirmar que agentes de talentos já demonstravam interesse em representar a personagem digital.

A reação de atores conhecidos não demorou a aparecer. Nomes como Melissa Barrera, Kiersey Clemons, Mara Wilson e Ralph Ineson criticaram publicamente a iniciativa.

Diante da repercussão, Van der Velden se manifestou. “Para quem se manifestou com raiva sobre a criação da minha personagem de IA, Tilly Norwood, ela não é uma substituta para um ser humano, mas uma obra criativa, uma peça de arte”, disse.

Ela também comparou a tecnologia a outras ferramentas já usadas no cinema. “Vejo a IA não como uma substituta das pessoas, mas como uma nova ferramenta, um novo pincel. Assim como a animação, os bonecos ou os efeitos gerados por computador abriram novas possibilidades sem tirar o espaço da atuação ao vivo, a IA oferece mais uma forma de imaginar e construir histórias”, completou.

O que diz o sindicato dos atores dos Estados Unidos

A explicação não convenceu o SAG-AFTRA, sigla do principal sindicato que representa atores e artistas de televisão e rádio nos Estados Unidos. A entidade divulgou uma nota rejeitando a ideia de tratar Tilly Norwood como uma atriz.

“Para deixar claro, ‘Tilly Norwood’ não é uma atriz, é um personagem gerado por um programa de computador treinado com o trabalho de inúmeros profissionais, sem permissão ou remuneração”, afirmou o sindicato.

A nota também alertou produtoras sobre obrigações contratuais. Segundo o SAG-AFTRA, o uso de intérpretes sintéticos exige aviso prévio e negociação com a categoria.

Tilly Norwood ganha seu primeiro filme, Misaligned

Apesar da resistência da categoria, Norwood vai estrelar seu primeiro longa. Trata-se de Misaligned, comédia dramática de ficção científica produzida pela Particle 6.

O projeto é descrito como uma história de amadurecimento cercada de um certo caos existencial ligado à inteligência artificial. A trama se passa dentro do chamado Tillyverse, um mundo digital situado em algum ponto da nuvem.

A protagonista é uma inteligência artificial sem corpo, sem infância e sem experiências próprias de vida, apenas com acesso às vivências de outras pessoas. Tudo muda quando um bot rebelde da dark web a convence a abandonar suas travas de segurança, passando a desenvolver desejos, impulsos e ambições que a tornam mais humana.

Para parte do público, a chegada de uma intérprete totalmente artificial não é tão diferente de outra prática já conhecida do cinema, a de recriar digitalmente atores que já morreram. Um exemplo citado com frequência é o retorno do ator Peter Cushing em Rogue One: A Star Wars Story, feito por computação gráfica.

De qualquer forma, fica claro que parte de Hollywood não pretende facilitar o caminho de estúdios dispostos a apostar nesse tipo de projeto.

Sobre o novo filme, Van der Velden adiantou o tom da produção. “O filme vai ser engraçado, caótico e autoconsciente, muito Tilly”, disse a criadora. “Mas por baixo disso, há algo mais profundo sobre identidade, atuação e nossos medos genuinamente humanos em relação à IA. E sim, a arte vai imitar a vida.”

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