
O Disney+ foi, durante anos, sinônimo de desenhos animados, princesas e universos infantis. Para muita gente, abrir o aplicativo era coisa de criança ou de pai e mãe tentando dar cinco minutos de paz ao fim de um dia longo. Mas esse retrato está ficando para trás.
Com a chegada do conteúdo geral de entretenimento do Star, integrado ao serviço em vários países (e rebatizado como Hulu posteriormente), a plataforma foi mudando de cara aos poucos.
E agora os números começam a confirmar o que a estratégia já indicava: o Disney+ cresceu.
Os dados que surpreenderam
Durante um painel no Enders Conference, Karl Holmes, responsável pelo Disney+ na Europa, Oriente Médio e África, apresentou dados inéditos coletados pelo Barb, principal órgão britânico de medição de audiência televisiva.
Os números chamam atenção: 40% das horas assistidas no Disney+ no Reino Unido são de pessoas entre 16 e 34 anos. Para efeito de comparação, a fatia equivalente no Netflix é de 32%, no Prime Video é de 27% e no Paramount+ é de 23%.
“O Disney+ agora atrai adultos tanto quanto crianças. Mas é importante destacar que nosso público adulto é, de forma clara, jovem. O público de adultos jovens é aquele que conhecemos e entendemos bem, e tem uma afinidade muito forte com as franquias e o conteúdo que estão no centro do Disney+”, disse Holmes.
O executivo ainda destacou o sucesso da série britânica Rivals, afirmando que a segunda temporada já supera a primeira em audiência.
Aposta em conteúdo adulto (e local)

A virada não é coincidência. A Disney tem investido com consistência em produções voltadas ao público adulto. The Kardashians, Xógum e Rivais são alguns dos títulos que ajudaram a mudar a percepção do serviço nos últimos anos.
E a estratégia vai além das grandes produções globais. Holmes sinalizou que a empresa pretende acelerar também o ritmo de produções locais:
“A partir de agora, os clientes do Disney+ vão começar a ver uma frequência maior de séries do próprio mercado deles. Estamos aumentando o número de Originais locais.”
Isso é relevante porque países da Europa, América Latina e Ásia têm pressionado plataformas estrangeiras a investir em conteúdo nacional, seja por exigência de mercado ou por legislações em construção que obrigam streamers internacionais a destinar uma parte do orçamento para produções locais.
Um problema antigo, uma solução em curso
A dificuldade do Disney+ com o público mais velho não é novidade. Walt Disney, décadas atrás, já alertava sobre os riscos de uma empresa de entretenimento focar só no público infantil. O desafio de expandir a audiência sem alienar o núcleo original sempre foi uma das tensões mais delicadas da marca.
Nos últimos anos, Marvel e Star Wars foram os principais atrativos para puxar adultos ao serviço. Mas ambas as franquias passaram por momentos difíceis de recepção, o que tornou o Hulu, nos Estados Unidos, a principal porta de entrada para esse público.
Com crianças pequenas, o Disney+ não enfrenta o mesmo problema. Títulos como Bluey garantem uma base fiel de pré-escolares.
O gargalo está na faixa intermediária: crianças mais velhas e adolescentes, que migram com facilidade para o consumo de vídeos em redes sociais e têm menos apego a plataformas de streaming tradicionais.
O que muda daqui para frente
A combinação de dados positivos de audiência jovem adulta, aumento no ritmo de Originais locais e um portfólio de séries que vai muito além do universo infantil indica que o Disney+ está, de fato, em processo de reposicionamento.
Não é uma transformação da noite para o dia. É um ajuste de rota que vem sendo construído ao longo de anos e que agora começa a se traduzir em números concretos.
Para quem ainda enxerga o Disney+ como plataforma exclusiva de animações, talvez seja hora de rever esse julgamento.