
Existe uma regra não escrita que rege o universo animado há décadas: personagens de desenho, como Mickey Mouse, têm quatro dedos. Homer Simpson tem quatro dedos. Bart, Marge, Lisa, Maggie, todos os habitantes de Springfield, sem exceção, têm quatro dedos.
Bem, quase sem exceção.
Os Simpsons é uma série cheia de convenções próprias, mas guarda um detalhe que poucos espectadores percebem: há um personagem que foge completamente dessa regra.
Ele aparece ao longo de décadas da série mais longeva da televisão americana em horário nobre e, toda vez que surge, carrega dez dedos nas mãos e dez dedos nos pés.
Esse personagem é Deus.
E a história por trás desse detalhe diz muito sobre o que Os Simpsons sempre foram, e sobre os debates que a série provocou desde antes de estrear.
Por que personagens de animação têm quatro dedos?
A resposta mais direta é: por praticidade. Animar mãos é trabalhoso. Quanto menos dedos, menos tempo gasto por cena, e ao longo de dezenas de episódios isso representa uma economia enorme de recursos. Walt Disney dizia que desenhar cinco dedos faria as mãos dos personagens parecerem um “cacho de bananas”.
Não é coincidência que muitos dos primeiros personagens de animação usassem luvas brancas: facilitar o desenho das mãos era uma prioridade desde os primórdios do gênero. Como muitos personagens clássicos também eram animais, a questão da anatomia humana sequer se colocava.
Em Os Simpsons, o criador Matt Groening explicou no documentário da BBC The Simpsons: America’s First Family que a série opera sob o que ele chama de “realidade elástica”.
Há regras rígidas que governam a animação, mas elas podem ser dobradas quando necessário. E foi exatamente isso que aconteceu com O Todo-Poderoso.
A primeira aparição de Deus em Springfield

A estreia de Deus na série aconteceu em 1992, no episódio Homer, o Herege, da quarta temporada. No mesmo ano em que George Bush pai declarou publicamente que queria que as famílias americanas fossem “muito mais parecidas com os Waltons e muito menos com os Simpsons”, a série respondia à altura.
Bart, com sua esperteza habitual, rebateu: “Ei, somos igualzinhos aos Waltons. Nós também estamos rezando pelo fim da depressão.”
No episódio, Homer decide parar de ir à igreja. Durante um sonho, Deus aparece para questioná-lo. Não vemos o rosto divino, mas as mãos são bem visíveis: quatro dedos e um polegar em cada uma, mais cinco dedos em cada pé. Dez dedos nas mãos, dez nos pés. Nenhum outro personagem da série tem isso.
Há, porém, uma ressalva curiosa. Perto do final do mesmo episódio, Deus aparece brevemente com apenas quatro dedos, como qualquer outro morador de Springfield. Um erro de animação que escapou para o produto final.
No comentário do DVD, o diretor Jim Reardon contou que foi questionado sobre isso inúmeras vezes. “As pessoas atribuíram todo tipo de teoria religiosa a isso”, disse ele, “e eu respondo: ‘Simplesmente passou despercebido para mim.'”
A série sempre teve Deus no elenco

Quando Os Simpsons estreou em 1989, a reação de grupos religiosos foi intensa. Escolas chegaram a proibir camisetas com a frase “Bart Simpson: ‘Fracassado’, e com muito orgulho!”. James Dobson, fundador da organização cristã Focus on the Family, chegou a escrever em seu livro que a camiseta incentivava jovens “determinados a fracassar na escola”.
O que esses críticos talvez não percebessem é que Os Simpsons sempre retrataram uma família que vai à igreja regularmente, que reza antes das refeições e que, em vários momentos, conta com a presença literal de Deus na trama.
Como Groening resumiu no documentário da BBC: “Eles querem famílias que tenham Deus em suas vidas. Os Simpsons têm Deus em suas vidas. A gente até mostra Deus. E mesmo assim não são gratos!”
Depois de Homer, o Herege, Deus voltou a aparecer em outros episódios ao longo das 37 temporadas da série. Jesus também surgiu em algumas ocasiões e, em determinadas cenas, foi desenhado da mesma forma, com dez dedos. Mas é Deus o único personagem que, de forma consistente ao longo de toda a história da série, recebeu esse tratamento especial.
Em um universo onde a “realidade elástica” permite que os personagens morram e ressuscitem, envelheçam e rejuvenesçam, e onde Springfield já abrigou celebridades de todos os tipos, esse detalhe anatômico passou décadas quase despercebido. Mas está lá, episódio após episódio: enquanto toda Springfield tem quatro dedos, Deus tem dez.
Os Simpsons está disponível no Disney+.