
Sem aviso prévio e sem alarde, o Disney+ removeu Fédro do seu catálogo nesta sexta-feira (01/05). O documentário, que reúne Reynaldo Gianecchini e o saudoso José Celso Martinez Corrêa, simplesmente deixou de aparecer na plataforma para os assinantes brasileiros. Trata-se de um dos documentários brasileiros mais pessoais já lançados no formato.
Fédro estreou em janeiro de 2022 no Star+, o serviço de streaming que a Disney descontinuou na América Latina. Em junho de 2024, com a migração do catálogo do Star+ para o Disney+, o documentário passou a integrar a nova plataforma unificada. Agora, quase dois anos depois dessa migração, nosso monitoramento exclusivo detectou a exclusão.
Dirigido por Marcelo Machado, o mesmo cineasta por trás de Tropicália, o filme registra o reencontro entre duas figuras centrais da cultura nacional depois de mais de 20 anos afastadas. O pretexto é filosófico: a leitura de Fédro, o diálogo de Platão sobre amor, beleza e a loucura da alma. Na prática, o documentário vai muito além disso.
O núcleo do filme é simples na forma, mas poderoso no conteúdo. Zé Celso assume o papel de Sócrates. Gianecchini interpreta Fédro. A leitura do texto clássico funciona como um espelho da relação que os dois construíram décadas atrás, quando eram mestre e aprendiz no Teatro Oficina, em São Paulo.
A história entre eles carrega peso. Gianecchini foi descoberto por Zé Celso nos anos 90, estreando na peça Cacilda!. Pouco depois, ele deixou o teatro para se tornar um dos principais galãs da TV Globo, a partir de Laços de Família. Para Zé Celso, aquela saída foi vivida como uma traição à arte visceral que ele defendia a vida inteira.
Fédro, o documentário, sela essa paz.
Intimidade sem filtro

Quase todo o filme foi gravado no apartamento de Zé Celso, em São Paulo. O ambiente é o que se esperaria de um lugar habitado por ele: caótico, repleto de livros e de memórias. As câmeras registram ensaios, falhas de memória, provocações diretas e trocas de afeto que nenhum roteiro conseguiria fabricar.
Há nudez, filosofia e momentos em que Zé Celso questiona Gianecchini sobre as escolhas de carreira e a imagem pública construída ao longo dos anos na televisão. Não existe separação nítida entre o texto de Platão e a vida real dos dois.
Marcelo Machado usa ângulos inusitados e uma estética que mistura teatro e linguagem contemporânea para dar ao filme um senso de urgência e de intimidade ao mesmo tempo.
Fédro (2021) ganhou um peso ainda maior depois da morte de Zé Celso, em julho de 2023. O documentário tornou-se um dos registros mais puros de sua energia, de sua capacidade de transformar qualquer conversa em um ato artístico e de sua relação com a geração de artistas que ele ajudou a formar.
Veja abaixo a imagem e a sinopse que estavam cadastradas no Disney+.
Fédro (2021)

Fédro é um documentário que narra a trajetória do ator Reynaldo Gianecchini e de seu mentor, o lendário diretor José Celso Martinez Corrêa, fundador do Teatro Oficina Uzyna Uzona e que em 1967 mudou para sempre a forma como o teatro é feito no Brasil.
Fédro se passa em um apartamento no Centro de São Paulo, onde ator e diretor se reencontram para a primeira leitura do diálogo Fedro, de Platão, adaptado por Zé Celso. Um reencontro evitado por mais de duas décadas. Nesse reencontro, afeto e coragem ressurgem como lembranças, lições e revisões da existência individual e coletiva. Zé é Sócrates e Gianecchini é Fedro, ou vice-versa; não há separação, há apenas uma fusão de corpos e almas.