O Urso termina com uma escolha que poucos imaginavam

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Nem todo grande jantar termina com uma sobremesa à altura. Às vezes, depois de uma sequência impecável de pratos, o encerramento chega doce demais, sem graça ou apenas interessado em lembrar ao cliente que a cozinha ainda sabe fazer pose.

Com O Urso, havia um risco parecido. A série do FX, disponível no Disney+, passou as últimas temporadas flertando com o excesso. O olhar cada vez mais fechado sobre Carmy Berzatto, interpretado por Jeremy Allen White, ameaçou sufocar justamente aquilo que havia tornado a produção tão especial no começo: a energia de uma equipe tentando sobreviver, errando, gritando, aprendendo e encontrando algum tipo de afeto no caos da cozinha.

A quinta e última temporada, porém, entende algo simples. Em vez de tentar explicar tudo, resolver tudo e transformar cada despedida em discurso, O Urso volta para dentro do restaurante. Mais precisamente, para uma única noite em que tudo pode acabar.

É nesse retorno ao básico que a série encontra seu melhor caminho para dizer adeus.

Atenção: o texto abaixo contém spoilers da quinta temporada de O Urso, incluindo o último episódio.

Uma última noite para salvar o The Bear

Sete dos oito episódios da temporada final se passam ao longo de um único dia. E não é qualquer dia. O restaurante The Bear, mantido de pé com o dinheiro do tio Jimmy (Oliver Platt), descobre que não tem mais meses para provar sua viabilidade. Agora, a equipe tem horas.

Um dos outros investimentos de Jimmy desaba, fornecedores começam a cobrar dívidas, entregas são suspensas, funcionários se perguntam se o próximo pagamento vai cair e Chicago enfrenta uma tempestade quase apocalíptica. Para piorar, o Resy sai do ar, justamente quando o salão precisa funcionar com precisão absoluta.

A pressão financeira obriga o restaurante a abandonar qualquer ilusão de abundância. Cada ingrediente passa a contar. Cada pedaço de wagyu precisa ser usado com cuidado. Os pratos diminuem, adaptações surgem na marra e até a manteiga cara de Vermont, antes tratada por Carmy como insubstituível, entra em uma preparação apenas para engrossar um molho.

No fim da noite, a equipe está praticamente cozinhando com sobras. E é nesse limite que O Urso reencontra sua melhor versão.

A temporada deixa de insistir tanto no tormento pessoal de Carmy e passa a observar profissionais fazendo o que sabem fazer. Sydney (Ayo Edebiri) mostra que está pronta para ocupar o espaço dele. Tina (Liza Colón-Zayas) entende que consegue comandar uma cozinha. Richie (Ebon Moss-Bachrach) lida com o salão como alguém que aprendeu, de verdade, o sentido da hospitalidade.

Em vez de dizer ao público que esses personagens mudaram, a série apenas coloca todos para trabalhar.

Menos Carmy, mais equipe

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O acerto da temporada final está justamente em reduzir o peso de algumas tramas que vinham consumindo espaço demais.

A relação de Carmy com Claire (Molly Gordon), por exemplo, quase não recebe atenção. Depois de tanto tempo dedicado ao dilema sobre o lugar do amor na vida do chef, a série simplesmente escolhe não transformar isso no centro do adeus. Claire aparece, mas de forma silenciosa, durante uma festa de aniversário da filha de Richie.

A relação de Carmy com a mãe também fica sem grande resolução. Para alguns, isso pode parecer uma pendência. Dentro da temporada, no entanto, a escolha ajuda a manter o foco onde ele rende mais: no restaurante, na equipe e nas pequenas mudanças que aconteceram longe dos discursos.

Com Carmy um pouco menos no centro, Sydney ganha espaço para assumir o crédito pelas estrelas Michelin que o público já esperava. Tina descobre prazer na responsabilidade que antes parecia assustadora. Ebra (Edwin Lee Gibson) usa o que aprendeu para ajudar The Bear a sair do sufoco financeiro por meio da franquia.

Richie, por sua vez, talvez seja quem receba o desfecho mais surpreendente.

Richie ganha o final que merecia

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O último episódio não termina com Carmy. Também não termina com Sydney. A imagem final acompanha Richie e Jess (Sarah Ramos) de mãos dadas em um voo para o Japão.

É uma escolha inesperada, mas faz sentido. O Urso resiste à pressão de transformar Carmy e Sydney em casal, embora entregue um abraço forte o bastante para alimentar a imaginação dos fãs. O romance que a série decide abraçar é outro.

Richie, que já cantou Love Story a plenos pulmões, recebe uma história de amor própria.

Ao longo da série, ele foi quem melhor absorveu a ideia de que restaurantes não existem apenas para servir comida. Eles existem para cuidar das pessoas. Foi Richie quem correu atrás de uma pizza deep-dish para que clientes tivessem um pedaço verdadeiro de Chicago. Foi ele quem improvisou uma mesa extra para que um casal idoso não perdesse seu jantar de aniversário.

O sujeito antes amargo, sempre na defensiva, aprendeu a encontrar beleza no serviço. Perto do fim da noite mais caótica de The Bear, ele resume a própria virada: “Eu costumava odiar pessoas. Agora eu amo pessoas.”

A frase funciona porque não parece uma lição pronta. Parece alguém que mudou aos poucos, no atrito do trabalho, nas perdas, nas humilhações e nas raras vitórias.

O silêncio fala mais alto no adeus de O Urso

A temporada ainda dá a Carmy um último monólogo atormentado, agora diante de uma arquiteta, ao explicar por que quer deixar a cozinha e estagiar no escritório dela. Só que a cena tem algo de piada, como se a própria série entendesse que já havia levado esse tipo de sofrimento ao limite.

Os momentos mais fortes do final são menores.

Richie e Jess entrelaçam os dedos, hesitam e apertam a mão um do outro. Marcus revela que a vela colocada na mesa do pai afastado manteve aquecido, durante toda a noite, o molho da sobremesa. A delicadeza da cena não vem apenas da doçura, mas da surpresa.

No fim, O Urso não tenta transformar sua despedida em um banquete interminável. A série serve o prato, deixa a equipe respirar e encerra antes que o gosto se perca.

Todas as temporadas de O Urso estão disponíveis no Disney+.

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