
Vinte e sete anos depois, os fãs voltaram a falar sobre uma morte que acontece em menos de trinta segundos e deixa um desconforto difícil de explicar.
Star Wars é uma franquia construída sobre guerra, perda e sacrifício. Personagens morrem o tempo todo. Planetas inteiros são destruídos. E, ainda assim, a maioria dessas mortes vem embalada em espetáculo, heroísmo ou pelo menos algum peso dramático.
O que torna Star Wars: Episódio I — A Ameaça Fantasma diferente, pelo menos nesse detalhe específico, é que um dos momentos mais brutais da saga inteira acontece de passagem, durante uma corrida de pods, e o filme simplesmente segue em frente como se nada tivesse acontecido.
A morte em questão é a de Ratts Tyerell, durante a Corrida Clássica de Boonta Eve. E ela voltou a circular nas redes sociais depois que fãs redescobriram o que torna a sequência ainda mais sombria do que parece à primeira vista.
Uma publicação do usuário @NudeGunray no X chamou a cena de “o momento mais assustador de toda a saga Star Wars“.
Pouco depois, o criador Jacob Andrews (@jtimsuggs) lembrou que cenas deletadas do filme tornam tudo significativamente pior.
Por que essa morte incomoda tanto
A sequência em si é rápida. Ratts perde o controle do pod depois de uma colisão, os motores giram violentamente, batem na parede do cânion e explodem. No meio de tudo isso, ele solta um grito de pânico que não tem nada de heroico nem de épico. É o grito de alguém com medo de morrer.
George Lucas não enquadra o momento como sacrifício nem como casualidade de guerra. Não há música sentimental, não há câmera lenta, não há personagem parando para lamentar. Ratts morre aterrorizado, os efeitos práticos fazem o impacto parecer fisicamente brutal, e a corrida simplesmente continua.
O que a cena deixa claro, quase sem querer, é que o podracing é um esporte mortal realizado diante de milhares de torcedores que encaram a possibilidade de um piloto explodir como parte normal do entretenimento. Isso já seria perturbador sozinho. Mas aí entram as cenas deletadas.
A família que o filme não quis mostrar
Entre o material cortado de A Ameaça Fantasma há uma cena em que a esposa e os filhos de Ratts Tyerell aparecem nas arquibancadas, acompanhando a corrida para torcer por ele. Nos diálogos, alguém menciona que a esposa acabara de receber alta do hospital depois do nascimento de um novo filho.
Então Ratts morre. Na prática, diante deles.
Esse contexto muda completamente o peso da sequência. O alienígena que grita antes de colidir com a parede do cânion não é mais um figurante criado para elevar o risco dramático da corrida. Ele é um marido e pai que morreu num evento esportivo enquanto a família assistia das arquibancadas.
Não por acaso, o paralelo com tragédias reais do automobilismo é difícil de ignorar. Lucas foi buscar referências na Fórmula 1 e em outras categorias de corrida para construir a Corrida de Boonta Eve, incluindo gravações de carros de F1 na mixagem de som do pod de Anakin Skywalker. O objetivo era fazer o podracing parecer veloz, perigoso e autêntico. Conseguiu com mais precisão do que talvez pretendesse.
O filme que seguiu em frente rápido demais
A morte de Ratts é o ponto exato em que A Ameaça Fantasma convence o espectador de que aquela corrida tem consequências reais. A partir dali, cada curva deveria carregar tensão genuína. Mas o próprio filme parece não saber o que fazer com o que acabou de mostrar.
A multidão reage como se nada de importante tivesse acontecido. Os demais pilotos continuam. Nenhum personagem principal para, comenta ou demonstra qualquer reação. A Ameaça Fantasma volta para o modo aventura em questão de segundos, e essa frieza emocional é grande parte do motivo pelo qual a morte de Ratts Tyerell ainda incomoda tanto mais de duas décadas depois.
Muita gente morre em Star Wars. Pouquíssimas mortes combinam terror genuíno, implicações trágicas e indiferença coletiva da mesma forma. É um dos raros momentos em que a galáxia muito, muito distante parece desconfortavelmente próxima do mundo real.